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Khaled

Noemi Jaffe

Ajmal Kakar/Xinhua

 

Sei que Khaled é o nome mais comum em que eu poderia pensar para imaginar o nome de um garoto afegão e que você não é comum, Khaled. Mas você tem esse nome e não posso fazer nada. Não sei por que você está olhando para mim, justo para mim, tão longe, no Brasil, mas recebi seu olhar. Você não está pedindo socorro nem está desesperado. Você, inclusive, me pergunta por que eu imagino que você poderia estar desesperado, porque seu olhar, ao mesmo tempo que pede, também duvida um pouco e eu gosto da sua perplexidade algo cética.

Você cresceu muito antes do tempo, Khaled e antes de ter chegado na escola, hoje, já preparou o almoço de seus irmãos mais novos, já guardou as roupas que sua mãe tinha lavado e já acompanhou seu pai até a pedreira, ajudando a carregar os equipamentos. Diferente dos outros garotos, que prestam atenção ao professor e à lousa e diferente também dos outros poucos que olham para a câmera, você não está com medo. Só desafiadoramente curioso ou curiosamente desafiador. E pergunta: o que vocês querem nos filmando? Acham que podem nos ajudar, acham que precisamos mesmo de ajuda ou só querem brincar de criar imagens de nós?

Eu não te filmei, Khaled, só vi a foto, aqui longe, em outro dia e não me senti desafiada, mas convocada. Você quer saber o que eu penso de você e do seu país, se me preocupo com todos e especialmente com você, se tenho medo do que vai acontecer com seu futuro e se tenho críticas ao ensino no Afeganistão. Te confesso que não sei nada, Khaled e que, por isso, não acredito em minhas pretensas opiniões sobre seu país. Você me pergunta então de que vale você ter me convocado se não posso te ajudar em nada e eu me faço a mesma pergunta. Estou tão sozinha, aqui, sem saber o que fazer e sabendo que qualquer coisa que eu possa pensar sobre você é inútil, tão inútil quanto essa mesa onde não há cadernos nem livros nem lápis.

Sou professora há tantos anos, mas ainda não tinha visto esse olhar em nenhum dos meus alunos. Já vi urgência, sonho, distração e atenção, mas ainda não tinha visto o arregalo sentencioso, condescendente e carente do seu olhar. Você é bonito, Khaled, é curioso e determinado e seu desempenho é ao mesmo tempo superior e diferente do de seus colegas, que saem da escola rindo e brigando, enquanto correm de volta para casa, parando para fumar um cigarro no caminho, enquanto você caminha mais devagar, chutando uma pedra e mastigando um pão.

Não posso fazer nada por, com ou para você, mas posso prestar atenção nesse fio que você me lançou e tentar lança-lo de volta. Para quem, ainda não sei bem. Mas você me pegou e surdamente te digo que, de um jeito ou de outro, você vai resistir ao que for necessário, como as conchas resistem à água e como o sono resiste ao relógio.

Khaled, me ensine uma palavra em pashto e eu te ensino uma palavra em português. Te ensino a falar “chocolate” e você me ensina a falar “escada”.

Talvez você, na verdade, se chame Abdul, Nur ou Haffizulah. Não sei. Talvez eu mesma me chame Laura, Joana ou Clara. O tempo, senhor das coincidências e das histórias, vai se encarregar de nos dizer.

Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falouÍrisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.

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