Jabuti 2016: "Devagar e simples"

Um dos idealizadores do Plano Real, André Lara Resende é um economista renomado que tem duas obras publicadas pela Companhia das Letras: Os limites do possível - A economia além da conjuntura (2013) e Devagar e simples - Economia, Estado e vida contemporânea, publicado em 2015 vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Economia, Administração, Negócios, Hotelaria e Lazer. 

Devagar e simples reúne 13 artigos do economista que abordam questões atuais da economia brasileira. Na Folha de S. Paulo, Fernando Cazian explica como o livro é dividido: "os dois primeiros [ensaios] se encaixam perfeitamente em nosso drama atual de economia em forte recessão. Outros mais à frente, na discussão premente sobre a necessidade de um ajuste fiscal profundo, do tamanho do Estado e de suas funções". E ainda completa: "Além dos artigos econômicos, o livro surpreende com a aparição de temas existenciais, filosóficos e psicanalíticos, como no ensaio 'Em busca do heroísmo genuíno'".

Para Pedro Malan, que escreveu a orelha de Devagar e simples, "o leitor que se debruçar sobre estes textos, na ordem que lhe aprouver, verá que este livro passa, com galhardia, no teste de Harold Bloom para uma obra que valha a pena: aquela que o leitor sente que de alguma forma lhe diz respeito; que lhe pode ser útil; que lhe ajuda a entender melhor sua circunstância e o mundo em que vive. E, por fim, que constitua prazerosa leitura". 

Leia a seguir um trecho do primeiro artigo do livro, "Da escassez absoluta à relativa: riqueza, crescimento e desigualdade". 

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1. Crescimento: um fenômeno recente

Até o início do século XVIII, praticamente não houve crescimento. A renda parece ter ficado estagnada por mais de dezessete séculos, muito provavelmente desde o início dos tempos. A partir daí, houve algum crescimento, tanto demográfico quanto da renda, ainda que modesto. Estima‑se que a população mundial tenha passado a crescer a taxas em torno de 0,4% ao ano e a renda, um pouco mais, o que teria levado a um ligeiro crescimento da renda per capita. Só no século XIX, a partir da Revolução Industrial, observa‑se realmente crescimento. O crescimento demográfico sobe para 0,6% ao ano e a economia passa a crescer a taxas de 1,5% no mesmo período, com a renda per capita crescendo quase 1%.

No século XX, o fenômeno do crescimento toma corpo. Observam‑se taxas de 1,4% e 3% ao ano, respectivamente para o crescimento da população e da renda mundial, com a renda per capita tendo crescido a uma taxa de 1,6% ao ano no período entre 1913 e 2012. Nas três décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, o crescimento, tanto demográfico como da renda, chegou ao apogeu. Os países desenvolvidos, a Europa e os Estados Unidos, alcançam taxas de crescimento entre 3% e 4% ao ano. O crescimento transformou o mundo. A população mundial passou de menos de 500 milhões para mais de 7 bilhões de pessoas num espaço de três séculos. Ainda assim, a taxa de crescimento demográfico foi inferior a 1% ao ano — em torno de 0,8% — desde o início do século XVIII até hoje.

Neste início de século XXI, taxas de crescimento econômico inferiores a 2% ao ano são consideradas inaceitavelmente baixas. É uma questão de perspectiva. Um por cento por um ano pode parecer pouco, mas, se mantido por um longo tempo, é muito. Temos a tendência a subestimar a força de todo processo de crescimento exponencial, das taxas cumulativas compostas, durante um longo período. Taxas muito menores do que imaginamos não podem ser mantidas por um longo período sem criar um processo explosivo e, portanto, insustentável. Uma taxa de 6% ao ano,
considerada hoje apenas aceitável para os países em desenvolvimento, mantida por um século, multiplicaria a renda nacional por 340 vezes. O crescimento de 1% ao ano, se mantido por trinta anos, o espaço de uma geração, mais do que dobra a renda dos filhos em relação à dos pais. No século XX, o crescimento da renda per capita dos Estados Unidos — o país que mais cresceu, no século de maior crescimento de todos os tempos — foi de apenas 1,9% ao ano.

A taxa relativamente modesta de crescimento demográfico mundial, de 0,8% ao ano nos últimos três séculos, é suficiente para mais do que dobrar o número de pessoas sobre a Terra a cada cem anos e de multiplicá‑lo por dez a cada trezentos anos. O crescimento demográfico mundial dos últimos três séculos já deu início a uma reversão. A população mundial cresce hoje a taxas muito inferiores, com sinais de que deve voltar a se estabilizar, ou até mesmo decrescer, a partir de algum momento da segunda metade do século XXI. As taxas de crescimento demográfico terão
então completado um ciclo de aceleração e desaceleração que levou a população mundial a saltar de menos de 600 milhões para mais de 7 bilhões de pessoas em menos de quatro séculos.

Sem crescimento demográfico, o que esperar do crescimento da renda? Como parte do crescimento da renda é derivado do componente demográfico, seria natural que, uma vez a população estabilizada, o crescimento da renda ficasse limitado às taxas observadas para a renda per capita. A renda passaria então a crescer a uma taxa mais próxima de 2% que dos 4% ao ano, observados no apogeu do século XX. O crescimento da renda per capita dos países avançados já foi bem menor nas duas últimas décadas. A Europa cresceu 1,6%, os Estados Unidos, 1,4%, e o Japão, apenas 0,7% ao ano, de 1990 até hoje. Os fatos confirmam a lógica. Daqui para a frente, ao menos nos países avançados, é ilusório contar com taxas de crescimento de 3% ou 4% ao ano. Uma vez interrompido o crescimento demográfico e atingida a fronteira tecnológica, será preciso contar com o avanço da tecnologia para garantir o crescimento da produção e da renda.

 

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