O canto da Cotovia

Marília Garcia

 

Vários cinemas estão fechando, além de livrarias, bares, cafés. Lugares que constituem nossa geografia afetiva e cultural das cidades. Foi ali que demos o primeiro beijo, naquele café ia sempre com uma amiga, este o sebo em que descobri tantos livros que me formaram... 

E o que acontece quando fecha uma editora?

Em minhas memórias mais antigas como leitora, está a editora portuguesa Livros Cotovia. A relação com os livros que amamos é material: penso no papel, no projeto elegante e discreto (feito pelo artista João Botelho), nas capas lisas de diversas cores, na textura desses objetos-verbais. E nos mundos que cada um deles me abriu: Brodsky, Alberto Pimenta, Bénédicte Houart, Pavese, Biedma, Natalia Ginzburg, Ovídio, Ruy Duarte de Carvalho, Paul de Man e Celan, etc.

Quando chegar o fim de novembro, a Cotovia fechará as suas portas. Mesmo sabendo que cedo ou tarde isso podia acontecer – como atravessar estes tempos investindo em um catálogo tão literário e singular –, de que maneira lidar com tal notícia?

Fundada em 1988 por André Fernandes Jorge, a editora se concentrou em quatro eixos – ficção, ensaio, poesia e teatro – e encerra o catálogo com cerca de 1200 títulos. Em 2016, André Jorge nos deixou por conta de um linfoma contra o qual lutou por anos a fio e, desde então, a editora vinha sendo dirigida por Fernanda Mira Barros, sua companheira, que já estava à frente de muitos projetos.

Quando penso na Cotovia, não consigo escapar do tautológico: a Cotovia era o André Jorge, e o André Jorge era a Cotovia. Em 2002, quando o conheci na Bienal de São Paulo, ele buscava ampliar as pontes entre as literaturas brasileira e portuguesa. Editou por lá muitos autores brasileiros contemporâneos (na coleção Sabiá), e também trouxe portugueses pra cá, como no período em que fez uma profícua parceria com a revista Inimigo Rumor e a 7letras (que contou também com a Angelus Novus e a Cosac Naify). 

Depois, em 2008, criou uma coleção impressionante chamada Curso Breve de Literatura Brasileira, organizada por Abel Barros Baptista, que contou com 16 volumes, incluindo alguns títulos que estão fora de catálogo há muitas décadas por aqui, como A menina morta, de Cornélio Pena. O cuidado editorial da coleção salta aos olhos se pensarmos nos paratextos que compõem cada livro, ou se pinçarmos um exemplo bastante expressivo da edição de A educação pela pedra, de João Cabral. Nela, os poemas aparecem “espelhados” nas páginas, seguindo a edição original (e reforçando a ideia serial do livro), algo que no Brasil nunca mais ocorreu (todas as edições publicadas depois da primeira trazem os poemas “empilhados”). 

Na mesma época em que saiu esta coleção, o André Jorge convidou a mim e à poeta Valeska de Aguirre para organizarmos uma antologia de poesia brasileira contemporânea. Lá fomos para o lançamento de A poesia andando: 13 poetas no Brasil, com a acolhida tão generosa da Cotovia – e também da Maravilhas, a gatinha que morava na editora/livraria. Foi a primeira vez que estive em Lisboa e guardo a lembrança nítida de percorrermos a cidade como se estivéssemos em um aquário subindo e descendo aquelas ladeiras dentro do Fiat 500 do André Jorge – que à época devia ser o único da espécie por aquelas ruas (quando víamos um modelo deste carro estacionado, sabíamos que ele estava por perto pois era único). 

No dia em que chegamos, ele nos levou para conhecer o Tejo e, apontando inconformado para o Cristo que fica do outro lado do rio, disse: “Não passa de um mamarracho”.  Eu nunca mais soube explicar o sentido de ‘mamarracho’ sem pensar no André e no inconveniente monumento diante do Tejo. A partir de então, quando identificava uma arquitetura de mau gosto, mamarracho; livros feios, mamarracho; textos mal escritos, mamarracho. Em contraste, havia o mundo dos Livros Cotovia (que anos depois foram uma forte referência quando projetei a Luna Parque).

Penso que a relação com os livros que amamos é também espacial: eles fazem parte da geografia afetiva do pensamento. E a Cotovia ocupa um bairro imenso na cidade do meu pensamento, onde muita coisa aconteceu e segue acontecendo. É talvez o fim do mundo, o mundo que nos formou, mas que sorte ter podido morar nele. Obrigada por tanto, Cotovia. 

 

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Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

 

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