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Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Meira Monteiro homenageiam Alfredo Bosi, que faleceu nesta quarta-feira

 

Acaba de falecer Alfredo Bosi, o querido professor Bosi, como era chamado por uma legião de estudantes, pesquisadores e literatos, numa prova de respeito e de profunda amizade e admiração. Nascido em São Paulo no dia 26 de agosto de 1936, Bosi era descendente de italianos. Tanto que, logo após sua formatura em letras pela Universidade de São Paulo (USP), em 1960, passou um ano em Florença, para, de volta ao Brasil, assumir os cursos de língua e literatura italiana na USP. Com o tempo, Alfredo Bosi explorou mais a literatura brasileira, escrevendo livros fundamentais na área, como a História concisa da literatura brasileira (1970). Desde a década de 1970 dedicou-se ao ensino de literatura brasileira, tornando-se professor titular. Foi ainda um dos mentores do Instituto de Estudos Avançados da USP, onde foi vice-diretor e depois diretor, e onde dirigiu, durante muito tempo, a revista Estudos Avançados.

De formação profundamente humanista, Bosi possuía vasto conhecimento na área de filosofia. Era leitor de Vico, Hegel, Croce, Lukács. Gramsci. Da mescla improvável entre Croce (com sua ideia do sopro vital que dá movimento à literatura) e Gramsci (com sua atenção às contradições da sociedade capitalista incrustadas na cultura) formou-se uma concepção singular da literatura e das formas de resistência engendradas nela, e que seriam centrais na sua vasta obra crítica. Foi também militante junto a um grupo de operários de Osasco, na periferia de São Paulo, ao longo da década de 1970. Atuou igualmente no Centro de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, do qual foi presidente (1982-1984) e na Comissão de Justiça e Paz desde 1987. Os livros O ser e o tempo da poesia (1977, com reedição em 2000), Dialética da colonização (1992), Literatura e resistência (2002) e Ideologia e contraideologia (2010) trazem o intelectual brilhante, o crítico literário humanista e também seu compromisso intelectual com a democracia. Alfredo Bosi era membro da Academia Brasileira de Letras desde 2003. Casado com Ecléa Bosi, sua eterna companheira, psicóloga, crítica de poesia, escritora e professora do Instituto de Psicologia da USP, ele deixa dois filhos: Viviana, crítica literária como ele e professora na USP, e José Alfredo, economista com formação em ciência ambiental e médico. Bosi estava internado e foi mais uma das vítimas da pandemia que tem levado consigo vidas de brasileiros que precisariam estar conosco para lutar contra esses tempos obscuros que estamos enfrentando.

Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Meira Monteiro