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O preço do gibi

Érico Assis

Oferta num grupo de WhatsApp: os três Omnibus de Batman do Grant Morrison, juntos, pela metade do preço. Ou quase a metade. No original, preço cheio, cada um custa 75 dólares. Quanto dá 75 dólares hoje em dia? Um susto. Os três estão saindo quase pelo preço de um. Ou um e meio.

Eu já li todo o Batman do Grant Morrison. Tenho algumas edições. Mas não completo. Não nesse formato. Posso ler de novo. (Não vou ter tempo.) Fica legal na estante. (Acabou o espaço na estante.) Mas está pela metade do preço. (Dá um dízimo do seu salário.) Eu deixo de comprar outras coisas. (Não, não deixa.)

Deletei o grupo do WhatsApp.

* * *

Eu era das crianças que tinha mesada. Educação financeira, desde os oito anos. Em contrapartida, eduquei meus pais que a mesada era só para os gibis e que o resto – o lanche no colégio, a bicicleta, os cartuchos do Nintendo, o cinema – era com eles. Eles riram, mas capitularam.

Agora não lembro se foi um plano econômico, ou sei lá qual episódio da economia brasileira. Sei que passou algumas semanas sem chegar gibis na banca e, quando chegaram, tinham pulado de NCz$ 17 para NCz$ 30. De uma hora pra outra, minha mesada que comprava uns oito gibis por mês passou a comprar três.

Tomei a decisão financeira mais sagaz, anos à frente dos banqueiros em crise mundial: entreguei a carteira para meus pais e declarei que não queria mais mesada. “Vocês compram os gibis.”

* * *

“Porque, no meu tempo, se comprava gibi com o troco da padaria.” Não sei o que você comprava na padaria ou quanto dinheiro botavam na sua mão de criança que rendia um troco tão gordo. Gibis são dos vícios mais baratos que há, mas nunca custaram trocados. Não os meus trocados.

Hoje, eles custam o troco de um carro. (Vendo Ka 2012, único dono. Brinde coleção Pateta Faz História, único dono.) Podem custar mais que uma moto.

Existe, hoje, quadrinho por menos de cinco reais? Existem: os usados. Talvez o encalhe na banca (se você achar uma banca). Hoje, em dezembro de 2020, não há gibi novo do Mauricio de Sousa por menos de R$ 6,90. Dos super-heróis, nada por menos de R$ 9,90. Da Quadrinhos na Cia., nada por menos de R$ 39,90. Quadrinhos por mais de R$ 100, tem vários. O pudor de cobrar R$ 200 na capa sumiu há tempos.

É evidentíssimo que os gibis que dizem que se comprava com trocado – nunca comprei com trocado, repito – não tinham a mesma qualidade gráfica, nem o mesmo número de páginas e nem o mesmo conteúdo. Esses dos “trocados”, além disso, tinham tiragens que são fora da realidade em 2020.

Mas nem acho que isso vem ao caso. O que vem ao caso é que a definição de “trocado” depende de quantos carros e quantas motos suas economias compram. Pra minha mesada de criança, pras minhas bolsas de estagiário e pros meus salários de adulto, nunca foram trocado.

* * *

Não sei se inventei ou se roubei essa resposta de alguém, mas toda vez que alguém vem com o papo do “no meu tempo, a gente pagava trocado”, gosto de provocar que, hoje, os gibis estão mais baratos do que em qualquer época da história. Eles custam nada.

Ou quase nada. Eles se diluem na conta da internet ou do celular. Você pode ler, de modo legítimo, mais gibis do que vai ter tempo de ler na vida sem pagar um centavo a mais do que já paga pela sua conexão. E gibis bons, melhores do que aqueles do seu tempo.

(Sem falar no que você pode ler de modo ilegítimo.)

No seu tempo, aliás, não tinha YouTube, nem rede social, nem canal pago de streaming com mais conteúdo bom do que você tem tempo pra consumir, ao preço mensal de uns três gibis de qualidade duvidosa do seu tempo, que você e muita gente comprava só porque não tinha outro entretenimento a preço módico.

Eu sei que o papel não acabou, eu sei que o fetiche por lombadinhas na estante não acabou. Sei de quem gosta de abrir o gibi e cheirar o papel, e respeito. Mas papel é caro e só fica mais caro (como tudo mais). Papel também virou fetiche.

A questão não é mais se o gibi está caro ou barato. A questão é: como se atribui preço a fetiche?

* * *

É aquela alegria de ir a sebo que não sabe o que está vendendo: “Rá! Paguei 50, mas vale uns 200!” Mas vale os 50? Aquela coleção de Batman Omnibus vale um terço do preço cheio?

Voltei no grupo do WhatsApp. Fiquei analisando o anúncio de novo.

Você tenta ser racional. Faz as contas e vê que dá um preço bom por página, como se o conteúdo valesse por arroba. Você se justifica que aquilo vai esgotar e você vai poder vender por um bom preço daqui três, quatro, cinco anos – mesmo que você não saiba nem vender água no deserto. (Eu não sei.)

São as justificativas que a gente cria pra nós. Tudo se justifica. De justificativas, o inferno e a lista de falências estão cheios.

Aprendi naquele gibi do Miracleman: Dinheiro é uma coisa imaginária. Só é real se a gente acreditar. O gibi pelo qual você pagou 50 não vale 200, nem 500, nem 200 milhões. Vale o que sua cabeça imaginar. Tudo se justifica e nada se justifica. Tudo é fetiche. Por aqueles Omnibus do Morrison? Eu devia pagar muito mais. Merecem.

Aí chegaram o boleto do IPTU e a rematrícula do colégio das crianças. Não vou comprar Omnibus nenhum.

 

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

 

Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o Blog com textos sobre histórias em quadrinhos. É autor de Balões de Pensamento (Balão Editorial), uma coletânea de textos lançados aqui no Blog. Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Minha coisa favorita é monstro e Sapienshttp://ericoassis.com.br/

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