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Perguntas e respostas sobre "Redemoinho em dia quente"

Jarid Arraes

No início do ano, abri uma caixa de perguntas no instagram para que os leitores me enviassem suas curiosidades sobre o meu livro Redemoinho em dia quente.

Abaixo, reuni as perguntas mais frequentes, além das perguntas feitas por apenas uma pessoa. Tentei ser mais ou menos breve para não cansar ninguém. Vamos lá:

 

Há aspectos autobiográficos no Redemoinho? Há personagens verídicos? Como você chegou a essas histórias?

Não, é tudo ficcção. De real, apenas os lugares, cenários, a cultura. Esses aspectos que fazem parte de toda paisagem e linguagem do livro. Também não me inspirei em nenhuma pessoa específica para criar personagens, minha motivação foi de reunir algumas representações comuns, tipos de figuras que a gente conhece porque são parte da nossa cultura. Para criar as histórias, usei muito minha memória afetiva das ruas, dos eventos culturais, dos locais como a Matriz e o Horto, enfim. Ter essa base foi bem especial. Quando juntei com as fotografias que fiz (para ver, acesse http://www.redemoinhoemdiaquente.com.br), as ideias fluiram bastante. As fotos foram muito inspiradoras.

 

Qual conto você mais gostou de escrever? Qual foi o mais difícil? Qual levou mais tempo? Qual foi mais rápido?

Os contos que mais gostei de escrever, porque me diverti escrevendo, foram: “Sacola”, “Boca do povo”, “Graça”, “As cores das fitas”, “Até as nove”, “Gesso”, “Os fatos dos gatos” e “Não tem onça na serra”. Os mais difíceis ou que demoraram mais: “Telhado quebrado com gente morando dentro” (porque reescrevi mudando a narradora) e “Voz” (pela atenção necessária).

 

Há ligação entre o seu “Cachorro de quintal” e o “O cão sem plumas” do João Cabral?

Não que eu saiba, porque não li “O cão sem plumas”. “Cachorro de quintal” foi algo que partiu do sentimento de falar sobre uma marca cultural que já foi muito mais normalizada no passado, mas infelizmente ainda é.

 

Quanto tempo levou ao total para escrever o livro?

Sete contos foram escritos no ínicio de 2015, e aí lancei a edição independente As lendas de Dandara. Depois voltei a trabalhar nesses sete contos em 2016, reescrevendo todos, mas então lancei a segunda edição de As lendas de Dandara. Em 2017 não mexi nos contos, mas fiquei bastante ocupada com o lançamento e divulgação do Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis. Em 2018 lancei o Um buraco com meu nome. Só depois da Flip de 2018 que voltei aos contos que já tinha e comecei a escrever novos. Acho que durou sete ou oito meses para escrever os novos e fecharmos tudo.

 

Por que decidiu separar o livro em dois momentos principais?

Foi uma conversa com minha editora, eu enxergo como dois momentos afetivos. Para quem não conhece as referências, a primeira parte de chama “Sala das candeias” devido a Nossa Senhora das Candeias e sua importância no Cariri, especificamente em Juazeiro do Norte. E a segunda parte, “Espada no coração”, também referencia uma santa, a Nossa Senhora das Dores, também pela relação com a cidade. Acho que ter duas figuras femininas tão ligadas ao que eu queria representar foi a prioridade.

 

Como chegou ao título? Por que escolheu esse título?

Eu saí relendo o livro inteiro pela milésima vez, anotando frases que eu achava interessantes, e encontrei o título no último conto, depois que já tinha relido tudo. É facinho de achar o títiulo dentro do conto. A escolha foi fácil quando vi a frase que eu tinha escrito. Acho que a imagem e o sentimento de um redemoinho girando num dia quente demais é a junção de todas aquelas mulheres e histórias e do incômodo que um calor lascado traz. E a partir do incômodo que escrevo.

 

Como foi o processo de escolha dos temas? Como foi o planejamento?

Eu não fiz uma lista de temas que queria ver no livro, para mim a liga de tudo é o lugar, a cultura e as mulheres. Então eu fui escrevendo bem livre, seguindo as ideias que apareciam, e buscando inspiração em imagens, memórias olfativas e musicais. Depois que eu já tinha bastante conto, aí eu parei para refletir sobre os temas e avaliei se queria incluir algo específico. Foi o que aconteceu com o “Gilete para peito”, o último que escrevi, porque o outro conto que eu tinha com uma protagonista bissexual foi retirado e eu fazia questão de ter uma personagem bi.

 

Você escreveu mulheres idosas para mostrar o envelhecer e a solidão da mulher?

Não pensei em solidão e nem no processo de envelhecimento, pensei mais em como gostaria de ler histórias em que mulheres mais velhas são protagonistas e como gostaria que essas histórias fossem inesperadas ou um pouco doidinhas. Minha intenção sempre foi escrever mulheres diferentes, de idades diferentes, entre outras características.

 

Dentre todos, você tem algum preferido?

Ai, não sei dizer assim com certeza. Eu gosto muito do “Boca do povo”, eu me diverti escrevendo e as pessoas sempre falam bastante coisas muito boas sobre ele.

 

Como você avalia o alcance do Redemoinho comparado aos seus outros livros?

Felizmente eu tive experiências ótimas com meus livros anteriores, todos com muitas reimpressões, mesmo com todas as barreiras de distribuição, mesmo sem destaques nas livrarias. O Redemoinho tem um alcance maior porque a Companhia é uma das maiores editoras do Brasil e me oferece muito mais possibilidades de divulgação e ações para conversar sobre o Redemoinho. Também ganhei dois prêmios (APCA e Biblioteca Nacional) e fiquei entre os 5 finalistas do Jabuti, então essa coisa dos prêmios contribui demais. É a primeira vez que um livro meu está em livrarias em todas as regiões do Brasil, incluindo na minha cidade. Antes dele, meus livros não estava acessíveis assim, somente pela internet. E, claro, tenho uma relação maravilhosa com as pessoas super queridas e especiais da editora, e isso faz tudo fluir muito bem. <3

 

Você ouviu músicas durante o processo de escrita?

Enquanto estava escrevendo, não. Qualquer barulho “irregular” me atrapalha demais. Eu escrevo com fones de ouvido e som de chuva torando de alto. Mas fora do horário de escrita, acho que meu amor por Zé Ramalho é uma relação importante com o Redemoinho. Zé Ramalho, pra mim, tem a cara do Cariri que eu enxergo. Além disso, a Lady Gaga sempre é minha inspiração maior, mas não apenas suas músicas. A forma como ela é artista e o que coloca em seu trabalho é algo que me movimenta demais.

 

Que autores e obras te inspiraram para escrever esse livro?

Enquanto estava escrevendo, não pensei em nenhum autor ou obra específica. Mas posso dizer que o Marcelino Freire é um grande amor que tenho e que ele abriu mil caminhos para escritores como eu. Até o jeito dele ler em público é um alumbramento sem fim.

 

Você considera que o Redemoinho é um modo de engajamento político?

Eu considero toda obra de arte política. No caso do Redemoinho, existe muita consciência e intencionalidade para trazer determinados temas, como o principal de todos eles, que é a geografia cultural da coisa. A linguagem do Cariri. Levantar aspectos que não encontrei nos livros que li, escrever do jeito como o caririense fala, valorizar nosso vocabulário e sonoridade. Essa é minha forma de não pasteurizar minha linguagem e também de apresentar o sertão sem clichês, estereótipos e visões distorcidas da diversidade que o sertão é e tem. Também vale olhar para a política das “pequenas coisas”, que podem ser tão imensas. O fato de que todas as protagonistas e narradoras são mulheres. Tem muita coisa dentro desse mundo do Redemoinho. Mas, para mim, o principal está no questionamento do que peste é isso de regionalismo?

 

Amei as pegadas de ação e suspense a lá Bacurau e filmes do gênero. Vocè é fã de algum autor de suspense, tipo o Stephen King?

Nossa, quando eu assisti “Bacurau” fiquei o tempo todo pensando no Redemoinho em dia quente. Para mim, foi impossível não fazer ligações, paralelos, ou só me emocionar por ver aquela representação maravilhosa. Que filme, minha gente. No top 5 da minha vida. E gosto bastante de suspense, gosto do Stephen King, leio alguns livros do gênero, gosto muito do Raphael Montes e amo principalmente suspense e terror no videogame. Jogo demais.

 

E a capa?

A capa é uma parte de uma obra da artista Vânia Mignone e foi uma escolha do próprio Luiz Schwarcz, mas eu não sabia, hahaha. A editora me apresentou duas versões e fiz a escolha. Eles teriam me apresentado outras, caso eu não tivesse curtido nenhuma das duas. Mas curti e não consigo imaginar esse livro com outra capa!

 

No livro, muitos contos são bem fortes e reflexivos, mesmo aqueles com um toque de humor. Em algum momento durante a escrita você ficou exausta mentalmente?

Olha, exaustão é uma das palavras que define meu processo criativo. A outra é desespero. Eu sento todos os dias, por horas, sem qualquer limite, porque fico na angústia de fazer. O que me deixa cansada não é o tema, por mais pesado que ele seja, mas a escrita. Escrever é difícil, trabalhoso, faz sua autoestima alcançar o centro da Terra. É muita doidera aqui. Redemoinho me deixou bem casanda, eu reli esse livro mais do que cinquenta vezes, facinho.

 

Você leu ou pesquisou algo de linguística para escrever?

Não, eu só escrevi tentando colocar um bom equilíbrio de oralidade, do nosso vocabulário do Cariri, do ritmo das nossas palavras e expressões. Eu acho que escrever cordel foi uma das coisas que trouxe muita familiaridade para essa escolha que fiz.

 

Como foi o processo de escolha dos contos para o livro?

Isso foi trabalhado junto com minha editora maravilhosa, que me ajudou a enxergar as linhas costurando os contos. Fui teimosa em alguns momentos e fiz questão de incluir dois ou três contos, não lembro exatamente, que ficariam fora. Um deles é o “Cachorro de quintal”. Acho que minha editora fez um trabalho incrível e lindo de diálogo comigo, que ela compreendeu tudo perfeitamente e que, por causa dela, o Redemoinho tem qualidades muito importantes. Então uso aqui o espaço para agradecer e dizer que a amo!

 

É isso, gente!

Se não respondi sua pergunta, provavelmente foi porque não encontrei entre as mensagens. Mas espero que esse ideia tenha sido legal e em breve a gente repete!

Beijão!

 

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Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

 

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

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