Nota sobre o futuro da Lua

Marcílio França Castro

Disco de Nebra. Museu Pré-Histórico de Halle (Alemanha)

 

Está previsto que um dia, já longe demais para manter-se atraída, a lua dará o último giro em torno da Terra, e assim escapará de sua órbita, abandonando-a de vez. No planeta que fica, está previsto, as noites se tornarão mortas e iguais, os dias, escaldantes e longos; marés e estações desaparecerão, não haverá mais eclipses. Os lobos ficarão escondidos, os cães hesitarão em ladrar. Desaparecerão a pesca e os calendários de pesca, os arrastões, o reflexo prateado dos lagos. A brisa marinha vai cessar. As corujas silenciarão; os felinos desistirão do sexo. Os ritos de passagem se extinguirão, tal como as danças circulares e o batismo das bruxas. Acabarão as noites de espera, as fogueiras noturnas, a sujeira das garrafas no cais. Desaparecerão os métodos divinatórios, o céu dos cancerianos, grande parte da mitologia. Desaparecerão os amantes e a correspondência entre os amantes, muitas fantasias de crianças, os sonhos febris. Desaparecerão centenas de metáforas, a ideia de sexta-feira, a época de cortar os cabelos. Desparecerão as histórias de suspense, a sombra noturna dos assassinos. Bibliotecas inteiras de poemas desaparecerão. As mulheres deixarão de menstruar, a luxúria perderá o sentido. Sem par, o Sol comandará os humores terrenos, e isso é o que está previsto. Como também está previsto que o habitante desse futuro, ao observar a Lua e acompanhar sua fuga, irá descrevê-la precisamente como um corpo nômade e sem brilho, com gravidade mínima e aspecto flutuante – livre, enfim, da responsabilidade que lhe impôs uma era.

 

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Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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