Ana Martins Marques sobre seu novo livro, Risque esta palavra. Atravessado por alguns processos de despedida e luto (fim da vida, da infância, de um amor, do hábito de fumar, do poema), Risque esta palavra leva o leitor por uma viagem que busca pensar o tempo e suas muitas camadas e nomear as coisas a partir das “portas de saída”: daquilo que sobrevive, que resta. A mesa traz sua memória de árvore. Numa tradução, destaca-se não o que se perdeu, mas aquilo que precisou entrar graças ao imponderável do processo (um vulcão que não havia no original). De caráter especulativo, o livro de Ana Martins Marques nos mostra as palavras “enganchadas” nas coisas, multiplicando as formas de pensar os diversos processos que nos rodeiam. E, ao nomear tais processos de modo tão complexo, é como se eles fossem acentuados a ponto de trazer nuances que não estavam ali antes. E, então, percebemos, surpresos, que uma palavra tão forte como riscar (do título) – que sugere a ideia de rasura, apagamento – pode indicar outros sentidos: riscar um fósforo é acender, iluminar. Assim, “riscar uma palavra”, nesses poemas, pode ser também mostrar. A linguagem, o mundo, o tempo. Boa leitura!" />

Portas de saída: uma conversa com Ana Martins Marques

Marília Garcia

Nesta coluna, tive uma conversa por e-mail com a poeta Ana Martins Marques sobre seu novo livro, Risque esta palavra. Atravessado por alguns processos de despedida e luto (fim da vida, da infância, de um amor, do hábito de fumar, do poema), Risque esta palavra leva o leitor por uma viagem que busca pensar o tempo e suas muitas camadas e nomear as coisas a partir das “portas de saída”: daquilo que sobrevive, que resta. A mesa traz sua memória de árvore. Numa tradução, destaca-se não o que se perdeu, mas aquilo que precisou entrar graças ao imponderável do processo (um vulcão que não havia no original). De caráter especulativo, o livro de Ana Martins Marques nos mostra as palavras “enganchadas” nas coisas, multiplicando as formas de pensar os diversos processos que nos rodeiam. E, ao nomear tais processos de modo tão complexo, é como se eles fossem acentuados a ponto de trazer nuances que não estavam ali antes. E, então, percebemos, surpresos, que uma palavra tão forte como riscar (do título) – que sugere a ideia de rasura, apagamento – pode indicar outros sentidos: riscar um fósforo é acender, iluminar. Assim, “riscar uma palavra”, nesses poemas, pode ser também mostrar. A linguagem, o mundo, o tempo. Boa leitura!

Imagem por Mauro Figa

 

1) Ana, você poderia contar um pouco sobre o processo de escrita do Risque esta palavra

O Risque esta palavra sai após 6 anos da publicação d’O livro das semelhanças e, entre os dois, houve três outras publicações, mas de caráter um pouco singular: eram livros que, de uma forma ou de outra, nasceram de um projeto. Duas janelas surgiu de um convite da editora Luna Parque, e foi todo escrito num processo de diálogo com os poemas do Marcos Siscar, mesmo que esse diálogo nem sempre seja muito explícito. Do mesmo modo, Como se fosse a casa também se faz como uma espécie de correspondência com o poeta Eduardo Jorge. Nos dois casos, houve um processo de escrita com ou a partir das palavras do outro.

O caso d’O livro dos jardins é um pouco diferente: os poemas que integram o livro foram escritos em momentos distintos, alguns com vários anos de intervalo, mas giram todos de alguma forma em torno do tema do jardim, das plantas, do cultivo. Eles estão de algum modo “atados” (como o belo volume criado pela Sílvia Nastari, que é amarrado por uma linha vermelha) por um tema ou ideia geradora.

Risque esta palavra, ao contrário desses projetos anteriores, se aproxima mais da ideia de coletânea ou recolha de poemas esparsos. Ele reúne poemas que eu vim escrevendo por fora desses projetos, poemas inicialmente sem lugar que agora encontram abrigo nesse livro. No entanto, como todo mundo que já passou pelo processo de organizar um livro de poemas sabe bem, no momento de reunir poemas esparsos existe todo um processo de composição e arranjo, de certo modo uma nova escrita. Muitos dos poemas que agora integram o livro surgiram durante esse processo de montagem. As partes, com exceção da última, sobre parar de fumar, que é de algum modo mais temática, foram surgindo da convivência com os textos, e tenho a impressão de que os próprios poemas foram se modificando a partir da vizinhança, do contato e do atrito uns com os outros.

Uma coisa curiosa de um livro feito assim, sem um projeto prévio, é que você nunca sabe exatamente como vai ser o resultado, como, digamos, os poemas vão soar em conjunto. A verdade é que ainda não sei exatamente que livro eu escrevi.

 

2) Risque esta palavra começa com uma carta e o endereçamento se faz presente em vários momentos (como no imperativo do título, que convoca o leitor). Esta questão já estava presente em sua poesia, mas aqui tive a impressão de que o livro leva o leitor pela mão e reitera a interlocução. Você poderia falar um pouco sobre esse gesto dos poemas na direção do outro?

Interessante você chamar a atenção para isso, porque ultimamente tenho pensado bastante sobre essa questão do endereçamento na poesia.

A poesia lírica é tradicionalmente pensada a partir da centralidade do sujeito e da relação com uma interioridade, um “eu” – esta pessoa antes de tudo gramatical que no poema toma a palavra (e não por acaso também aí se deu um constante questionamento ou desestabilização desse “eu”). Mas me parece que é também central na poesia uma ideia de endereçamento. Os poemas encaminham-se, estão à procura de um “tu” ou de um “você” a que se endereçar, um “tu” ou um “você” que nem mesmo é necessariamente humano. Um dos poemas de amigo mais conhecidos é um poema de amor que se dirige não ao amante, mas às ondas do mar de Vigo. A polonesa Wislawa Symborska tem um poema que se dirige a uma pedra (um texto que eu retomo num dos poemas do Risque esta palavra, “Quatro pedras”). O poema da Symborska se chama “Conversa com a pedra” e, na tradução da Regina Przybycien, termina assim: “Bato à porta da pedra./ Sou eu, deixa-me entrar./Não tenho porta – diz a pedra”. Bater à porta do que não tem porta, bater à porta de alguém que não responde, ou ao menos que não responde numa língua que possamos entender, procurar visitar esses lugares sem porta, desconhecidos e ainda sem nome, parece uma tarefa que a poesia desde sempre se propõe.

Antes da sua pergunta, confesso que não tinha me dado conta da centralidade dessa questão da interlocução nesse novo livro, mas acho que, de fato, é possível tomá-la como uma chave de leitura. O livro tem, por exemplo, uma seção que se volta para a questão da língua, da linguagem, e essa dimensão da interlocução é fundamental para a linguagem, que é, antes de tudo, o nosso jeito de estar juntos (perguntar, responder, ouvir, entender, conversar, participar do mundo com outros seres). Essa seção, chamada “Noções de linguística”, tem muitos poemas que tratam, por exemplo, da tradução, e na tradução está em jogo essa espécie de travessia entre línguas, que é também um jeito de “atravessar” até o outro. A seção “Postais de parte alguma” usa desde o título a referência a um gênero textual do endereçamento, da correspondência.

É possível que essa atenção para o endereçamento tenha sido aguçada pelas experiências de escrita a dois, pelo processo de interlocução e correspondência com o Siscar e o Eduardo Jorge, embora desde o meu primeiro livro existam alguns poemas que trazem essa instância da interlocução ou mesmo se apropriam de tipos textuais como a carta ou o bilhete.

Tem um poema da primeira parte do Risque esta palavra cujos versos finais brincam com o fato de que a palavra “tu” está contida na palavra “tudo”, e que talvez possa funcionar como uma síntese da minha resposta: “tu estás/em tudo”.

 

3) Seu livro também trabalha com processos de despedida e luto: a morte (para além das mortes deste nosso tempo), o fim do amor, da infância, de um hábito (de fumar). Por outro lado, há um verso que diz: “Estava a morte por perto / e por isso a vida/ armou sua vingança”. Quando a morte se fortalece, também a vida ganha força. Assim como o “riscar” do começo do livro, que acaba ganhando outros sentidos: o apagamento sugerido (em “riscar a palavra”) se transforma em riscar um fósforo (= acender a palavra). Você poderia comentar esses processos e passagens presentes nos poemas?

Sem dúvida Risque esta palavra acabou sendo um livro muito atravessado pela questão da morte e pelo luto. Não foi um projeto, na verdade foi algo de que fui me dando conta aos poucos, à medida que arranjava os poemas no livro. Isso tem relação com perdas pessoais, perdas por que todos passamos, de forma naturalmente mais acentuada à medida que envelhecemos. Mas sem dúvida deve ter também relação com as perdas coletivas, com o momento de luto social que estamos vivendo, embora isso não seja tematizado diretamente no livro.

Apesar disso, eu gostaria que o livro não fosse apenas elegíaco, que ele tivesse também alguma alegria, alguma abertura, algo da força dos versos do Ungaretti que eu tomei como epígrafe para o poema que você cita: “a morte/ se expia/vivendo”. Por isso adorei essa sua percepção da dualidade do “riscar”, que serve no livro ao mesmo tempo para apagar e acender! Não tinha me dado conta disso, o que mostra o quanto o autor pode estar distraído em relação a seu próprio livro. E a imagem do fósforo que rapidamente se acende, inflama e apaga funciona bem, eu acho, para falar de um livro de poemas.

 

4) Junto com o Risque esta palavra está saindo uma nova edição de A vida submarina, seu primeiro livro. Selecionei um poema de cada (que podem ser lidos adiante): “História” e “A vida submarina”. Você poderia contar sobre o processo de escrita de cada um? Embora distintos, eles parecem abarcar muitas questões da sua poesia (por exemplo, temporalidades específicas, com os versos “Tenho quase trinta anos”, do primeiro livro, e “Tenho 39 anos” do último).

A vida submarina foi o primeiro livro que publiquei e está sendo relançado agora, 12 anos depois de sua primeira edição, em 2009. Na verdade, essa temporalidade é ainda mais complexa, porque esse livro, que eu lancei aos 32 anos, reúne poemas escritos ao longo de muito tempo.

Eu costumo pensar em mim mesma de um modo mais ou menos estável, como uma pessoa que muda relativamente pouco, e sempre tendi a pensar nos meus próprios livros também um pouco assim, mais na chave da continuidade do que da ruptura. Confesso, no entanto, que retomar A vida submarina para essa nova edição foi bastante surpreendente. Encontrei ali coisas de que não me lembrava, palavras que soavam estrangeiras. Foi um encontro estranho, como costumam ser as releituras (reler um livro é sempre reencontrar-se também um pouco com aquele que nós fomos na primeira vez que o lemos, o que talvez – mas não necessariamente! – seja mais acentuado na releitura de um livro próprio).

É tentador pensar nesses dois poemas – “A vida submarina”, que deu título ao meu primeiro livro, em que se diz “Tenho quase trinta anos”, e “História”, do Risque esta palavra, em que se diz “Tenho 39 anos”, ou seja, quase quarenta – como uma chave para entender o que mudou, como mudei, nesse período de pouco mais de uma década que separa um livro e outro, embora, se é uma chave de leitura, não sei ainda dizer o que ela revela.

Tentando, numa interpretação meio selvagem, pensar nos dois poemas, vejo que “A vida submarina” é um poema escrito sob o signo da profundidade e do segredo, da “vida marítima/que não vês/que não se pode contar”, enquanto em “História” a água que há é uma poça que reflete “uma imagem/ que viveu/ alguns segundos”. Talvez seja possível pensar que a história que se desenrola entre um poema e outro seja uma espécie de ascensão da profundidade à superfície? O que me parece interessante, relendo agora os dois poemas, é que tanto em “A vida submarina” se fala em “uma vida antiga, anterior a mim”, quanto em “História” se trata de captar os muitos tempos e histórias das coisas e mesmo das palavras. Quer dizer, se são poemas autobiográficos, são também poemas que mostram que a história de um sempre se entrelaça a outras histórias.

 

História

Tenho 39 anos.
Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos.
Meus seios têm cerca de 12 anos a menos.
Bem mais recentes são meus cabelos
e minhas unhas.
Pela manhã como um pão.
Ele tem uma história de 2 dias.
Ao sair do meu apartamento,
que tem cerca de 40 anos,
vestindo uma calça jeans de 4 anos
e uma camiseta de não mais que 3,
troco com meu vizinho
palavras de cerca de 800 anos
e piso sem querer numa poça
com 2 horas de história
desfazendo uma imagem
que viveu
alguns segundos.

 

A vida submarina

Eu precisava te dizer.
Tenho quase trinta anos
e uma vida marítima, que não vês,
que não se pode contar.
Começa assim: foi engendrada na espuma,
como uma Vênus ainda sem beleza,
sobre a apele nasciam os corais,
pele de baleia, calcária e dura.
Ou assim: a luz marítima trabalha lentamente,
os peixes começam a consumir por dentro
o sal do desejo,
estão habituados ao sal.
Quando vês, a água inundou os pulmões,
neles crescem algas íntimas,
os olhos voltam-se para dentro,
para o sono infinito do mar.
As mãos se movem num ritmo submerso,
os pensamentos guiam-se pela noite
do Oceano, uma noite maior que a noite.
Tenho quase trinta anos e uma vida antiga
anterior a mim.
Daí meu silêncio, daí meu alheamento,
daí minha recusa da promessa desse dia
que você me oferece,
esse dia que é como uma cama
que se oferece ao peixe
(você não haveria de querer
um peixe em sua cama).

Quem atribuiria ao mar
a culpa pela solidão dos corais
pelas vidas imperfeitas
dos peixes habituados ao abismo,
monstros quietos
só de sal e silêncio e sono?
Eu precisava te dizer,
enquanto as palavras ainda resistem,
antes de se tornarem moluscos
nas espinhas da noite,
antes de se perderem de vez
no esplendor da vida
submarina.

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

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