O fim do fake?

Claudio Angelo

 

Um efeito colateral do cataclismo epidemiológico que se abate sobre a humanidade neste 2020 pode ser o restabelecimento da saúde de uma senhora que anda nas últimas: a verdade. A Covid-19 tem dificultado a vida de governos que têm na mentira seu método de exercer o poder, como os regimes neofascistas das Américas. Se ainda houver civilização no final desta crise, talvez a contagem de patógenos como Donald Trump e Jair Bolsonaro na corrente sanguínea da humanidade despenque a ponto de o mundo receber alta.

Trump foi o primeiro a sentir nos glúteos a dor da injeção de realidade. Depois de passar meses negando o problema, disseminando falsidades sobre o “vírus chinês” e desautorizando seu ministro da Saúde, Tony Fauci, o americano viu o corona mais ou menos literalmente bafejar seu cangote – na pessoa do secretário de Comunicação Social do Brasil, Fábio Wajngarten. Com Seattle transformada em epicentro da pandemia nos EUA e o derretimento das bolsas no dia 12 de março, o presidente foi obrigado a anunciar medidas de guerra contra a doença, inclusive pacotes de socorro econômico e testes maciços para a população. Os americanos de repente se deram conta do ridículo que é não terem um sistema de saúde pública, e isso tende a custar caro aos republicanos. Os vídeos com as mudanças de 180 graus no discurso de Trump e dos âncoras da Fox News sobre a Covid-19 são uma preciosidade que deverá pingar na timeline de muita gente daqui até a eleição de novembro.

No Brasil, o coronavírus catalisou o consenso de que Bolsonaro, nas palavras imorredouras daquele haitiano, “não é mais presidente”. Da convocação e participação na Gadofest do dia 15 ao baile de máscaras da coletiva do dia 18, da negação da pandemia à comitiva infectada, Bolsonaro tentou seguir a cartilha de Trump – e, como atestam as panelas, quebrou a cara. O presidente dobrou a aposta no confronto, no diversionismo e na fraude para lidar com uma questão que afeta diretamente a vida de cada brasileiro, inclusive de seus eleitores. Com a crueldade que caracteriza Paulo Guedes, o governo tentou usar a ameaça à vida de milhões para pressionar o Congresso a desmontar ainda mais o Estado. Cereja do bolo, o bolsolavismo resolveu comprar briga com a China, numa aparente manobra que diversionista que pode ter-lhe custado o apoio de parte do agronegócio.

Os sinais de sepse no organismo bolsonarista não tardaram. A bancada ruralista, principal força do regime no Congresso, se apressou a botar panos quentes com os chineses – a nota do deputado Alceu Moreira só faltou dizer “quem é esse Botolini, nem nunca vi”.  A rede Bandeirantes, também ligada ao agro e cliente da firma de Wajngarten, chamou o chanceler Ernesto Araújo pelo que ele é: “idiota”. O tal “mercado”, cujos luminares até anteontem davam bananas para a democracia desde que blábláblá reformas, de repente aprenderam o significado da palavra “público”. Prevejo uma multiplicação de keynesianos enquanto os ditos liberais ficam sem televisão em casa durante a quarentena.

Mas a principal reação tem vindo da base: o eleitorado bolsonarista está acreditando nos médicos, na imprensa e nos cientistas, e não no presidente e na sua récua. As pessoas estão ficando em casa, lavando as mãos e protegendo os idosos. Tias nos grupos de família que dia 15 postavam fotos da Coronafest agora compartilham dicas de saúde pública. Agem com o bom senso que lhes faltou em outubro de 2018. O que aconteceu?

Aconteceu que o coronavírus providencia um soro instantâneo contra os pilares gêmeos do neofascismo, o obscurantismo e a mentira. Regimes como o trumpismo e o bolsonarismo sempre contaram com um delay entre a fake news presidencial do dia e seu impacto. É fácil chamar os cientistas de comunistas e cortar-lhes a verba, porque no dia seguinte não vai cair um meteoro sobre a Terra. É fácil negar o aquecimento global porque, mesmo que as pessoas estejam morrendo pelos eventos extremos, o nexo causal não é imediato. É fácil duvidar das vacinas, porque o filho do antivaxxer estará protegido pela imunidade das outras crianças com quem convive. Como no proverbial dragão de garagem de Carl Sagan, é impossível vencer uma argumentação quando o outro lado não precisa prestar contas ao mundo real.

A pandemia vira esse jogo ao mexer com o valor máximo de qualquer replicador darwinista: a preservação da própria vida. O presidente pode declarar na coletiva (ofegante e de olhos vermelhos) que é “só uma gripezinha”. Mas a esta altura todo mundo conhece alguém infectado ou alguém que conhece alguém infectado ou que foi para a UTI. À medida que o número de mortes aumenta, as pessoas vão tendo mais e mais razões para ouvir os cientistas e não seu “grande timoneiro”. A milícia de desinformação digital pode até reagir, como está reagindo, mas mesmo o gado mais bovino acreditará na sua experiência imediata e não nas loucuras que recebe no zap. É de experiência imediata, afinal, que vivem o terraplanismo e outros negacionismos.

Até mesmo as complacentes plataformas digitais parecem ter encontrado na Covid-19 o limite para seu estímulo tácito à extrema-direita. O Twitter, depois de deixar Eduardo Bolsonaro cometer crimes em série contra a jornalista Patrícia Campos Mello, deletou uma postagem desonesta do sinistro do Meio Ambiente sobre Dráuzio Varella e a seriedade da doença. O Youtube tirou do ar o vídeo do demente da Virgínia que chamava a Covid-19 de “maior manipulação da história”.

escrevi aqui que a ciência, frequentemente contraintuitiva e abstrata, perde feio na disputa por corações e mentes do mercadão do mundo digital, onde o controle de qualidade das ideias desaparece e ganha o freguês quem gritar mais alto. A pandemia dá uma chance rara à ciência de gritar mais alto, porque lhe retira a abstração e o mistério. Pessoas estão morrendo hoje. Quem seguiu os conselhos dos especialistas sobreviveu hoje. Por um breve e aterrador momento, Darwin está ao alcance dos olhos de bilhões de pessoas. Para desespero de Bolsonaro e Trump.

É cedo para dizer que o coronavírus produzirá uma gabrielapriolização definitiva do mundo e que os autocratas eleitos modernos sairão desta pandemia para um isolamento domiciliar perpétuo. Nos próximos meses muita água contaminada passará embaixo dessa ponte, e cenários plausíveis para o Brasil vão de Bolsonaro neutralizado a estado de sítio.

O que é possível antever, porém, é que a antiga ordem iluminista ganhou um respirador artificial. As instituições tradicionalmente encarregadas de encontrar e relatar a verdade sobre o mundo, a imprensa e a ciência, podem recuperar terreno e confiança perdidos à medida que salvem vidas e deixem os bots falando sozinhos que o “vírus chinês” não pega nada.

Seria ingenuidade afirmar que a humanidade terá aprendido a lição e emergirá deste período pronta para ouvir e apoiar a ciência na resolução da crise do clima, da desigualdade, da guerra às drogas e de outros problemas que demandem agir com base em evidências. Mas o diminuto vírus parece ter produzido uma rachadura, se temporária, no muro da manipulação digital que sustenta o novo autoritarismo. É hora de pegar as marretas, abri-lo e deixar entrar a luz do sol – que, como sabemos, é o melhor desinfetante.

 

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

 

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