Março de 2021: bodas de papel de uma pandemia

Luisa Geisler

Ilustração por Angelina Bambina

 

Ao contribuir pro blog da Companhia das Letras por todo tempo que estou aqui, confesso que tenho algumas estratégias. Tendo a pensar em algo importante do mês e puxar esse tema para a literatura. Gosto de fazer listas de livros — em especial em época de Natal. Em junho, às vezes falo de James Joyce — e não quero nem calcular a quantidade de vezes que fiz a piada com meu aniversário ser 17/06 e Bloomsday, 16/06. Março sempre me é o mais óbvio e mais próximo: é quando se comemora o dia e mês da mulher, e temas ao redor disso me interessam muito. Já falei der ler mais mulheres, de recomendar autoras mulheres em anos anteriores aqui e aqui. Dito isso, março de 2021 também é o marco de um ano de pandemia e do pseudo-lockdown brasileiro.

Antes de seguir, quero deixar claro que isso ocorrer em março já é simbólico: pandemia e machismo formam uma arma digna de Supergêmeos ativar: mulheres foram as que mais assumiram carga de trabalho, mulheres estão mais desempregadas comparativamente,  a ideia de “home office” aperta muito mais no calo das pessoas que se espera que façam o trabalho doméstico. 

Mas pensando na pandemia de uma forma geral, releio meus textos no Diário do Isolamento (disponíveis aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Vejo uma certa progressão neles, uma busca de um não-normal que se torne minimamente normal. Uma certa rotina. Noto minhas dificuldades de leitura e escrita (estar lendo de forma atípica). Nesse um ano, só segui escrevendo porque é minha profissão: tinha prazos e contratos e dinheiro envolvidos. Não sei como qualquer pessoa que não é obrigada a criar seguiu escrevendo nesse tempo. Em relação à leitura, segui lendo e torcendo para que passasse. E passou. Achei cursos, clubes de leitura, retomei meus favoritos, audiolivros ajudaram. Vejo fenômenos mais momentâneos que tive, cuidados com limpeza, que já não tenho. Eu faxino a casa normalmente, mas em abril de 2021, eu passava produto de limpeza em todas as maçanetas que tocava depois de ir à rua. Hoje, só lavo as mãos e torço pelo melhor.

Ao longo desse período, fui de odiar todos aqueles que se aglomeraram para me aglomerar algumas vezes. No Natal (oito pessoas, espaço aberto), no batizado do meu sobrinho (umas doze, igreja de máscara, fotos em espaço aberto), numa visita ao sítio de uma tia (três pessoas, longe de todo mundo). Por outro lado, sigo desprezando a ideia de “se aglomerar pela saúde mental” porque se você é minimamente consciente, você passa a aglomeração inteira (e depois) preocupado. Inclusive, tive dor de garganta e febre em determinado momento e esperei dar algumas semanas para testar IgM e IgG. Negativo.

Por outro lado, olhando esses textos antigo, encontro temas que ainda servem. Brinco com uma ideia de se juntar “à seita” — a “aceita que dói menos” —, para os negacionistas. Ainda convido. Os negacionistas parecem mais equipados que nunca com retórica única e exclusiva de WhatsApp. A bobagem da “imunidade de rebanho” além de muitas mortes, gerou mutação do vírus. Um meme esses tempos resumiu bem: até o vírus evolui, mas não a humanidade.  Encontro raiva com o presidente. Essa se mantém. No texto #42 do diário do isolamento, o Brasil com cerca de seis mil mortos, digo:

“E daí que eu me pergunto quantas pessoas precisam morrer para se importar. Ou se é uma questão de quais pessoas. Eu me pergunto se é difícil entender que atropelados precisam de leito de UTI. Quando abre o comércio, as pessoas andam de carro e tem gente atropelada. Mas com pacientes de coronavírus ocupando a cama da UTI não é possível. “

Cá entre nós, ainda me pergunto quantas pessoas precisam morrer para o presidente se importar. Mas um lado meu ainda diz “ele nunca vai se importar”. Começo a me juntar à seita que o brasileiro está sozinho.

Tenho vontade de falar com a Luisa do passado. Falar que a vacina vem logo, mas o presidente vai abrir mão de comprar, e os negacionistas ainda vão achar problema. Vou falar que nossa preocupação agora é com mutações do vírus. A minha preocupação privilegiadíssima é ter passado em um mestrado nos Estados Unidos (com bolsa, aliás) e não saber quanto de quarentena precisarei fazer. Se vai haver voos saindo do Brasil. A minha preocupação privilegiada é o medo de que eu, jovem sem comorbidades, seja vacinada antes que minha mãe, em agosto de 2021.

Se pudesse falar com a Luisa de abril de 2020, avisaria pra começar a se preparar a usar Zoom e ter aula online. Eu avisaria que haveria uma rotina apocalíptica, uma certa estabilidade, que o trabalho com cultura seria tão importante quanto antes para dar um pouco de esperança, mas as ansiedades seriam as mesmas. Avisaria que, sim, chegaria um momento em que parece não fazer sentido continuar criando com 292752 mortos de uma doença prevenível. Em que seis mil mortos é o número de mortos de dois dias. Avisaria que sim, pareceria difícil continuar lendo ficção quando as pessoas ainda acreditam que hospitais ganham dinheiro por cada paciente diagnosticado com COVID-19, que Hidroxicloroquina ou Ivermectina funcionam como “tratamento precoce”. Avisaria que o Brasil tem menos de 3% da população mundial, mas quase 10% dos mortos de COVID-19, e é importante olhar com atenção (mas sanidade, mas lembrando do que importa) pra não enlouquecer. Acima de tudo, avisaria que temos anos de prática com arte (que coloca nesse lugar difícil, de desconforto, de reflexão), mas nunca o suficiente. Avisaria para cuidar com o otimismo, às vezes tão perigoso. Também mandaria os números da loteria.

Avisaria que alguns sentimentos permaneceriam os mesmos. Depois de um ano de pandemia, uma pandemia que nos tiraria excelentes artistas e autores — Luis Sepúlveda, Aldir Blanc. Avisaria para preparar o coração porque Sérgio Sant'Anna ia morrer de COVID-19. Diria que o presidente seguiria presidente, e que não crie expectativas. O que desejo para o próximo ano de pandemia? Desejo vacinas. Mais do que tudo, do texto #42 do diário da pandemia:

“Quero que [o presidente] faça seu trabalho. Que tenha um governo consonante em objetivos. Que não trate a máquina pública como a sua máquina depiladora de pelos pubianos pessoal. Quero que pare de ser uma célula copiada de uma célula copiada de algum discurso do século XIX que já se tornou uma célula cancerígena que só quer destruir. Eu quero que o senhor lamente de fato.”

Feliz aniversário de pandemia, senhor presidente Jair Bolsonaro. O presente recomendado para bodas de um ano é papel. Cumpra o seu.

 

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Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS. Escritora e tradutora, é também mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Pela Alfaguara, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019), além de Corpos secos, romance distópico de terror escrito a oito mãos com Natalia Borges PolessoMarcelo Ferroni e Samir Machado de Machado. Foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

 

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