‘Normal People’: a política da intimidade sexual no livro de Sally Rooney e na série da Starzplay

Daisy Daisy Edgar-Jones, à esquerda, e Paul Mescal despontam em Normal People

 

Em uma escola na cidadezinha costeira de Sligo, na Irlanda, Marianne e Connell se cruzam em um corredor e não se olham, embora estejam cientes da presença um do outro ali. A eletricidade entre ambos é perceptível, bem como a paixão que a tímida e dedicada colegial tem por ele.

A solitária Marianne (Daisy Edgar-Jones) é vista pelos colegas como intimidadora e arrogante, dada sua habilidade de dar respostas cortantes a quem a provoca, enquanto Connell (Paul Mescal) é um atleta carismático e popular. Os dois são inteligentes, reservados e gostam de livros. Apesar de não se falarem na escola, a mãe dele trabalha como empregada doméstica no casarão da família rica da garota, e é lá que ambos os protagonistas de Normal People se aproximam de verdade — e se apaixonam também.

Marianne e Connell namoram secretamente. O casal seria inusitado demais para os colegas de escola, então ele pede segredo; ela dá de ombros. Após as primeiras transas, à princípio esquisitas e depois movidas à paixão, Connell parte o coração de Marianne ao não convidá-la para o baile de formatura. Ela deixa de frequentar a escola.

Adaptada de Pessoas normais, romance de Sally Rooney pré-finalista do Man Booker Prize e lançado no Brasil em 2019 pela Companhia das Letras, a minissérie estreou este mês na plataforma de streaming Starzplay após tornar-se fenômeno pop nos Estados Unidos e na Inglaterra. Indicada ao Emmy na última terça-feira (28) em quatro categorias de minissérie — melhor ator (Mescal), roteiro (Rooney e Alice Birch), direção (Lenny Abrahamson) e casting (Louise Kiely) —, a obra mostra no decorrer de quatro anos, a partir de 2011, a relação de vais e vens dos protagonistas, sempre acompanhada da tensão causada pela diferença de classe social entre os dois e pela formação da habilidade de elaborar os próprios sentimentos.

Meses depois do incidente na escola, ambos se reencontram no Trinity College, em Dublin, e o jogo vira: Marianne é popular e tem desempenho acadêmico brilhante como estudante de história e política. Connell surpreende a todos, inclusive a si mesmo, ao escolher formar-se em inglês e se interessar por uma carreira como escritor. Sem amigos, o jovem atleta estranha o meio elitista e intelectual da universidade. Os dois reatam a amizade e, logo, o romance — com muitas xícaras de chá, cigarros, livros e roupas pelo chão.

Os episódios foram quase todos escritos pela própria autora ao lado da dramaturga Alice Birch, dirigidos por Lenny Abrahamson (dos ótimos filmes O Quarto de Jack, pelo qual foi indicado ao Oscar, e Frank) e Hettie Macdonald (veterana da TV britânica, com Howards End e Doctor Who no currículo), e trazem os elementos que tornam o romance de Rooney excepcional: o uso do subentendido como um capital narrativo tão valioso quanto a informação apresentada explicitamente e a sutileza ao mostrar as transformações internas que o passar dos anos nos traz.

Se a narrativa arquitetada pela irlandesa de 29 anos — possivelmente o primeiro nome da geração millennial a se consolidar na ficção literária — flui com uma linguagem simples, chegando a dispensar o uso de aspas nos diálogos e a incorporar ao texto mensagens de redes sociais com a mesma naturalidade, a minissérie do Starzplay repete a estratégia da simplicidade para contar a história de Marianne e Connell. Ela se estrutura em 12 episódios de até ligeiros 34 minutos, um formato incomum para séries de drama — mas que certamente funciona e consegue evocar o quê de efêmero do romance.

As cenas de sexo, coreografadas pela coordenadora de intimidade — uma função em alta demanda na Hollywood pós-Me Too — Ita O'Brien, tornaram-se um fenômeno à parte na internet, com incontáveis tweets, postagens de Instagram e resenhas na imprensa em língua inglesa elogiando a abordagem realista e delicada da intimidade sexual dos protagonistas.

Normal People e o romance best-seller do qual se origina são um bocado millennial nesse sentido — o sexo vem precedido pela elaboração política do mesmo. Isso ganha forma na nudez frontal de Mescal e Edgar-Jones e no destaque aos orgasmos de ambos os protagonistas, uma vez que ainda é raro se ver no cinema e na TV o sexo que não seja limitado ao nu feminino e ao orgasmo masculino. Embora o romance e a obra dele derivada tenham cada um sua identidade própria, eles também têm semelhanças, e uma delas é o comentário social.

 

Aos 29 anos, Sally Rooney talvez seja a primeira autora millennial a se consolidar na literatura de ficção (Foto de Johnny Davis)

 

Política é importante no livro de Rooney e na minissérie do Starzplay. Feminista e marxista, a autora reflete em Pessoas normais as inclinações à esquerda da geração à qual ela pertence. Em uma cena, Connell sugere a Marianne a leitura de O manifesto comunista — ela obviamente já sabia do que se tratava — e lê a “bíblia feminista” O carnê dourado (1962), de Doris Lessing, em busca de se mostrar à altura dos novos círculos que frequenta no Trinity. Uma das melhores amigas de Marianne, Joanna (Eliot Salt), é lésbica e isso nem sequer é uma questão. “Acho que você pode realmente se safar ao colocar muitas de suas opiniões — se você assim quiser — em um romance”, disse a escritora em perfil publicado na revista New Yorker em 2018.

Namorando ou não, a conexão entre os protagonistas é profunda — nos momentos em que a vulnerabilidade de ambos chega ao pico, o que um representa para o outro fala alto. Uma depressão estilhaça Connell, enquanto Marianne, também deprimida, se vê em um relacionamento masoquista durante um intercâmbio na Suécia. Enquanto a jovem mãe solo de Connell, Lorraine (a ótima Sarah Greene), o ama em abundância, o dinheiro em casa é limitado; Marianne é rica, não tem autoestima, é física e psicologicamente abusada pelo irmão, Alan (Frank Blake), e desprezada pela mãe, Denise (Aislín McGuckin). Às vezes, as diferenças entre duas pessoas pode ser justamente o que permite trocas, união e até salvação mútua.

Quando transam, a entrega de Marianne a Connell é particularmente notável — ela se sente protegida pelo rapaz e lhe diz que ele poderia fazer o que quisesse com ela, o que talvez explique porque ele conduz frequentemente as transas. Marianne não é tão empoderada quanto demonstra; em um breve namoro com o playboy arrogante e estridente Jamie (Fionn O'Shea), ela demora a dizer basta.

Se você espera por um clímax embalado por ticking clock ou qualquer mecanismo narrativo que empolgue ou cause vertigem ao leitor, não faça expectativas: o fim tanto da série quanto do livro tem a suavidade dos acontecimentos que o antecedem. Não há conclusão apoteótica ou algo do tipo. Em última análise, trata-se de uma história sobre o que está no ar entre duas pessoas.

O enorme sucesso de Normal People inspirou a BBC Three e o streaming Hulu, os exibidores originais da adaptação, a repetir a parceria com Abrahamson, Birch, o produtor Ed Guiney (indicado ao Oscar por O Quarto de Jack e A Favorita) e Rooney, nas funções de roteirista e produtora, encomendando uma minissérie baseada no primeiro livro dela, Conversas entre amigos. Talvez o verdadeiro fim apoteótico de Normal People seja este — o que, é claro, não é de se reclamar.

 

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Caio Delcolli é jornalista, roteirista e escritor. Já escreveu para Rolling Stone, Folha de S.Paulo, UOL, HuffPost e Galileu, entre outros veículos. Atualmente, ele está trabalhando em um livro sobre séries de TV e política.

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