O Beco

Érico Assis

Derek Mangabeira / Divulgação CCXP 2019

 

Eu ia fazer pela ordem: todo o corredor A, depois todo o B, depois o C, até chegar no H. Uma olhada em cada mesa. Parar nas que interessavam. Na ordem.

Não terminei a A. Tinha um conhecido que eu queria cumprimentar lá do outro lado, a fila que eu tinha visto na D diminuiu, tava na hora de um painel que eu precisava cobrir. Podia ter voltado depois e terminado o A, depois percorrer todo o B, depois o C. Na ordem. Não aconteceu. Ziguezagueei pelos corredores durante quatro dias e não vi tudo.

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Foi o sexto ano de Artists’ Alley da Comic Con Experience. A CCXP é uma Disney nerd temporária – brinquedos, loja de lembrancinha em cada esquina, Pateta e o elenco de Star Wars dando tchauzinho de longe – que se instala na São Paulo Expo uma vez por ano, durante quatro dias. O Artists’ Alley virou a maior feira de quadrinho independente no Brasil, com mais de 500 autores. É a feirinha de artesanato no meio da Disney.

Em seis anos, o Alley se assentou assim: quem reclama que “é um evento de quadrinho, mas quadrinho é o que menos tem” defende que vai lá só para ficar no artesanato; quem está ali pelo Star Wars e não lê quadrinho acaba passando pelo artesanato, não entende direito, se encanta e leva dois ou dez prints; os Artists continuam fazendo quadrinho, mas sacaram que têm fazer mais prints. E pins. Este ano, a moda foi fazer pins.

Alley é uma passagem, uma travessa, um beco entre prédios. O AA da CCXP fica literalmente entre torres de editoras, lojas de roupas, canais de TV e da Maurício de Sousa Produções. Mas é quase do tamanho de um campo de futebol. É um dos 16 campos de futebol que cabem na CCXP, então a proporção não é de alley. Mas chamar de “beco” dá um gosto underground. Não é um beco, mas é legal chamar de beco. Mesmo que todo mundo tenha aquelas maquininhas de cartão de crédito do tamanho de calculadora.

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A Ing Lee, de Belo Horizonte, fez um gibi vertical em risografia sobre o karaokê que gosta de visitar em São Paulo. Kophee, do Guilherme Match, de Curitiba, tem personagens que amam café de verdade e você pode comprar a HQ com um saquinho de café de verdade. O Julius Ckvalheiyro inventou um bookplate pra vender junto à HQ porque ouviu dizer que bookplate está na moda. A coletânea VHS é do tamanho e peso de uma fita VHS e vem dentro de uma luvinha típica das fitas de VHS.

Se você aperta a mão do Júlio Shimamoto – 80 anos, desenhista desde os 17, nipo-paulista que mora no Rio –, descobre que calejado não é metáfora. O Paulo Moreira, de João Pessoa, 99 mil seguidores no Twitter, teve fila ininterrupta por quatro dias. Ota – o Otacílio Costa d’Assunção Barros, lendário editor da Mad – andava com seus gibis no bolso de um desses coletes de fotógrafo.

Alguém me para:

– Já viu essa aqui, Irreversível, da Anna Maeda e do Daniel Ianae? Olha que coisa linda.

É lindo mesmo. Onde tem?

– Não lembro qual é a mesa. É pra lá.

“Lá” é um corredor comprido. Mas preciso da Irreversível. Procuro por uns minutos, desisto. Chego no hotel e descubro que já tinha comprado.

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Os quadrinhos independentes são bonitos, bem impressos, atraentes e, pro meu bolso, caros. Não é ganância dos autores: gráfica está caro, assim como tudo está caro. Meu método de seleção, ainda imperfeito, é escolher pela capa, pegar para folhear e ver se aquilo me chama nos segundos de folheada. Geralmente chama. Caso não chame, fico torcendo que apareça mais alguém na mesa e distraia o autor ou autora, pois ele ou ela está ali na frente, me encarando, esperando uma reação ou meu cartão.

Tenho uma queda por títulos compridos. Tem um da Tietbo chamado Um livro chamado comendo farofa pura e chorando. Tem o Gibi fofinho e melancólico que a minha namorada pediu para fazer do Alexandre Szolnoky. Segunda-feira eu paro, nome excelente para uma antologia sobre vícios. E a coleção do Gabriel Dantas: Não pedi para estar aqui, Talvez tudo fique bem e Me perdoe por te decepcionar pela décima vez.

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O Dantas é um tanto quanto obsessivo em preencher os brancos da página. O autógrafo dele recobre toda a segunda capa do meu Me perdoe por te decepcionar pela décima vez.

Também ganhei um índio do Carlos Estefan, uma silhueta diante da lua do André Diniz, uma efígie de cachorro do Felipe Nunes, uma carranquinha da Mayara Lista, um crânio de boi do Match que me pergunta "do que você tem medo?”. A Amanda Miranda deixou um fragmento de poesia: "espero que essa carta chegue a você sem tropeçar nos escombros do nosso futuro". Dentro da Liget n. 3, do KZ, um cartão de Natal: “Feliz Festivus e Serenidade Já!”

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Tenho curiosidade de chegar em cada um e entrevistar: o que você gosta de ler? Por que quadrinhos? O que você faz na vida real? É publicitária? Dentista? Padeiro? Arquiteta? Seu apartamento é maior que esta mesa? O que você tomou pra passar as madrugadas que levou para produzir isso aqui?

Mas não pergunto, não converso e, se perguntam se eu quero autógrafo, digo que não. A pessoa já teve que fazer um monte de autógrafos e, se comprei um gibi dela, é porque gostei e prefiro que ela use o tempo para pensar e fazer mais gibis, não para fazer autógrafos nem ficar jogando conversa fora com o estranho.

E outra: eu deveria ter chegado no hotel, lido o gibi e voltado para conversar no dia seguinte com o gibi lido. A realidade foi desabar no hotel todas as noites e não ler nada. Agora, tenho uma pilha de 71 gibis da fina flor do quadrinho independente brasileiro de 2019 e espero aquele dia de férias em que vou sentar do lado da pilha para ler cada um.

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Esses dias, Warren Ellis escreveu que a característica que une os autores é a vontade de produzir aquilo que não encontram pra ler. O que se encontra no Artist's Alley é o que há de mais inovador, vibrante, desafiador nos quadrinhos. Alguns ali vão sair do beco e, daqui a duas ou três CCXP, estarão nas torres da volta. A maioria, não.

Leitores tendem a querer o contrário dos autores: procuram o conhecido, o confortável, o nostálgico, o que já é torre. Por enquanto, o que eles fazem não se encontra nem em torres nem em outros artesanatos. É por isso que eu gosto daquele beco.

 

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

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