Pandeminions

Claudio Angelo

Protesto em São  Paulo contra as medidas de restrição impostas pelo governador João Doria (14/03/2021 - © Nancy Ayumi Kunihiro)

 

S., 44, economista, acredita em vírus chinês. Jura de pé junto que o Sars-2 vazou de um laboratório P4 onde os malditos comunas, vai saber com que intenção, pesquisavam coronavírus de morcegos. Viu num preprint indiano que a sequência do corona pandêmico é “muito estranha”, impossível de ser produzida naturalmente. Sossegou um pouco diante da descoberta de que o vírus não se encaixa com perfeição nos receptores humanos, o que descarta engenharia genética (afinal, se fosse para fazer uma arma biológica, os agentes de Pequim produziriam algo melhor que uma gambiarra, algo mais típico das forças cegas da evolução). Mas recentemente veio com um “ahá-eu-não-disse” quando a OMS anunciou que, um ano depois, ainda não conseguira determinar o reservatório selvagem do coronavírus. O HIV levou mais de 30 anos para ter sua origem demonstrada e o ebola, mais de 40, mas isso é detalhe.

M., 69, advogada, tem vários amigos e parentes que pegaram Covid, mas melhoraram com cloroquina. Ou ao menos é o que ela acha. Adoeceram, meteram o kit Covid para dentro e melhoraram, quer prova maior que essa? Tem um médico homeopata amigo que lhe receitou ivermectina profilática, ela foi lá na farmácia e comprou dez caixas. “Nem bolsonarista ele é”, assevera. Quer tomar vacina, até a Coronavac, se for o caso, mas duvida das intenções dos chineses e acha “muito estranho” que ninguém fale mais da situação da pandemia no país de onde ela veio. Cadê a Globo nessas horas?

M., 66, advogado, irmão de M., 69, diz que não vai se vacinar de jeito nenhum. Testa positivo duas semanas depois, na volta de um casamento no litoral norte da Bahia. Sintomas leves. Sua mulher, J., 65, desenvolve pneumonia e é internada num hospital particular. Sai depois de alguns dias. Ambos passam bem.

P., 38, comerciante, foi para a porta da casa do governador protestar para manter seu bar aberto. “Estou tomando todos os cuidados”, tem álcool gel na porta. O bar tem 5 metros por 5 metros e cinco mesas perto uma da outra. Ele tirou duas mesas para melhorar o “distanciamento social” dos clientes que comem petiscos e tomam cerveja sem máscara e respiram muita coisa juntamente com o cheiro da carne de sol frita na chapa. “Estou tomando todos os cuidados”, repete. “Mas desemprego também mata.”

A., 40, dentista, está de fato tomando todos os cuidados. Só atende com hora marcada, face shield, máscara Aura para ela e as funcionárias e macacão de Tyvek. A clínica parece um laboratório de biossegurança NB2, com filtros de ar de ozônio. “Tá ruim no mundo inteiro, né? Olha a curva na França. Olha como acelerou na Alemanha. Um horror. Você viu que os alemães estão com atraso na vacina?” No dia em que ela diz isso o Brasil ultrapassa 3.000 mortos. Um terço dos cadáveres de Covid no mundo todo, com 3% da população.

R., 49, governador, foi um dos primeiros a fechar as escolas, em 2020. Pressionado pelos comerciantes, pelos financiadores de campanha, pelas igrejas e pelo presidente, mandou reabrir serviços essenciais – como concessionárias de automóveis, salões de beleza e academias, todos essenciais a seus donos – em plena alta da pandemia. Após a reabertura e a previsível aceleração do contágio, transferiu a responsabilidade de se cuidar para a população, com uma campanha na TV. Não compareceu ao primeiro dia de vacinação para não desagradar ao presidente, de quem é aliado. Editou em um fim de semana quatro decretos diferentes de toque de recolher, um mais frouxo que o outro, até que teve um súbito ataque de pau na mesa e mandou fechar tudo. Dez dias depois, reabriu tudo de novo. Doentes têm morrido em casa por falta de leito no Estado.

J., 25, publicitária, já perdeu a conta das festas a que foi. Mas surubas foram só três ou quatro no último ano, porque, né, tudo tem limite. Tem flashes vagos do Réveillon em Jurerê – muito MD e muito prosecco. Vive todos os dias como se fossem o último. Para duas de suas amigas de balada foram mesmo.

V., 60, do lar, reclama entre dentes da filha mais velha que não lhe visita nem lhe leva os netos. A casa no Itanhangá é ampla, tem quintal, não entende por que a restrição. A empregada, I., 35, vai e vem da Pavuna toda semana de transporte público. “Foi ela quem insistiu para trabalhar”, diz. “Mas, ó, ela sempre toma banho quando chega, entra pelos fundos, não tem contato com ninguém.” V. sai de carro para fazer compras, vai fazer o pé no Barrashopping e sempre que precisa dá um rolê numa loja de material de construção. “Tomo todos os cuidados”, assegura.

C., 59, cirurgião plástico, diz que o Presidente da República não tem responsabilidade nenhuma pela catástrofe. “Ele fala umas merdas, mas um país desse tamanho é impossível de manejar. Nem se a Marina Silva fosse presidente. A população é muito mal educada. Ninguém tem consciência.” C. afirma que a preocupação com a economia é justa e que “todo mundo vai pegar” o vírus em algum momento. Toca o Whatsapp. É o filho, P., 30, engenheiro, que mora no Texas e liga para contar que acaba de tomar a primeira dose da Pfizer. “Graças a Deus ele está fora deste país”, comemora.

R, 44, senador, acha que uma CPI da pandemia trará muita confusão ao país. “Absolutamente inapropriada”, afirma. Diz que é hora de olhar para o futuro.

Washington Cinel, 66, empresário do ramo de segurança privada, recebeu em sua mansão para um jantar o Presidente da República, alguns ministros e outros 13 empresários. Aos jornais, vazaram em off que o presidente foi “ovacionado” no convescote. O país registrou quase 4.200 mortos naquele dia. Cinel declarou à Folha de S.Paulo que o governo tem “muito motivo para ser aplaudido”. É contra lockdowns, mas a favor da vacinação em massa. “Sabe por quê? O cara fica doente, não vai trabalhar, você precisa contratar outro. O que nós estamos perdendo com isso é incrível a nível econômico. Esse é o grande problema”, ponderou. “Além das mortes, logicamente.”

 

***

 

Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

 

Neste post