Literatura colonoscópica

Juan Pablo Villalobos

Na segunda-feira passada fui fazer uma colonoscopia. A princípio, o evento não era para produzir literatura, era uma inspeção de rotina à procura de pólipos, mas a literatura está em tudo que é lugar. Pelo visto, até no meu reto.

Felizmente, o resultado da colonoscopia foi favorável: não foram achados pólipos. Saí da clínica muito chapado, muito feliz, e a Andreia, minha companheira, me levou de volta para casa, evitando que eu levitasse no meio da rua ou que recomendasse eufórico que os pedestres fizessem colonoscopias só para provar os efeitos maravilhosos da anestesia (como eu fiz da vez anterior). No entanto, esquecemos de solicitar o documento para ela justificar a sua ausência no trabalho.

Voltei para a clínica dois dias depois com o objetivo de pedir o justificante. Expliquei a situação para a moça do balcão. Ela reagiu de uma maneira muito desconfiada, olhou para a outra moça que atendia na recepção e falou:

– Mas, peraí, ela deveria vir pessoalmente fazer a solicitação.

Argumentei que a Andreia estava no escritório, cumprindo expediente, e que eu queria ser gentil, que no final das contas ela tinha me feito um favor aquele dia.   

– Mas como a gente sabe que ela realmente esteve aqui nesse dia?

Cada vez que a moça usava um advérbio (pessoalmente, realmente), o pronunciava sarcasticamente para enfatizar que estava achando tudo aquilo muito suspeito. Fiquei em silêncio, imaginando, abismado, que a gente estava sendo acusado de praticar alguma estratégia de malandragem laboral (falsificar um documento para se ausentar do trampo). Essa foi a primeira interpretação que fiz, na minha cabeça, tentando entender as suspeitas da moça. Desde o ponto de vista narrativo, a lógica do enredo que eu imaginava que a moça estava imaginando seria a do romance picaresco. No final das contas, estávamos na Espanha, terra fértil desse tipo de histórias. A outra moça do balcão defendeu a colega:

– É mesmo, a gente não pode saber, e se ela não esteve aqui naquele dia?

Arregalei os olhos até as pálpebras sumirem, como se eu quisesse expulsar os globos oculares para provar minha estupefação. É uma coisa que eu faço às vezes para mostrar, anatomicamente, o absurdo da realidade, do mundo, da vida, da espécie humana. Às vezes: o tempo todo.

– E se ela quer utilizar o justificante como álibi num juízo? Já pensou? – falou a primeira moça.

– Quê? – falei.

A moça repetiu o que acabava de dizer. Eu estava errado. Não era picaresca, não: aquele enredo era de romance policial, de seriado americano. “Meudeusdocéu", pensei, "quanto dano o Netflix está fazendo à nossa sociedade!”. Em vez disso, só falei:

– Você está brincando, né?

– Não, não estou, eu sou a responsável por esse documento – ela respondeu.

– Daí você seria chamada ao juízo como testemunha – a colega lhe sussurrou.

Pasmado, olhei para elas com atenção pela primeira vez. A que estava me atendendo era baixinha, magra, loira, olhos azuis, usava aparelho transparente nos dentes, o rosto infantil cheio de sardas. A colega era robusta, morena, olhos pretos, rosto masculino meio árabe e com uma cicatriz de herpes no lábio inferior. Seriam uma dupla perfeita de personagens secundários.

Pensei um segundo nesse provável romance policial: Andreia seria uma serial killer brasileira que utilizava justificantes médicos como álibis. Cada vez que ela planejava um assassinato, paralelamente provocava uma doença em mim ou em nossos filhos, ou agendava uma consulta médica de rotina. Eu não saberia de nada. Eu seria o narrador que contaria a história depois. Poderia funcionar. Por acaso ela não é, aliás, de escorpião?

E quem seriam as vítimas? Pensei nas amigas que enviam a ela fotos de biquíni em fevereiro, durante o carnaval, enquanto a gente ainda está no inverno. Mas essas vítimas em potencial estão muito longe. Aproveitei que a moça do aparelho transparente teve que atender o telefone para dar uma olhada ao meu redor. Havia três pessoas na fila. Uma senhora idosa, que reclamava do frio cada vez que a porta automática da clínica se abria. Um motoboy, o casaco na mão direita, aguardando para entregar um pacote. Um cinquentão gordo, com aparência de funcionário da prefeitura, ou, pior, de auditor fiscal, rosto abatido, pálido, olheiras profundas, a mão segurando a barriga, precisando muito do gastroenterologista. Senti muita pena de que nenhuma dessas pessoas fosse uma vítima que prestasse. Matar senhoras idosas? Isso com certeza já foi escrito. Matar motoboys? Com a alta probabilidade que eles têm de se matar sozinhos? Seria inverossímil. Matar auditores fiscais? Clichê demais. Que pena. Pena mesmo.

A moça do aparelho transparente terminou a ligação.

– Então – falei.

– Então é isso – ela respondeu sorridente, olhando para a fila, começando a me ignorar.

– Não vai rolar? – perguntei.

Quando ela abriu a boca para responder, mostrando de novo o aparelho transparente, eu soube que ela poderia ser uma das vítimas. Mas então ela falou. Pediu para a Andreia me mandar por e-mail ou WhatsApp uma carta assinada me autorizando a solicitar o documento. Explicou a informação que a carta devia conter. Nome dos dois. Número de RG dos dois (na Espanha, se chama DNI). Data do exame. Nome da empresa. Etc. E todos esses detalhes, toda essa burocracia que faria possível obter o justificante, matou o romance.

Eu teria preferido que ela levasse seu argumento até o final e me negasse o documento. Eu teria saído muito irritado da clínica, é verdade. Mas essa irritação, filha do absurdo, deixaria o enredo aberto, à procura de uma continuação. E essa coluna teria tido um final melhor.

Revisão: Andreia Moroni (que é tradutora e revisora, mas não serial killer).

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Juan Pablo Villalobos nasceu em Guadalajara, México, e morou alguns anos no Brasil. É autor de Festa no covil, Se vivêssemos em um lugar normal e Te vendo um cachorropublicados pela Companhia das Letras e traduzidos em quinze países. Ele colabora para o blog com uma coluna mensal. 
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