Mortinho por dançar

Djaimilia Pereira de Almeida

Diane Arbus. A Jewish Couple Dancing, NYC, 1963

 

Uma senhora que toda a vida cuidou de pessoas que não conseguiam andar, contou-me uma vez que os melhores momentos que viveu com essas pessoas foram aqueles que passaram a dançar. Aludia àquilo que lhe parecia ser o carácter igualitário da dança. “Na dança não há pobres, nem ricos”, mais ou menos aptos fisicamente, maior ou menor inteligência, dizia a senhora. Apenas uma comunhão entre corpos, uma amizade completa.

Não sei se a dança é a mais igualitária das actividades humanas, mas se for, talvez tal se deva ao ritmo e à forma como o corpo humano reage a ele.

Conheci pessoas que não sabiam dançar e outras que não abanavam o corpo instintivamente ao som de canções. E algumas que apenas ouviam música sentadas, para quem a resposta natural ao som não era o movimento. Para elas, a música era uma extensão do pensamento e escutar uma actividade introspectiva, próxima da meditação. Batiam o compasso com o pé, encostadas na poltrona, elevavam o queixo de leve, fechavam os olhos. Não queriam ser interrompidas.

Mas relembrando a forma emocionada como a senhora me explicou o espanto essencial de dançar com uma pessoa numa cadeira de rodas, não posso deixar de ter como imagem da liberdade a de uma senhora descalça, minha avó, bisavó, quem sabe, a dançar no meio da sala, sozinha, entregue a si mesma, como nunca vi nenhuma das minhas avós, nem senhora alguma, fazer.

Talvez nessa imagem a liberdade seja não a dança, mas a senhora que dança, a forma como se entrega ao seu corpo, que já não lhe responde como gostaria.

A fotógrafa Diane Arbus falou daquele senhor deficiente que conheceu certa vez, num salão de baile, homem nos seus sessenta anos, profundamente tímido, mortinho por dançar com alguém, que não a impressionou à primeira vista, logo a ela, que procurava nos outros um enigma qualquer:

“E, então, a mulher que me tinha trazido apontou para um homem. ‘Olhe aquele homem,’ disse ela. ‘Está mortinho por dançar com alguém, mas tem medo.’ Era um homem de sessenta anos. (…) Parecia-se com qualquer homem de sessenta anos. Tinha um aspecto de algum modo comum. Começámos a dançar e ele era muito tímido. Na verdade, havia qualquer coisa nele que lhe ficara dos seus onze anos.”

Arbus e o senhor tímido trocaram algumas palavras e, a certa altura, “ele disse esta frase incrível”: “eu costumava preocupar-me com — era muito lento — eu costumava preocupar-me com ser como sou. Com não saber mais. Mas agora — e os seus olhos como que acenderam — agora, já não me preocupo.” “Bem, foi um choque total, para mim”, conclui Arbus.

Esta frase evoca uma ideia de dança como igualdade, mesmo que o corpo e a sua capacidade motora e cognitiva sejam aquilo que define, mesmo na dança, os limites dessa igualdade. Se certos corpos não respondem ao ritmo, como poderemos falar do apelo universal da dança e do seu carácter igualitário? Se as pernas não mexem, ou não há pernas (nem braços, nem mãos), como falar de liberdade? A liberdade vai até onde vai o corpo a deixa ir, poderíamos pensar.

O bailarino confessou a Arbus ter-se libertado da angústia da sua limitação, revelando ter consciência dela. Já não se preocupa com o facto de não poder saber mais do que sabe. É um homem de sessenta anos, com a cabeça de um menino de onze. Mas é enquanto dança que se confessa, depois de a moça o ter puxado para dançar.

Não sei se a dança propiciou esse reconhecimento, ou se o confessaria a qualquer pessoa. Se o repete muitas vezes, como ao refrão de uma canção. O alívio de que fala é, para mim, como para Arbus, quase inconcebível. Mas, ultrapassa a condição deficitária do bailarino, na medida em que descreve a experiência, ou o desejo, de muitas outras pessoas, com limitações cognitivas, ou não.

Houve um tempo em que nos preocupámos com tudo o que não sabíamos, com não podermos saber mais. Depois (e este “depois” é um enigma), esse tempo passou. E continuámos vivos.

A dança como liberdade tem que ver com este alívio, que é uma afronta ao medo do desconhecido. A anedota de Arbus revela como, nessa acepção, dançar é o contrário de estar sozinho: foi preciso chamarem-nos, levarem-nos pelo braço para o centro da pista. Não aprendemos a contentar-nos com o que somos se estivermos sozinhos no mundo. Nem mesmo a senhora velha, que dança sozinha na sala, descalça, quando o corpo e a cabeça já não são o que eram. O seu par é tudo quanto foi a sua vida, e não se vê.

***

Djaimilia Pereira de Almeida (Luanda, 1982) é autora de Esse cabelo (2015), Ajudar a cair (2017) e, mais recentemente, Luanda, Lisboa, Paraíso (Companhia das Letras Portugal, 2018; a ser publicado no Brasil em 2019). Vive em Lisboa.

 

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais