Leituras para encerrar 2017

O fim de ano é uma época ótima para colocar algumas leituras em dia. Mas se você ainda não escolheu qual livro vai te acompanhar nesses dias finais de 2017 – ou quer indicações para começar bem 2018 –, nossos colunistas podem ajudar. Ana Maria Bahiana, Carol Bensimon, Caetano Galindo e Luisa Geisler indicam suas leituras favoritas. Confira!

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Ana Maria Bahiana

É um ano duro este que se encerra. Desde que me mudei para o hemisfério norte e me resignei à ideia de que fim de ano é inverno (embora ensolarado, porque os deuses do clima gostam da Califórnia), este período meio fora do tempo é, para mim, uma oportunidade de reflexão. Se você que me lê se sente do mesmo modo, eis o que recomendo para esta saideira de 2017:

Em primeiro lugar, ciência. Num ano marcado pelos horrores da ignorância, nada melhor do que voltar a textos que nos lembram a capacidade de pensar. Sem uma visão de quem somos e qual nosso papel nesta misteriosa comédia dramática estamos perdidos – como 2017 confirmou, tantas vezes. Cosmos, de Carl Sagan, é sempre um excelente ponto de partida. Produto do otimismo da era espacial, ele nos acena com possibilidades e limitações – as possibilidades do universo, as limitações da nossa carne frágil, tão pequena nesta festa. A contrapartida desta exploração-fora é a exploração-dentro, e para isso recomendo o bom doutor Oliver Sacks. Qualquer livro dele é uma delícia de texto e de descoberta, mas seu último, O rio da consciência, é particularmente poderoso, porque foi concebido à luz poderosa da finalidade e da profundidade, quando não há mais tempo para enfeitar o ganso, contar lorotas e outras perdas de tempo tão comuns em nosso ofício de escrever.

Em segundo lugar, poesia. Se a fala e a escrita são os dons que nos projetam uma oitava acima na escala da natureza, a poesia é o que nos dignifica. Somos pequenos (e complicados demais para seres tão pequenos) mas cantamos. Poesia é algo muito pessoal, e você que me lê deve ter seus favoritos, mas nunca é demais recomendar Ana Cristina César, cujo A teus pés nunca cessa de me embalar e comover com sua poderosa, delicada, beleza.

Em terceiro lugar, imaginação. Que em geral é um pouco das duas coisas acima, e serve como um empurrão, um encorajamento para o ano civil que começa. Tanta coisa boa no arsenal da Companhia! Fico com duas opções pessoalmente próximas: Orlando, de Virginia Woolf – porque funciona como uma espécie de espelho mágico – e Histórias maravilhosas de Andersen, Hans Christian Andersen, um dos primeiros autores a me mostrar que nem tudo era o que parecia. Sim, está na coleção Companhia das Letrinhas. Mas quando você deixou de ser criança?

PS.: Olhar para trás também ajuda muito. O catálogo da Companhia está repleto de grandes cápsulas do tempo, mas – relevem meu egocentrismo – o Almanaque 1964 está cada dia mais atual.

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Carol Bensimon

Manual da faxineira, de Lucia Berlin

É difícil entender como e por que esconderam essa mulher da gente durante tanto tempo. Os contos de Berlin são geniais, oscilando o tempo todo entre o humor sagaz e a melancolia sem afetação. Como há pontes de contato entre as histórias – a maioria delas baseada na própria vida de Lucia Berlin, suponho –, o conjunto é coeso, podendo até ser lido como uma única narrativa, longa, fragmentada e extremamente tocante.

Todos os belos cavalos, de Cormac McCarthy

A prosa de McCarthy nesse livro é de uma beleza excepcional. Poucos são os livros que retratam a paisagem de um modo preciso, poético, quase transcendental, com trechos tão bons que eu tinha vontade de sair chorando por uma pradaria. Os diálogos entre os personagens de poucas palavras são outro ponto forte desse grande romance.

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Caetano Galindo

Já se foram dois anos. E ainda não está perto o momento em que eu vou me acostumar à ausência de Oliver Sacks.

Consolo recente, no entanto (sabe quando as coisas mais óbvias passam por baixo do teu radar por anos a fio?), foi a leitura da trilogia do cárcere de Drauzio Varella. E não estou aproximando os dois autores por serem ambos médicos, mas por terem em medida desmedida a mesma capacidade de empatia, o mesmo interesse humano e humanista pelo mundo e o mesmo potencial de ampliar visões de mundos, visões dos outros.

Um antropólogo em Marte mudou minha vida, lá em 1995, abrindo todo um novo campo de interesse, e iniciando minha relação com toda a obra de Sacks.

Prisioneiras (comecei a trilogia pelo volume final) teve impacto nada distinto esse ano.

Leia lá.

Vá por mim.

Prepare-se para mudar.

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Luisa Geisler

Em sua última coluna do ano, Luisa Geisler indicou diversas leituras para "moldar" o fim de ano, entre elas Cosmos, de Carl Sagan, Não vai acontecer aqui, de Sinclair Lewis, Você é minha mãe?, de Alison Bechdel, e Por lugares incríveis, de Jennifer Niven. Confira todas as indicações aqui.  

 

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