Os momentos preciosos

Érico Assis

 

“Estava longe de ser meu primeiro filme. Morávamos perto de Hollywood. Éramos cercados pelos filmes. Este se chamava ‘A casa de Rothschild’. Era em preto e branco, como todos. Mas, de repente…”

“…toda a plateia fez ‘oh!’. O último rolo era colorido. As pessoas nunca tinham visto um filme colorido.”

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Quando Emmanuel Guibert tinha 30 anos, estava passeando pela Ilha de Ré, ilhazinha turística na costa da França, e pediu informações a um senhor na rua. O homem era um norte-americano aposentado que morava por lá. Os dois começaram a conversar. Passaram cinco anos conversando.

Guibert completa 56 este mês. Ainda está desenhando, em quadrinhos, a vida daquele senhor a quem pediu informações na rua. A vida daquele senhor já rendeu cinco álbuns.

O senhor chamava-se Alan Ingram Cope. Nascido na Califórnia em 1925, ele foi convocado para a Segunda Guerra Mundial em 1943. Despachado para a França em 45, resolveu ficou por lá até o fim da vida, em 1999.

Guibert gravou as conversas com o amigo. Por quê? “Porque ele era um aposentado que me convidou para ir à sua casa, me apresentou à esposa, ao cachorro, depois me apresentou a sua vida”, o autor contou em entrevista de 2012. “Eu tinha trinta anos, e é interessante para um homem sem experiências conversar com alguém que pode botar a vida em perspectiva – uma visão da vida que é tanto panorama geral quanto close up, o que só se tem de uma pessoa de idade. Fiquei fascinado.”

Guibert só se arrepende de não ter produzido os quadrinhos mais rápido. O primeiro que fez sobre Alan, A guerra de Alan, saiu seis meses depois de o amigo falecer.

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Gosto muito desse vídeo de menos de um minuto onde Guibert mostra sua técnica de desenho. Quando ele pinga o nanquim e a tinta corre para preencher o traço:

 

Emmanuel Guibert dessine Alan from ArL Provence-Alpes-Côte d'Azur on Vimeo.

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Os três volumes de A guerra de Alan: as memórias do soldado Alan Ingram Cope saíram entre 2000 e 2008 na França. (No Brasil, saíram em volume único pela editora Zarabatana, em 2010.) Tendo chegado à Europa nos últimos meses da Segunda Guerra, Cope viu pouquíssimo do conflito. Seu batalhão avançou por França e Alemanha e chegou até a Tchecoslováquia. Pelo caminho, ele conta as amizades que fez com outros soldados e com famílias europeias que conheceu.

Cope apertou a mão do General Patton e recebeu um Coração Púrpura, a condecoração militar por ferimento em combate. Diz que ganhou a medalha porque caiu de uma escada. Ele ficou sob fogo inimigo e disparou sua metralhadora, mas não muito mais que isso. Um filme sobre sua carreira militar seria cheio de conversas e segundos de ação. Essa foi a Guerra para Alan. O terceiro volume de Guerra, aliás, se passa depois da Guerra.

L’Enfance d’Alan: d’après les souvenirs d’Alan Ingram Cope, ou “a infância de Alan: conforme as lembranças de Alan Ingram Cope”, saiu em 2012. Tem um título curioso na edição em inglês: How the world was: a California childhood, ou “Como era o mundo: uma infância californiana”. Tal como suas lembranças de guerra, não há nada de excepcional nas suas memórias de criança nos anos 1920 e 1930. Ele brincava com os vizinhos, ele tinha medo de desobedecer aos pais, sua avó lhe contava histórias, sua família fazia piqueniques no interior, uma vez viram uma pele de cobra e eles foram ao primeiro filme colorido no cinema.

É o meu preferido. É um dos maiores quadrinhos que eu li na vida.

Em 2016 saiu Martha & Alan, sobre a grande amizade da infância de Cope – que acabou abruptamente quando os dois tinham doze anos. Eles ainda se veriam uma vez, aos dezoito. Martha o recebeu em casa antes de ele partir para o treinamento militar e tocou um fragmento de Chopin. Dois anos depois, durante uma baixa do exército, ele bateu na porta dela, mas ela não atendeu.

Spoiler: Alan e Martha voltaram a se falar, via cartas, quase quarenta anos depois. As últimas palavras do álbum são o trecho de uma carta de Martha a Alan e, depois, um comentário dele:

“Sempre quis lhe contar o quanto me arrependi da péssima recepção que lhe dei quando você veio me ver, antes do alistamento. Meu dia tinha sido medonho e eu estava com um humor do cão.”

Aos sessenta anos, ela ainda lembrava.

Isso demonstra que um significou algo para o outro.

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Martha & Alan é diferente dos outros quatro álbuns. Adotar um estilo de livro ilustrado, praticamente só de páginas duplas, panorâmicas, inspiradas em um artista asiático que Guibert seguia na época. São paisagens de memória, terrencemalickianas, com cor assombrosa. E árvores, muitas árvores, porque árvores eram uma paixão de Cope e viraram paixão de Guibert.

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Guibert não vive só em torno de Alan Cope. Sua obra mais conhecida e mais premiada é O Fotógrafo, em parceria com Frédéric Lemercier e o fotógrafo Didier Lefèvre (1957-2007). Que é um marco nos quadrinhos pela bela integração entre desenho e fotografia. Ele também escreve a série infantil Ariol, sobre um garoto-burrico e sua turma de coleguinhas-bichos – já teve treze álbuns, virou desenho animado etc. Este ano, Guibert ganhou o Grand Prix d’Angoulême, pelo conjunto da obra. É a maior honraria do quadrinho na França.

E ainda não acabou de escrever sobre Alan Cope e desenhar Alan Cope. O próximo álbum deve ser sobre a adolescência do amigo.

“Desde 1999, quando ele morreu, resolvi que ia lhe dedicar álbuns para que continuasse sendo importante na minha vida”, ele declarou em 2016. "Para que eu continue a lhe dedicar meu tempo, a discutir, a aprender mais sobre ele. Quero ter sempre em perspectiva um novo livro [com ele], que não deixe a história acabar. Enquanto eu tiver livros a produzir, nossa história conjunta não vai ter fim.”

Quando lhe fizeram a mesma pergunta mais recentemente, em 2018, Guibert disse:

“No fundo, passei vários momentos agradáveis e calorosos, que fizeram eu me sentir bem com alguém de quem gostei muito. Busco fazer livros sobre este homem porque considero estes momentos com ele preciosos e creio que o papel de quem traz livros ao mundo é circular os momentos preciosos que viu, experimentou, sentiu ou aprendeu.”

 

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

 

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