Meu amor de biblioteca

Ana Maria Bahiana

Tenho uma coisa por bibliotecas. Livrarias são lindas, embora cada vez mais raras. Mas bibliotecas têm algo a mais em sua beleza – essa ideia de comunidade, de compartilhamento, de armazenamento, de conhecimento e histórias comuns, guardadas como se guarda algo precioso, para servir de alimento e inspiração para quem quiser e quem precisar.

Criança, na escola, eu me refugiava na biblioteca. Tinha tanta coisa contra mim – a asma, o aparelho nos dentes, a família classe media num colégio para grandes elites, meu desinteresse e absoluta falta de jeito por/em esportes que não fossem na água, meus fracos pendores para o papel de boa moça que era essencial naquele contexto, a mistura de CDF com rebeldia que até hoje é, como diriam os marketeiros, minha brand. Nenhum refúgio me parecia possível até o dia em que descobri a biblioteca. Ficava no segundo andar, ao lado de uma estátua de Nossa Senhora, e era silenciosa, quieta, sempre na penumbra. Lá fora o sol do Rio, mas aqui, na minha caverna, havia apenas esse tesouro de respostas para tantas perguntas que eu nunca havia feito. Ali eu descobri Brecht, Darwin, Madame Curie, Platão, a Odisseia, as artes e as ciências e um novo mundo sem limites.

A paixão ficou pra vida toda. Comprar livro é bom, mas a solenidade do livro compartilhado, as possibilidades que a biblioteca apresenta – o mundo de respostas tão acessível, mesmo quando as perguntas ainda não tomaram forma – são divinas.

Quando vim morar aqui não sabia exatamente o quanto Los Angeles amava as bibliotecas, e o quanto elas eram parte integral da cidade. Descobri primeiro a maravilhosa Biblioteca Central, no coração do que um dia foi o Pueblo, onde a cidade foi fundada – uma catedral da leitura, um quarteirão inteiro em estilo inspirado no colonial espanhol, tetos abobadados abrigando mais de seis milhões de volumes, e o arquivo mais extenso de publicações periódicas fora da Biblioteca do Congresso. Depois vieram outras: a biblioteca da University of Southern California, a biblioteca da UCLA, onde eu pesquisava minhas matérias na era pré-internet, e às vezes só saía de lá quando o faxineiro já estava me olhando atravessado. E meu novo refúgio favorito: a Biblioteca Margaret Herrick da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, repositório da história do cinema desde que ele desembarcou por estas plagas, vindo da Europa com uma parada em Nova York, alojada num prédio que já foi uma das estações de tratamento de água da cidade e, por isso, tem paredes espessas e superprotetoras para coisas delicadas como papéis muitas vezes manuseados, croquis, negativos e os cadernos de Sam Peckinpah.

Tenho inscrição em todas essas bibliotecas, começando pela chave do saber – o cartãozinho da Biblioteca Pública de Los Angeles, que me dá acesso a todas as bibliotecas de bairro que fazem parte da rede, mini-templos de pesquisa, leitura e serviços pontuando a vastidão desta cidade-monstro –, que me permite acessar online tanto seu catálogo de títulos quanto o maravilhoso acervo de periódicos e de fotografias da cidade e do estado. Mas gosto mesmo é de visitar minha biblioteca do bairro, ver os novos títulos, pegar um ou dois ou três volumes, checar a lista de atividades do mês, me deixar ficar por alguns momentos com meus amigos desconhecidos, meus vizinhos, as pessoas da minha rua, quem sabe, que compartilham comigo esse banquete de ideias, sempre ali, sempre possível, sempre propondo novas perguntas.

Estava lá, uma tarde dessas, quando li o apelo de Margaret Atwood pela defesa das biliotecas públicas dos Estados Unidos, ameçadas por cortes violentos do orçamento federal numa administração que parece cada vez mais comprometida com a ignorância e o despotismo. Pensei primeiro, com alívio, que as bibliotecas de Los Angeles e da Califórnia em geral são custeadas em primeiro lugar pelos impostos municipais e estaduais e, se cortes de fato vierem, serão apenas minimamente afetadas, se tanto.

Mas o ponto não é esse. O ponto é a tentativa de extermínio da própria ideia da biblioteca, do saber compartilhado, do saber guardado para futuras gerações, para todos nós – nossas histórias comuns, o registro de nossa passagem pela Terra, com todas as emoções e terrores, os contos que aprendemos de nossos antepassados e os conhecimentos que passamos aos nossos filhos, nosso legado como espécie. Aí me lembrei de Alexandria, de Hypatia e de Fahrenheit 451. E de que, depois de muitas visitas a nobres e elevadas instituições estadunidenses de ensino superior, eu tinha escolhido a universidade para meu filho pelo tamanho e beleza de sua biblioteca. E não me arrependi.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

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