Minhas aventuras na Praia do Silício

Ana Maria Bahiana

Me mudei para Silicon Beach.

Vamos recomeçar. Não, não propriamente me mudei. Mas estou temporariamente instalada em Silicon Beach, por conta de um projeto.

Silicon Beach é a extensão remota e ensolarada do Vale do Silício — uma vasta área ao sul de Los Angeles, que começa nas praias de Santa Monica, Venice e Playa del Rey e vai até a fronteira de Culver City com a avenida La Cienega, que corta a bacia de Los Angeles de norte a sul, onde estão instaladas as subsidiáras e instalações-satélite das grandes empresas do Vale, mais uma galáxia de start ups e prestadores de serviço daqui mesmo, de Los Angeles.

Em termos urbanos, é uma colcha de retalhos de casas, hotéis de luxo, shoppings e grandes áreas de galpões industriais, despertados de um sono de décadas por uma nova indústria.

Em termos existenciais, poderia ser uma versão mais acessível de Tír na nÓg, a terra da eterna juventude da mitologia celta: o clima é ameno, a brisa do mar embala as palmeiras e ninguém aparenta ter mais de 34 anos, a idade-limite para pertencer à geração dourada do novo século, senhores absolutos da Praia do Silício.

Na verdade, não é tanto uma praia — parece mais uma ilha.

Na Ilha do Silício trabalha-se muito — silenciosamente, coletiva mas isoladamente, em grandes mesas comunais onde os fones de ouvido servem de demarcação de fronteira.

Fala-se pouco. Ao telefone, quase nunca: sempre por e-mails e mensagens de texto, mesmo se o destinatário está a três passos. Quase tudo tem siglas e códigos. É como aprender um outro idioma, que é o mesmo idioma, e que, como quase tudo no universo desta Terra da Eterna Juventude, complica o simples num esforço para simplificá-lo.

Carros são poucos — o metrô de Los Angeles colocou uma linha à disposição da Ilha, ligando o centro da cidade ao mar, pelo sul do município. Do metrô os cidadãos da Ilha seguem a pé, ou de bicicleta. Não fossem as palmeiras, o sol perpétuo e os food trucks de tacos e tamales, estaríamos todos em Amsterdã ou Berlim.

Na Praia Ilha do Silício ninguém usa dinheiro. Paga-se com aplicativos financeiros no telefone, de preferência. Cartões, em segundo lugar. O desavisado que puxa uma cédula da carteira é recebido com um olhar gelado: “não aceitamos dinheiro aqui”. Nem o food truck, que tem um letreiro dizendo, em letras garrafais, “Dios, union y libertad”, aceita dinheiro em espécie, mas a vendedora pelo menos sorri, e explica que assim “é mais seguro” e que ela se sente melhor circulando por estas bandas até depois do anoitecer, sem dinheiro em caixa. Aliás, sem caixa alguma.

A comida, aliás, é excelente. Jovens chefs premiados (e alguns vencedores de programas de batalha gastronômica) fecharam seus restaurantes em Beverly Hills e West Hollywood e se mudaram para cá, onde, mesmo com a vertiginosa valorização, o metro quadrado é mais em conta e há um público cativo, das 9 da manhã às 5 da tarde, pelo menos — e, frequentemente, muito mais além. A abordagem é a da sofisticação frugal e ecologicamente correta: as mesas são todas comunais, não há serviço de garçom, pratos, copos e talheres são, todos, recicláveis.

Numa tarde de verão absolutamente perfeita, um executivo recém-chegado de Nova York (o aeroporto fica a meros 15 minutos daqui) devora um prato de frutos do mar num dos restaurantes mais disputados da Ilha — é um almoço de trabalho com dois colegas de uma produtora de vídeos para a internet (um dos segmentos mais quentes da Ilha, com empresas literalmente a cada esquina) e, ao final, ele simplesmente se levanta e diz que tem que correr de volta para o aeroporto. A atendente, que serve as bebidas e limpa a mesa, vai ao encontro do rapaz: “Senhor, por favor, o receptáculo de recicláveis é ali”, ela sorri. O executivo para, confuso, por um minuto, até reparar que seus colegas já estão dispondo de seus pratos e talheres, assim como todos os demais comensais.

Sinto-me como Gulliver, o das viagens de Swift. Com certeza observo um novo mundo em formação, ainda escolhendo seu idioma, suas leis, sua cultura. Num mundo em formação, os erros são mais fáceis de serem vistos — tanto os do passado quanto os do presente — e é mais fácil, como Swift, rir das coisas que destoam das expectativas. Estou em Lilliput ou Brobdingnag?

Ter mais de 34 anos me dá uma perspectiva invejável: sou invisível. Não corro o risco de ser aprisionada por cabos de fibra ótica ao solo pantanoso da Praia-Ilha, porque, sinceramente, seus habitantes, em sua maioria, não registram sequer minha presença. Isso não me incomoda — qualquer pessoa que escreve, especialmente quem tem formação de jornalista, como eu, batalha para ser a mosca na parede e não na sopa, o olhar livre dos empecilhos do trato social.

Mas talvez devesse incomodar aos habitantes da Praia-Ilha. Porque estou aqui, exatamente, para resolver um problema que parecia insolúvel, e que roubara horas de precioso sono, degustação ou pedaladas de uma poderosa empresa da jovem nação: como é mesmo essa coisa de escrever? Como se faz para pôr uma palavra depois da outra, de modo que seres humanos, e não máquinas, compreendam e até queiram ler?

Talvez eu não seja Gulliver, afinal. Talvez eu seja uma das sobreviventes da biblioteca-labirinto de Umberto Eco, uma emissária do Finis Africae, capaz, quem sabe, de resolver os mistérios da Ilha com o poder quase esquecido das palavras. 

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

 

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