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Paulo e a circuncisão

Frederico Lourenço

FOTO: Unsplash

No apócrifo Evangelho de Tomé (§ 53), os discípulos perguntam a Jesus se a circuncisão serve de alguma coisa; Jesus responde que, se servisse, os meninos já nasceriam circuncidados.

É-nos difícil ter a medida de quão revolucionárias e radicais estas palavras soariam aos ouvidos de um judeu no século I. A circuncisão como exigência incontestável de Deus, imposta a Abraão e a toda a sua descendência, estava expressa em Génesis 17:11. Para um judeu do século I (como, aliás, do século XXI), não havia (nem há) dúvida possível quanto à absoluta obrigatoriedade da circuncisão, como marca "na carne" da "aliança perpétua" de Deus (Génesis 17:13). Tanto Jesus (Lucas 2:21) como Paulo (Filipenses 3:5) eram obviamente circuncidados.

Quando Abraão recebeu de Deus este mandamento, já tinha 99 anos. Não obstante tão avançada idade, submeteu-se à circuncisão e obrigou todos os seus filhos, parentes e escravos a fazerem o mesmo (Génesis 17:24-27). Podemos imaginar como o pós-operatório desta circuncisão em massa de adultos, feita sem anestesia e em condições higiénicas decerto propiciadoras de infeções e complicações várias, terá mostrado aos homens da casa de Abraão a sensatez de Deus ter estabelecido que a cirurgia deverá ocorrer no oitavo dia após o nascimento do bebé (Génesis 17:12). A verdade é que se trata de um procedimento cirúrgico que é tanto mais complicado e doloroso quanto mais velho for o paciente.

No século I, quando a mensagem de Jesus começou a extravasar para lá do mundo judeu e suscitou cada vez mais adesão da parte de não-judeus, colocou-se este enorme dilema: era mesmo indispensável que os gentios incircuncisos passassem pela experiência pouco apelativa de se submeterem à circuncisão, com todos os riscos que isso implicava (tratando-se de homens adultos)?

Os Atos dos Apóstolos e a epistolografia de Paulo dão-nos a ver as duas respostas irreconciliáveis que, no seio da geração dos primeiros cristãos, deram azo a grandes desentendimentos e conflitos. É que, embora os evangelhos canónicos não nos transmitam qualquer posição expressa por Jesus no tocante à circuncisão (Jesus só refere o tema, sem aprovação ou condenação explícitas, em João 7:22 e 23), alguns dos que tinham sido próximos de Jesus defendiam a obrigatoriedade da circuncisão para gentios que se convertessem ao cristianismo.

A atitude contrária teve sobretudo como paladino o apóstolo Paulo, que pregava um euangélion ("boa-nova") de que a necessidade da circuncisão estava completamente arredada. Para Paulo, com efeito, não havia a mínima necessidade de convertidos incircuncisos se submeterem à circuncisão, por motivos que ele explica com grande eloquência, sustentação teológica e talento persuasivo no Capítulo 4 da Carta aos Romanos.

Uma das razões pelas quais a abordagem à circuncisão na Carta aos Romanos lhe saiu tão bem pode ter sido a sua consciência de que uma anterior tentativa de defender o seu ponto de vista lhe saíra bastante mal. É o caso da Carta aos Gálatas, escrita como reação à notícia de que alguns gálatas, que o próprio Paulo convertera, tinham acedido, sob influência de "outro evangelho", a se submeterem à circuncisão. A resposta de Paulo parece ter sido escrita num momento de tal indignação que lhe faltou o sangue frio para perceber quanto a sua defesa da incircuncisão dos gentios nesta carta não fazia mais do que dar argumentos aos seus adversários. Isto porque a Carta aos Gálatas está cheia de falhas argumentativas, que analiso na Introdução a esta epístola na minha nova tradução do Novo Testamento.

Se é verdade, porém, que a argumentação que sustenta a atitude de Paulo a respeito da circuncisão é vulnerável e por isso não suscita adesão incondicional, o mesmo – é preciso sublinhá-lo – não poderá dizer-se do axioma em si que traduz a atitude do apóstolo: "em Cristo Jesus não importa nem circuncisão nem prepúcio, mas 'só' a fé que atua através do amor" (Gálatas 5:6).

A frase é lindíssima; mas, no que toca à situação vivida na Galácia, que tanto provocou a indignação de Paulo, fica no ar a seguinte pergunta: se "em Cristo" é indiferente que os homens tenham ou não prepúcio, por que razão é que Paulo quer negar aos gálatas incircuncisos o direito de seguirem à risca uma inequívoca exigência de Deus (Génesis 17:11) e optarem pela circuncisão? Em Gálatas 5:3, Paulo tenta exercer pressão no sentido de desincentivar essa liberdade, com a ameaça de que, a partir do momento em que se é circuncidado, é-se obrigado a seguir toda a lei (pelo que se entende o respeito pelas regras alimentares, pelo dia de sábado, etc.).

Este ditame de "ou tudo ou nada" não é fundamentado e, contrariamente ao axioma anteriormente referido, não é convincente. Talvez por intuirmos que a verdadeira razão da ira de Paulo nesta carta é que, afinal, os "seus" gálatas viram uma lógica no "outro" evangelho que se baseava, sem rodeios sofísticos e reinterpretações artificiosas da Escritura, na simplicidade da palavra de Deus: "todo o homem será circuncidado" (Génesis 17:10).

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Frederico Lourenço é escritor, tradutor e professor de grego antigo. Formou-se em línguas e literaturas clássicas na Faculdade de Letras de Lisboa, onde concluiu seu doutorado. Desde 2009 leciona na Universidade de Coimbra. Traduziu do grego a Odisseia, Ilíada e as tragédias de Eurípides, Hipólito e Íon. Sua tradução da Odisseia recebeu o prêmio D. Diniz da Casa de Mateus e o grande prêmio de tradução do PEN Clube Português e da Associação Portuguesa de Tradutores. Pela publicação do Volume I da Bíblia recebeu em 2016 o prêmio Pessoa.

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