O Quixote em chinês: meu adeus a Ricardo Piglia

Luiz Schwarcz

Três escritores argentinos marcaram minha vida de editor. Alberto Manguel é o único deles que ainda está vivo, em esplendor intelectual escreve e dirige a Biblioteca Nacional da Argentina. Tomás Eloy Martínez foi o primeiro a nos deixar, muito precocemente. Devo a ele e a Alberto ter tido a coragem de publicar meus contos, coisa que atribuo mais ao olhar generoso dos amigos do que a sábia decisão de fato. Nesta sexta, meu terceiro grande amigo argentino acaba de morrer. Falei a editores do mundo todo que Ricardo Piglia era um dos grandes escritores vivos, falei incansavelmente. Infelizmente poucos me ouviram. Tentei emplacar seus livros na série Penguin Contemporary Classics, a mesma na qual consegui indicar com sucesso a obra de Raduan Nassar, mas no caso do escritor portenho não fui bem sucedido. Disse a todos com quem senti que compartilhava o gosto pela literatura que O último leitor é um dos meus livros preferidos. Ter publicado este livro valeu por toda uma vida. Nele, Piglia coloca os grandes escritores na posição de leitores, e com isso magicamente nos aproxima deles de forma singular. Em O último leitor, além dos escritores, Piglia trata de um escritor de diários que escreveu por linhas verdadeiramente tortas. Seu ensaio sobre o Che Guevara leitor, a partir da famosa foto em que Che é visto lendo sob uma árvore, no intervalo da revolução que pretendia exportar à África, honra a minha profissão, honra a literatura e a todos os leitores, ativistas ou não, de qualquer causa digna.

Meus três amigos argentinos conviveram com Borges de formas diferentes. Mas as melhores histórias ouvi de Piglia. Entre elas me lembro sempre da anedota que Ricardo contava, narrando o momento em que um jovem escritor com um pacote entre os braços se aproxima de Borges na rua e diz "Senhor Borges, eu escrevi alguns contos” quando é interrompido pela resposta direta do contista quase cego: “ Eu também”, nada mais podendo dizer. As histórias de Piglia não se restringiam naturalmente ao grande mestre argentino dos contos. Witold Gombrowicz que residiu na Argentina por muitos anos e Roberto Arlt eram outros sobre quem Piglia colecionava anedotas, como se fossem páginas mágicas e infinitas tão bem tratadas pelos escritores daquele país. 

Não sei como explicar como tive com os meus amigos argentinos e tenho ainda com Manguel uma ligação tão especial e íntima. Por que com eles me abri, mostrei meu lado envergonhado de escritor, dialoguei como se fossem judeus nascidos em Higienópolis como eu? Nunca saberei explicar essa ligação, assim como nunca vou superar a saudade que Tomás deixou e agora Piglia deixará. Foi ele um dos grandes entusiastas da Coleção Literatura ou Morte, que criei muitos anos atrás, e para a qual pretendia escrever um livro de crime com Tolstói como personagem. Este livro nunca foi escrito, mas creio ter encontrado linhas dele nas entrelinhas de O caminho de Ida, seu último romance. Por acaso a coleção abriu com um livro de Manguel tendo Stevenson como personagem central.

Por conta desta ligação íntima, assim como Manguel esteve aqui nas comemorações dos trinta anos da Companhia das Letras, Piglia foi um dos convidados especiais da nossa celebração cinco anos atrás. Naquela ocasião, fez palestras sobre um livro que dizia estar escrevendo, com ensaios sobre a arte da tradução dizia ele, nos moldes de O último leitor. Lembro de várias histórias saborosíssimas, especialmente de uma em que contava que a tradução do Quixote na China que só teria acontecido com século ou séculos de atraso foi feita por um escritor que não sabia uma palavra de espanhol. Contava Piglia que o tradutor contratou um leitor que lia o Quixote para ele numa outra língua que este compreendia melhor que o espanhol, e ao ouvir as histórias as vertia imediatamente para o Chinês. A graça na visão borgiana de Piglia seria encomendar uma tradução ao espanhol, do Quixote chinês, e comparar o resultado final, que em sua opinião pouco deveria ter em comum. 
Me pergunto hoje se a história é verídica ou se faz parte da imaginação deslumbrante que acabamos de perder. 

Talvez as pistas para essa questão estejam nas obras de Ricardo Piglia, que sobreviverão, assim como a anedota acima. Pena que a vida seja tão menor do que a literatura. Por isso, tantas histórias maravilhosas que passaram pela mente do meu amigo argentino nunca serão impressas. Ele mereceria ter escrito muito mais.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros. 

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