Jabuti 2016: "Hamlet"

"Hamlet", de William Shakespeare, dirigido por Frank M. Whiting e David Morgon, 1952.

Um clássico é sempre um clássico, e também sempre merece ganhar novas edições. Em 2015, uma das peças mais famosas de William Shakespeare ganhou uma nova edição pela Penguin-Companhia. Com tradução de Lawrence Flores Pereira, Hamlet ganhou o primeiro lugar do Prêmio Jabuti na categoria Tradução. 

Professor da Universidade Federal de Santa Maria (RS), Lawrence Flores é pós-doutor e professor pesquisador do Massachusetts Center for Renaissance Studies, na Universidade de Massachusetts, Amherst. Suas publicações incluem um livro de poemas, Engano especular (sob o pseudônimo Lawrence Salaberry), e inúmeras traduções poéticas: Antígona, de Sófocles, poesia barroca francesa, Charles Baudelaire, T.S. Eliot, entre outros. Hamlet foi sua primeira tradução publicada pela Companhia das Letras.

Sobre esta edição, Aguinaldo Medice Severino escreveu na Zero Hora que "trata-se de uma tradução que combina várias ambições e compromissos, que certamente lhe cobraram muita habilidade e testaram sua já reconhecida experiência: Lawrence mantém o mesmo número de versos do original (utilizando-se do que ele chama de alexandrinos atonais), evitando com esse procedimento transbordamentos; mantém o coloquialismo nos momentos que o original o mantém, alcançando que cada personagem tenha em português a sua própria voz (a voz que Shakespeare deu a elas); faz um uso rico do léxico português; explora muito bem o contraste entre prosa e verso sempre presente nas obras de Shakespeare; respeita o ritmo do original; e produziu um texto para ser encenado de fato, um texto que pode ser lido em voz alta ou declamado com naturalidade". O que diferencia esta edição de Hamlet das outras lançadas no Brasil, segundo ele, é que "Lawrence nos ajuda a entender algo mais da engenharia da peça, oferece ferramentas para que possamos decifrar detalhes dos diálogos e das referências cifradas". 

Hamlet pela Penguin-Companhia ainda traz uma introdução de Lawrence Flores Pereira e um texto de T.S. Eliot sobre a peça de Shakespeare. Leia a seguir um trecho da introdução para saber mais sobre o ganhador do Jabuti. 

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Quando Shakespeare compôs Hamlet, entre 1599 e 1600, a história de seu herói malogrado não era uma novidade no teatro inglês elisabetano e muito menos para Shakespeare. Uma peça semelhante estivera no repertório do teatro londrino pelo menos desde o final da década de 1580. O pouco que sabemos hoje sobre essa peça, que os estudiosos denominaram hipoteticamente de Ur-Hamlet, vem de alguns fragmentos soltos, sendo um deles a menção que dela fez Thomas Nashe em sua introdução ao Menaphon, de Robert Greene, num trecho em que fazia referência à adoção por muitos dramaturgos dos dramas de vendeta do teatro antigo de Sêneca. 

O Sêneca inglês lido à luz de vela resulta em um bocado de boas frases, tal como “O sangue é um mendigo”, e assim por diante: e se você rogar a ele que traga uma manhã de nevasca, ele lhe proporcionará Hamlets inteiros, eu diria punhados de falas trágicas. (Jenkins, p. 83)

Nos livros de anotação de Philip Henslowe, o empresário teatral elisabetano cujos diários são importantes documentos para o estudo da rotina teatral londrina, encontra-se a referência, em nota de 1596, a uma encenação da peça. O mais curioso comentário sobre ela, contudo, foi feito por Thomas Lodge em Wit’s Misery, onde fala de um espectro que “berrava miseravelmente no Theatre, como uma vendedora de ostras: ‘Hamlet, vingança’”. O remoque irônico de Lodge, que trazia à luz seu desconforto com os exageros dramáticos da tragédia de vingança, gênero que já tivera momento de maior sucesso, vinha a público apenas três anos antes de Shakespeare dar início à composição de Hamlet, um drama que também falaria de vingança, ainda que não mais com a convicção histriônica dos primeiros dramaturgos. Até hoje há controvérsia sobre a autoria do Ur-Hamlet. Alguns críticos atribuem-na a Kyd, o mesmo autor da Tragédia espanhola, texto de imenso sucesso e modelo para outras peças de vingança.

A atribuição, contudo, é frágil, pois se baseia na pista pouco confiável de que na mesma página em que Nashe faz menção a Hamlet aparece o nome de Kyd. Shakespeare muito provavelmente conheceu o Ur-Hamlet. Na metade da década de 1590, essa peça fazia parte do repertório da Chamberlain’s Men, a primeira companhia teatral à qual Shakespeare se associara. Embora seja difícil hoje saber seu impacto na composição do
Hamlet que conhecemos, Shakespeare contou com muitos anos para estudá-la e dissecá-la.

Ele, na verdade, possuía outras fontes para sua peça. Consultou, sem dúvida, o relato de nome semelhante escrito por François de Belleforest, uma história que o próprio autor francês havia adaptado a partir de uma narrativa semelhante, escrita por Saxo Grammaticus no século XII, em sua Gesta Danorum [Gesta dinamarquesa].

A narrativa na Gesta Danorum é quase mítica e com poucas sutilezas. Como na peça de Shakespeare, o tio de Amleth, Feng, mata o antigo rei, casando-se depois com Gerutha (Gertrude) a mãe de Amleth (Hamlet). No entanto, o assassinato não é segredo, ao contrário do que ocorre na peça de Shakespeare. Isso explica a atitude de Amleth de fingir loucura para dirimir suspeitas sobre suas intenções e trilhar um caminho seguro rumo à vingança. Usa-se uma linda jovem para sondá-lo e desvendar suas intenções. Espiado por um conselheiro do rei, Amleth o mata e desmembra. O tio finalmente o manda para a Inglaterra para ser executado, escoltado por dois acompanhantes. Amleth intercepta as instruções que pedem sua morte e substitui seu nome pelos dos dois acompanhantes. Ao retornar à Dinamarca, ele vinga a morte de seu pai, matando o tio e assumindo o trono.

Foi essa narrativa que Belleforest adaptou para a metade do século XVI, na esteira do gênero das histórias trágicas em voga na época. Entre a antiga narrativa medieval de Saxo, o relato de Belleforest e a peça de Shakespeare, é notável o trabalho de moralização e subjetivação. As Histoires tragiques [Histórias trágicas] eram um conjunto de narrativas que pertenciam ao gênero exemplar do século XVI, voltado à instrução moral de governantes e homens nobres a partir de exemplos trágicos. Era flagrante, na sua versão, o propósito de dar à história um traço moralizante. Belleforest não vê com naturalidade, por exemplo, a parafernália ominosa pagã-medieval que, na versão de Saxo Grammaticus, permitia apresentar Amleth como dotado de poderes divinatórios, bem no estilo de antigos heróis pagãos. Fiel à sua intenção anunciada de
contar histórias trágicas para a instrução dos homens, Belleforest estava ciente do problema moral e teológico de apresentar um herói cuja vingança é ditada por vozes exteriores, sugerindo o elo entre a vingança e as divindades. O autor, a despeito de sua curiosidade pelo tema,
também não aprovava a lógica vendetária da Lei de Talião, sobretudo quando se punha em perigo a vida de um rei. Por isso recorreu à ideia providencial da história que era ainda dominante em sua época, justificando no “Argumento” que a justiça divina tarda, mas não falha. Substituía assim uma indesejável aprovação da vendeta por uma concepção providencial em que Deus age contra os males humanos à revelia dos homens. O ato vingativo de Hamlet convertia-se no meio indireto pelo qual a mão divina se manifesta.

 

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