Poesia e Letargia

Kelvin Falcão Klein*

O romance Oblómov, de Ivan Gontcharóv, clássico russo de 1859, mostra a vida de um preguiçoso em crise: deitado em seu sofá, o protagonista se protege do mundo, mergulha na letargia e na imobilidade. O paradoxo é que Gontcharóv tira poesia da letargia e ainda consegue encher páginas e páginas comentando o vazio e o silêncio. Nisso, está próximo de Bartleby, o escrivão, de Herman Melville, clássico estadounidense de 1853, que mostra a vida de um funcionário subalterno que decide “não mais fazer”; e próximo também de Esperando Godot, a peça de Samuel Beckett que estreou em 1953, com Vladimir e Estragon dividindo o palco e trocando frases que beiram o desconexo durante dois atos (um crítico da época escreveu: “Nada acontece, duas vezes!”).

Para que esse paradoxo possa circular no romance de Gontcharóv é necessária uma geografia controlada, um espaço propício. Para Oblómov, é seu quarto, que suga todo desejo de movimento – como mostra o primeiro parágrafo da terceira parte do livro: “Oblómov foi para casa radiante. O sangue fervia, os olhos fulguravam. Parecia que até os cabelos estavam em chamas. Foi assim que ele entrou em seu quarto – e de repente aquela luz desapareceu e, num deslumbramento desagradável, os olhos se detiveram imobilizados num ponto: em sua poltrona”.

Com a distância de mais de cem anos, é possível observar a constelação literária da qual Oblómov faz parte: em primeiro lugar Akáki Akákievitch, personagem de O capote, de Gógol; em seguida, Bouvard e Pécuchet, a dupla atípica de Flaubert; por fim, é possível falar ainda de Simon Tanner, personagem de Robert Walser no romance Os irmãos Tanner, e dos anônimos subalternos da ficção de Kafka. Todos compartilham com o personagem de Gontcharóv uma postura ambivalente com relação ao mundo, à sociedade e às outras pessoas – eles parecem sempre se perguntar: o que estou fazendo aqui?

O procedimento de Gontcharóv é o de restringir o horizonte para que a lógica da vida (e da arte) seja desviada: não mais a progressão, mas a introspecção; não mais o fazer, mas o ser; não mais o ponto de chegada, mas o percurso. Gontcharóv marca essa geografia da restrição já na primeira frase de seu romance: “Na rua Gorókhovaia, num daqueles casarões cujo número de habitantes equivale à população de todo um povoado da zona rural, Iliá Ilitch Oblómov estava deitado na cama de seu quarto, pela manhã”.

Quanto mais se lê sobre o vazio e o silêncio de Oblómov, mais livros surgem – e novas perguntas vão, pouco a pouco, preenchendo o horizonte. Será que o recolhimento do protagonista é um desejo de retornar ao útero, em uma interpretação psicanalítica? Será que as incontáveis referências gastronômicas do romance fazem referência a essa nutrição primordial que não pode mais existir? Será a imobilidade de Oblómov a imobilidade de toda uma sociedade, presa a modelos sociais antiquados, antecipando o desejo por uma revolução que o novo século trará? Será esse “esvaziamento” da personalidade de Oblómov uma forma de Gontcharóv marcar a dívida da literatura russa também com a tradição oriental, e não só a ocidental? A Rússia, afinal de contas, é um ponto de passagem entre um lado e outro do mundo. É bem provável que o leitor, ao deitar em seu sofá para ler o romance, encontre mais perguntas e bem poucas respostas...

 

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Kelvin Falcão Klein é crítico literário, professor de literatura na UNIRIO e autor de Wilcock, ficção e arquivo (Ed. Papéis Selvagens, 2018). Escreve no blog Um Túnel no Fim da Luz.

 

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