Os preceitos do pai do Chico

Luiz Schwarcz

Foto: Bob Wolfenson

 

Os romances de Chico Buarque me trouxeram enorme realização como editor. Acompanhei de perto a feitura de Estorvo, desde o momento em que Marieta Severo comprou um computador para o (então) marido, que visivelmente estava grávido de um livro, embora talvez nem soubesse. Foi o único romance dele que li o começo logo ao ser escrito. Chico, sem motivos, estava inseguro em relação às primeiras linhas do que viria a ser um notável sucesso de crítica e público.

Meses antes deste dia, enquanto ele ainda escrevia Estorvo, num almoço com um editor de cultura de uma importante revista tive uma amostra do preconceito que havia contra o Chico escritor. No Brasil ninguém tem direito de ser bom em mais de uma área profissional, logo o grande compositor de quem ninguém nunca lera um romance (ele não considera Fazenda Modelo um romance, como os que vieram depois) já nasceria fracassado. Naquele almoço percebi que a Companhia das Letras teria que obter reconhecimento da melhor crítica literária acadêmica, além do imprima-se de editoras estrangeiras, para que Estorvo fosse lido sem prejulgamentos.

E assim foi. Arriscadamente mandamos o livro com embargo para dez ou doze críticos literários, dando um mês para a leitura do texto antes de distribuí-lo para a imprensa. Conseguimos ainda que os pareceristas da Gallimard, da Bloomsbury e da Pantheon, entre outras casas, recomendassem a publicação em países nos quais Chico era pouco ou nada conhecido.

Com o livro lançado, as resenhas foram estupendas em todos os jornais e revistas, muitas delas escritas por alguns dos críticos que receberam as provas com antecedência. Chico curtiu cada linha impressa, travando diálogos imaginários com seus autores — diálogos que tive a oportunidade de compartilhar, em longos telefonemas, com Chico em Paris, seu refúgio predileto nos momentos em que os livros vêm a público.

A partir daí todos os seus livros, talvez com exceção do injustiçado Benjamim, tiveram uma recepção mais profunda do que a normal, sendo Leite derramado possivelmente o que obteve comparações mais impressionantes e maior espaço, pelos seus evidentes ecos machadianos. A carreira de Chico como escritor se estendeu a muitos países, e no revezamento com a música lhe trouxe muita felicidade.

Sobre Benjamim há uma curiosidade interessante: gostei tanto daquele personagem melancólico que pedi para o meu pai servir de modelo para a capa da primeira edição. As fotos de Bob Wolfenson retratam um personagem com quem me identifiquei. Nos olhos de Benjamim vi a tristeza do meu pai.

Dentre as obras literárias do Chico, Estorvo dialoga em especial com a irmã Miúcha, Leite derramado também usa de muitas histórias ouvidas em casa, principalmente de D. Amélia, mas O irmão alemão é o que mais tem ressonância familiar, por razões óbvias. Chico inicialmente tentou escrever um romance sobre o irmão que não conheceu, mas no meio teve que parar. “Luiz”, disse, “não consigo mais escrever sem saber o que de fato ocorreu com meu irmão.” A editora ajudou na pesquisa, e não só a história do irmão pôde ser contada como se abriu uma vida familiar nova, com visitas transcontinentais constantes entre sobrinhos, sobrinhas, tios e tias.

De toda forma, do que testemunhei como sortudo editor, pude ver que a presença do pai, grande historiador e crítico literário, talvez seja o aspecto familiar mais forte, que une os livros de Chico. Na ocasião em que me entregou o primeiro trecho de Estorvo, ele fez uma observação que revelava toda sua ansiedade. Afirmou que imaginava o pai recebendo seu texto e dizendo: “Chico, literatura é coisa séria, muito séria”. Nesse ponto tenho certeza de que Chico satisfez a seu pai, que sorri ainda mais com o prêmio agora concedido, vendo que o filho seguiu à risca seus preceitos.

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Luiz Schwarcz é editor da Companhia das Letras e autor de Linguagem de sinais, entre outros.

 

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