O nome da mãe

Marcílio França Castro

Desenho de Lívia Arnaut

 

Um desconhecido me manda uma mensagem pela internet. Pede licença para perguntar se sou parente de uma senhora que tem o mesmo sobrenome meu. “Fui aluno dela no curso primário”, escreve. “Faz quarenta e cinco anos, em uma escola pública que não existe mais”. Conta que o prédio da escola foi demolido. Ficava no centro, ao lado de uma igreja metodista. Eram poucas salas, e uns corredores estreitos. No pátio de entrada, que hoje é um estacionamento, havia um escorregador gigante. As crianças desciam, caíam em um banco de areia. Isso sou eu quem recorda – pois também estudei lá. O desconhecido tinha encontrado na gaveta um antigo caderno escolar. Um caderno brochura, xadrez, encapado com plástico vermelho e durex, muito conservado. Recebo as fotos pela internet. Em uma das páginas, o menino desenhou um cachorro e uma mulher de chapéu. Em outra, uma casa amarela, uma fila de crianças na porta. As paredes da casa são tortas; a porta é da altura das crianças. O conceito da professora vem anotado no alto, “Excelente!”, com uma caligrafia firme e clara. Na capa do caderno, fotografada de perto, tem uma etiqueta de identificação. Na linha de cima, o nome do aluno. Na de baixo, a série e o nome da professora – com o sobrenome que herdei dela. O conjunto tem o tom avermelhado do plástico sobre o caderno. “Foi minha mãe quem escreveu o nome da sua mãe na capa”, ele diz – depois que confirmo o parentesco.

Leio o nome do aluno, leio o nome da minha mãe. A letra da outra mãe é forte e precisa, mas tombada. As duas mães estão juntas no mesmo caderno, respondo ao desconhecido, tentando ser afetuoso, mas logo me dou conta da pieguice da observação. A conversa vai adiante, ele menciona as lembranças que tem da professora, os cabelos curtos, a voz de brava, os olhos suaves. Na tela do computador, amplio a imagem da capa. Leio devagar o nome da minha mãe, pronunciando cada sílaba, como um aluno da primeira série aprendendo os signos. Por um momento, aquela caligrafia me lembra que escrever nunca deixou de ser uma atividade física, que aciona os músculos e os nervos tanto quanto o pensamento. Para escrever à mão, é preciso respeitar o humor do corpo, sua disposição; um caderno é antes de tudo o registro desse humor. Nas notas de um caderno, você vai encontrar alegria e lentidão, pressa e insônia, dias nublados e de sol. Todo caderno é um diário – mas isso não importa. Está aqui o nome da minha mãe, escrito em um caderno longínquo. Volto à caixa de mensagens, não há mais o que dizer ao desconhecido. Não tenho uma história para contar, não sou eu quem vai curar a aflição de sua memória, seus pequenos abismos. Ele pergunta se posso lhe enviar uma foto da professora – queria ver novamente o seu rosto. Pede um retrato antigo, de quarenta e cinco anos atrás. Deseja, é claro, uma máquina do tempo. Na velha fotografia, o olhar de uma pessoa querida: é esse o único espelho capaz de refletir o passado do observador.

Terminamos a conversa, continuo com a imagem do caderno aberta no computador. Leio o nome da minha mãe na velocidade da mão que escreve – com o respeito que se deve aos manuscritos. Ao repeti-lo, ouço a voz da mãe do desconhecido, sua voz interior, que se confunde com a minha. Não há como escrever sem murmurar por dentro o que se escreve. O nome da mãe: uma combinação de fonemas que agora soa perfeita, como um livro completo e mágico, como se a ausência do corpo fosse o último lance necessário à sua mais perfeita execução. Talvez seja esse o desejo de todo nome, libertar-se do corpo que designa e que o retém, e voltar-se enfim para a própria matéria, entoar sozinho seu canto particular. A mãe do desconhecido me faz pronunciar o nome da minha mãe. Uma vida inteira está nesse nome, mas apenas para os meus ouvidos. É preciso ter muita responsabilidade quando se escreve o nome de uma pessoa.

 

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Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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