Pessoas

Noemi Jaffe

Foto: Geir Pettersen/ Getty Images

 

Escrevo há muitos anos, publico há não tantos, mas é recente uma pequena revelação sobre o ofício da escrita.

Sempre disse que a literatura não serve para nada nem serve a ninguém e que é aí, contraditoriamente, que se encontra seu valor e, se quiserem, utilidade. Sua inovação é não usar a linguagem finalista que sempre está atrás de um objetivo, mas uma linguagem em que os meios têm tanto valor quanto o resultado. Aliás, na literatura, o meio é o próprio resultado. E vem também daí a ideia de que as coisas da vida em que os meios coincidem com os fins são as mais prazerosas: esporte, oração, sexo, brincadeira – e arte.

Mas, em momentos de grande crise social como o que vivemos – e que se transformam também em crise pessoal – parece que essa conversa, tão convincente na teoria, perde um pouco seu alcance. Afinal, será mesmo que a literatura não pode fazer alguma coisa? Será que a força da linguagem literária, muitas vezes contestadora das convenções e padrões, não pode ajudar a desacomodar consciências?

Estou no processo de escrita de um novo romance, baseado na vida real de uma mulher russa sob o regime stalinista e, ao mesmo tempo, acabo de ler uma trilogia de romances de Ali Smith, chamados Outono, Inverno e Primavera, no aguardo do Verão, que ainda não foi escrito. São romances que se passam durante o drama do Brexit, todos protagonizados por estrangeiros residentes na Inglaterra atual. Esses livros foram escritos muito rapidamente, no intervalo de apenas dois anos, com a urgência dos acontecimentos e, suponho, também com a urgência de dizer alguma coisa sobre uma injustiça social que nós, aqui, no meio da tragédia brasileira, não podemos imaginar ser tão desastrosa e violenta.

Essa trilogia é uma forma de denúncia sim, mas o mais importante é que essa denúncia é feita por personagens vivos e vibrantes e num estilo fragmentado, associativo, numa espécie de colagem combinatória, em que elementos vão se ajustando aos poucos, no processo de progressão da leitura. Não se percebe um encadeamento causal entre os livros e, muitas vezes, nem mesmo dentro de cada romance. Mas a ficha vai caindo aos poucos e nos damos conta de como, na medida de uma linguagem cuidadosa e de uma estrutura romanesca sutil, tudo faz sentido. Pessoas e linguagens aos pedaços, restos de conversas, assuntos que saltam de forma frenética, ao lado de tempos mais longos e a percepção – cada vez mais escassa – de que há alguém ao seu lado e esse alguém pode carregar uma história linda e terrível que você desconhecia.

O que ressalta, sobretudo, nesses livros, é, apesar de toda a dor, a qualidade espantosa do humano em cada personagem, imperfeitos ou generosos que sejam.

Uma garota de treze anos aborda uma desconhecida numa estação de metrô, mostrando a ela um cartão postal da Escócia. Ela quer ir para lá. A mulher, sem nem saber por quê, larga o trabalho e a acompanha, numa viagem louca e, ao mesmo tempo, necessária para ambas. No mesmo dia, vai parar num outro país, com outras pessoas e línguas, viajando num furgão por estradas tortuosas, apertada contra um cineasta e uma mulher que canta canções antigas em gaélico. É aí também que o leitor vai parar, aturdido entre o que não entende e o que entende apenas pelas sensações. E tudo vai passando a fazer mais sentido.

É preciso viajar para longe, estar com quem não se conhece, ouvir o que não entendemos, largar algo importante. Nessas condições é que se pode experimentar o que é mais urgente para quem está sob a ameaça do autoritarismo ou da opressão: o humano das pessoas com quem partilhamos a vida. Minha pequena descoberta é essa: quero escrever o humano. A alegria de não saber de nada e querer só uma coisa: pessoas que encontram pessoas.

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Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falouÍrisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.

 

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