O dia em que eu virei um “câncer”

Claudio Angelo

Adriano Ishibashi/ FramePhoto/ Agência O Globo

 

Há algumas semanas, por razões que um dia explicarei, fiz um Zoom com Sting. Sim, ele mesmo, Gordon Sumner, aquele menino inglês loirinho que toca baixo e que há 31 anos rodou o mundo com Raoni Metuktire para chamar atenção para a destruição da Amazônia. Falamos sobre muitas coisas, tolos e reis, mas uma coisa que ele disse tem ecoado na minha cabeça como um mantra: “O arco da história está do nosso lado”. Eu, que nunca pensei que precisasse de frases motivacionais, tenho repetido essa mentalmente várias vezes nos últimos dias. Por exemplo, quando o Presidente da República chamou a mim e aos meus colegas de “câncer que eu não consigo matar”.

A declaração foi feita numa das lives de quinta-feira, o Sportpalast digital no qual Jair Bolsonaro se dirige às suas massas. O presidente lamentou sua incapacidade de matar o “câncer” que são as ONGs que atuam na Amazônia, apesar de “botar pra quebrar” em cima delas. (De passagem, contou a mentira habitual sobre a suposta existência de milhares de ONGs na Amazônia e nenhuma no sertão do Nordeste.) Na véspera, o ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, aquele que sugeriu aproveitar os mortos da Covid para “passar a boiada” nas regras ambientais, havia comparado a organização em que eu trabalho aos colaboracionistas franceses, que entregavam o país a invasores estrangeiros.

Entre o marechal Pétain e uma massa disforme de células em multiplicação desenfreada, o fato é que o discurso do regime retrata os ambientalistas como inimigos de guerra. Traidores da Pátria, doença, a encarnação do Mal. Em resumo, algo a ser eliminado e cuja eliminação é legitimada pelos mais altos interesses nacionais. Acho que o leitor conhece esse tipo de retórica e sabe aonde ela leva. Pois é.

O Brasil nunca precisou de Bolsonaro para historicamente ser o país que mais mata defensores do meio ambiente no mundo. São cerca de 50 por ano, segundo a Global Witness, incluindo lideranças indígenas e rurais. Esse tipo de crime sempre vicejou na impunidade. Hoje ele conta com mais do que isso: é estimulado pelo discurso oficial. A proverbial “Ponta da Praia” do tenebroso discurso da Paulista de 2018 anda mais perto e para mais gente. Que o diga o agente do Ibama cercado por dezenas de madeireiros em Uruará, no Pará, em maio deste ano, e agredido com uma garrafa de vidro na cabeça. A coisa mais chocante na cena, registrada em vídeo pela própria turba, não é a agressão em si, mas sim a presença de homens da Força Nacional, armados com fuzis, que assistem a tudo impassíveis. Em tese faziam a segurança do agente. Para o bolsonarismo, o Ibama está na mesma categoria taxonômica que ambientalistas e índios.

Desde o começo de 2019 a minha rotina e a de muitos colegas tem sido “já ir se acostumando” com a possibilidade de ter o proverbial carro preto encostando na porta de casa um dia qualquer. Para você não achar que é exagero, isso já aconteceu. No ano passado, a Polícia Civil do Pará prendeu quatro brigadistas de uma ONG de Alter do Chão, acusados, numa denúncia forjada, de botar fogo na Amazônia. Na mesma operação, um colega meu teve seu escritório em Santarém invadido por policiais armados. Tudo lá dentro, de computadores a livros-caixa, foi apreendido. A ação ocorreu dias após Bolsonaro declarar que as ONGs eram responsáveis pelas queimadas na floresta. (Os brigadistas seriam inocentados dez meses depois. Meu colega, que pratica há mais de 20 anos o crime de prestar assistência médica a ribeirinhos nos cafundós da Amazônia, vingou-se do arbítrio fabricando face shields para doar aos policiais que precisam estar nas ruas na pandemia.)

O mero exercício de abrir o Diário Oficial é uma injeção permanente de cortisol. Nunca se sabe qual vai ser a boiada do dia na área ambiental, num governo que provou que não existe o pico do absurdo. Cancelar um fundo de US$ 1,5 bilhão doado por países ricos para proteção da Amazônia sob a alegação falsa de que as ONGs estão desviando verba? Check. Ir a uma conferência da ONU meses depois choramingar que países ricos não dão dinheiro para proteger a Amazônia? Check. Nomear policiais militares para dirigir o órgão que cuida de parques nacionais? Nomear para dirigir um parque nacional a filha de um fazendeiro que tem interesse na redução desse mesmo parque? Check. Atropelar pareceres técnicos para permitir exploração de petróleo num berçário de baleias? Atropelar pareceres técnicos para permitir exportação de madeira sem fiscalização? Check. Check. Amordaçar comunicações dos órgãos ambientais, assediar e perseguir servidores públicos, mentir até mesmo em respostas via Lei de Acesso à Informação? Check, check, check. Vivemos uma distopia por dia.

Meu coração ainda dispara quando alguém posta um arquivo num grupo de Whatsapp seguido daquela frase fatal: “Viram esta?”

Trinta anos de governança ambiental estão sendo arrasados em um ano e meio. Eu e minha mulher acompanhamos, como jornalistas, a construção de parte desse arcabouço desde o começo do século. E imaginamos a dor de muitos amigos nossos, que dedicaram a melhor parte de suas vidas a construí-lo desde o começo dos anos 1990.

Como nenhuma tirania se sustenta sem apoio, o bolsonarismo ambiental, que talvez possamos chamar de “boiadismo”, passeia sobre um amplo gramado de sabujos. Eles estão em parte da imprensa, que insiste em não notar que a gramática do poder mudou e que engole qualquer balela do regime para “cultivar fontes” e reportar em primeira mão mais uma marretada no artigo 225 da Constituição; estão no setor produtivo, cuja imagem internacional é vítima da boiada, mas que aderiu alegremente ao projeto ecocida e genocida em troca daquela equalização de juros camarada do Plano Safra e da promessa de laissez-faire – e que deu para culpar pela crise de imagem não os promotores do desmonte, mas as ONGs e a imprensa que o denunciam; e, por fim, por estranho que pareça, entre alguns ambientalistas, que por autoengano medroso ou oportunista buscam “diálogo”, “construção” ou se iludem achando que o general Mourão é “bem mais razoável” que o ministro da boiada (mais ou menos como Fidel Castro era “bem mais razoável” que Pol Pot).

Ao presidente e a suas hostes só tenho a dizer uma coisa: vem nimim. O  ambientalismo brasileiro tem duas armas que Bolsonaro jamais terá – os fatos e o interesse público. Em nome dessas duas coisas nós resistiremos. Em que pesem a venalidade de quem escolheu Bolsonaro em vez da Amazônia, as ameaças e as canetadas que destroem num segundo o belo consenso social de 30 anos. Um dia o pesadelo vai passar, e alguma coisa do alicerce civilizatório do país precisa permanecer. Não abriremos mão disso. Há dias em que é muito difícil, mas o arco da história está do nosso lado.

 

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

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