Luisa Geisler se orgulha de sua falta de talento

Luisa Geisler

Foto: annie-claude/ GettyImages

 

Esses dias, participei de um bate-papo fora do estado sobre a profissão de “ser escritor”. É o tipo de conversa que me agrada bastante, não só pela oportunidade de conhecer leitores, mas de conhecer outros autores em pessoa. Um mediador fazia a conversa rolar enquanto eu e outro autor tentávamos dar um mínimo de concretude para esse tema que é a ideia de ser escritor de forma profissional.

Abrimos para perguntas para a plateia, formada por muitos autores iniciantes e aspirantes. Por isso, claro, veio a ideia dos prêmios literários. Um dos meus colegas de mesa, ganhador de diversos, tinha uma opinião, sobre prêmios literários, sobre a arbitrariedade de competições, sobre quando ele achava que ganharia, como lidar com o fracasso. Eu também tinha (e tenho) opiniões a respeito disso tudo. Apresentei minha resposta. Sou orgulhosa vencedora do Prêmio Sesc de Literatura, um concurso de originais, e fui revelada por ele aos 19 anos. Não ganho nada do Sesc por dizer isso, mas é verdade: não seria escritora hoje se não fosse pelo Prêmio Sesc de Literatura. Eu não saberia com quem falar, não saberia como abordar editoras.

Meu colega de mesa, que era muito simpático, fez a piada de que “ao contrário da Luisa, que nasceu com talento…”, num sentido de comparação. Num sentido de que, porque eu nunca tinha sido conhecida ou publicada antes do Prêmio Sesc de Literatura, logo, eu tinha ganhado por talento. A seguir, a resposta dele seguiu para uma história de o que fazer se você não nasceu com talento, prêmios ou fama. Era uma piada, e eu recebi como tal. Ri e segui em frente. Já em casa, ao conversar com meu marido sobre como o bate-papo tinha sido legal, repeti a piada. Mas me interrompi. Eu me distraí no meio da minha história.

— Amor? — fui cobrada.

Eu tinha parado de falar. Não porque estivesse rindo, mas porque fiquei pensando. Aquilo me pareceu uma frase estranha. “Ao contrário da Luisa, que nasceu com talento…” Não parece estranho para mais ninguém?

Se nasci com talento, isso é debate para os obstetras por aí. Sempre me disseram que nasci com parto normal. Aliás, para fins oficiais, nasci sem cabelo, sem dentes, sem unhas. Sem talento, mas com 51cm e 3,69kg. Busquei minha certidão de nascimento. Nome de mãe, nome de pai. Nada sobre talento. Nem sequer o chocolate. Foi aí que me dei conta do que me incomodava. A ideia de “talento”, puro, é uma ideia tóxica. Como assim?, você pergunta. Vamos pensar numa situação.

Eu e você vamos ao ballet. Eu sou apenas parte da audiência. Você, ao meu lado, é uma pessoa que fez ballet por quinze anos e apenas parou por uma protusão de disco. À nossa frente, uma bailarina faz um giro, ela abre as pernas ao tergiversar, ela chega do outro lado do palco. É isso que eu vi. Eu até penso na palavra “tergiversar”. Eu vi uma bailarina, ela girou, ela atravessou o palco. Oh, que bonito. Eu sorrio com ares idiotas.

Você, por outro lado, inclusive sente irritação pelo acerto do processo da bailarina. Você conhece os movimentos. Sabe que a bailarina por anos praticou na barra, praticou o passé en relevé, sabe se acertou developpé até chegar ao fouetté. Sabe que a bailaria fez seis fouettés um depois do outro e deve se sentir até meio tonta depois disso.

Você sabe que a bailarina pode até ter tido talento quando começou. Pode ter sido uma criança bastante flexível. Pode ter até um aspecto genético e de biotipo. Tudo isso deu uma mãozinha. Mas sabe que se ela tivesse o biotipo, a flexibilidade, a boa noção de ritmo, mas tivesse ficado em casa comendo Cheetos requeijão, nada teria acontecido.

Para mim, isso é talento. O talento é esse “levar jeito”. Eu sei que levo jeito com palavras, em especial idiomas. Já fiz testes de nivelamento em idiomas e pulei níveis simplesmente porque segui um “instinto”. Nunca estudei espanhol formalmente e falo em público no idioma com alguma naturalidade, me viro do México à Argentina. Pego sotaques fácil, tenho apego a palavras, gosto de usar de um jeito que me divirta. Por outro lado, eu trabalho diretamente com idiomas todos os dias.

Voltando ao nascer com talento: talvez eu tenha nascido com um jeitinho. Minha mãe diz que eu comecei a falar cedo. Eu lia muito, mas muito mesmo. Já criança queria escrever meus próprios livros, e na adolescência escrevia uma fanfic por semana. Isso é talento? Ou é só uma criança que nasce meio flexível tomando gosto por ballet? Ou uma soma dos dois?

É claro que não quero cair no discurso de “se eu fiz sucesso foi porque eu mereci”. Tem uma camada grossa de privilégio. Teve o fato de eu poder fazer uma oficina de criação literária, o fato de eu poder comprar livros. No Brasil, o mero fato de ser alfabetizada e não ter passado fome é sim um privilégio.

Mas eu não nasci talentosa. Não nasci famosa. Eu fiz trocentos posts sobre oficinas, sobre o excelente Escrever ficção, do Luiz Antonio de Assis Brasil. Todo mundo conhece a teoria das supostas dez mil horas? Talvez eu já tenha chegado no dois milésimos centésimo quadragésimo quinto dia de escrita. E quanto dá em horas? Desculpem: eu só sei os números ordinais.

Mas uma criança com flexibilidade entra na escola de ballet. Uma criança com um pouco mais de jeito com o corpo consegue se manter na escola de ballet. Mas a diferença entre essas meninas e uma bailarina no Bolshoi é maior.

A narrativa do “ser talentoso” e de “nascer talentoso” é tóxica, como falei no início. Não só desrespeita meu trabalho, mas o de todos aqueles que veem seu próprio progresso e melhora na escrita. Como a bailarina que vem ao ensaio todos os dias e começa a saber o movimento a seguir só pela música. Qualquer pessoa pode ser uma escritora melhor que é.

O Contos de mentira, livro que ganhou o Prêmio Sesc graças ao meu “talento”, perdeu outros três concursos de originais. O mesmo livro. Perdeu pela falta de talento? Em que narrativa vou acreditar? Haja saúde mental para querer ser escritor no meio dessa areia movediça de bobagem.

Se eu tenho talento? Acho que sim. Não é algo que me ofende. E não que eu seja uma bailarina no Bolshoi. Mas pelo menos uma bailarina profissional. No fundinho ali. Mas trabalhar com escrita, isso exige muito mais que talento. E isso anima, mas apavora.

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Luisa Geisler nasceu em 1991, em Canoas, Rio Grande do Sul. É escritora e tradutora. Autora de Luzes de emergência se acenderão automaticamente (Alfagura, 2014), De espaços abandonados (Alfagura, 2018) e Enfim, capivaras (Editora Seguinte, 2019), foi duas vezes vencedoras do Prêmio Sesc de Literatura, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti. É mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

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