Presidente dos infernos

Claudio Angelo

O ano é 2022. Embalado pelas sugestões de banqueiros que dizem preferir votar no demônio a votar em Bolsonaro, Satanás resolve se candidatar a presidente. Tem meia-dúzia de conversas com marqueteiros, que de início temem que o Canhoto adote uma plataforma excessivamente à esquerda (depois concluem que tanto faz a plataforma, já que o Tinhoso por definição mentirá para o eleitor). Convoca líderes partidários e ganha sua fidelidade ameaçando cobrar antecipado os pactos de encruzilhada. Traz diretamente da Geena uma tropa de social medias e hackers russos, condenados à danação eterna por eleger Donald Trump. Organiza grupos focais. Noves fora o cheiro de enxofre, as quális são um sucesso: o Diabo, como sabemos, é um sedutor. Aluga uma legenda, o PSL (Partido do Senhor Lúcifer), e, confiante, mergulha na campanha.

A ascensão do Capiroto nas pesquisas é meteórica. O empresariado adere em peso à candidatura. “Paulo Guedes é Nutella! Esse cara aqui criou o neoliberalismo, meu!”, derrete-se à Jovem Pan um farialimer ilustre. Liberal também nos costumes, o Que-Diga encanta o campo progressista e o eleitorado jovem com a promessa de legalizar todas as drogas. Às mulheres, promete abaixar o preço da comida e mandar assediadores para o inferno. Os militares, que sempre estiveram com ele, fazem-lhe propaganda dentro dos quartéis.

A coordenação de campanha fica com medo da resistência do eleitorado evangélico. “Eles temem que o senhor vá destruir a família”, disse um marqueteiro. O Tisnado sorriu, estalou os dedos e vaporizou o assessor: será que o idiota não sabia que a monogamia havia sido inventada por ele? Os crentes estavam no papo. E, de fato, com meia-dúzia de memes bem calibrados em grupos de WhatsApp (“minha melhor invenção”, orgulhou-se o Arrenegado nas Páginas Amarelas da Veja), logo, logo 2.000 anos de crenças arraigadas estavam desfeitos. Alguns bispos chegavam mesmo a dizer nos cultos que Jesus havia tentado o Cão no deserto. O Caído também soube explorar suas conexões familiares: afinal, perguntava nas igrejas, para que votar num sujeito que se dizia enviado por Deus se eles podiam votar diretamente no filho mais velho do Altíssimo? Era o fim do capitão. O Capetão levou no primeiro turno.

Mas tomar o poder é uma coisa, exercê-lo é outra. No dia da posse, o Estadão lembrou em editorial que Mefisto chegava com pouca experiência administrativa, que o Brasil não era um inferno qualquer e que nem mil demônios dariam jeito no grau de fragmentação partidária do Congresso. E, de fato, o Azarape começou a ter dificuldades de implementar seu programa de governo. Não por impotência, mas por redundância.

O principal projeto do novo presidente, matar a população e espalhar o terror e o caos pelo país, havia sido largamente esvaziado pela administração anterior. Com mais de 1 milhão de mortos pela Covid e oito variantes letais criadas em território nacional, o Brasil de 2023 era o único país do mundo ainda assolado pela pandemia. Peste, o ministro da Saúde, passava os dias sem agenda, amaldiçoando o general Pazuello e lamentando o tempo em que ser cavaleiro do Apocalipse era coisa para um grupo seleto de três ou quatro.

O porte de arma irrestrito decretado por Bolsonaro no segundo semestre de 2021, após aprovar uma PEC que lhe deu maioria no STF, completava o serviço do vírus: qualquer briga de trânsito, ciumeira de marido ou picuinha entre irmãos agora terminava em tiro. Milícias e dissidências de milícias cometiam assassinatos a torto e a direito e, com o fim do rastreio de munições, não dava para saber mais a autoria dos crimes. Os sindicatos de policiais apareciam para audiências no Planalto, brandindo seus exemplares surrados de Hobbes, para reclamar ao presidente de que o Estado brasileiro abrira mão do monopólio do uso da força e eles ficaram sem emprego. Guerra, o ministro da Justiça e Segurança Pública, passou a ser visto com desconfortável frequência numa pousada hippie na Chapada dos Veadeiros.

Na Economia, o ministro Fome não ia muito melhor. Com 80% de inflação ao mês, dólar a R$ 15, dívida pública na estratosfera e Selic na casa dos 30% para tentar compensar a fuga de investidores, era preciso admitir: para um recalcado que sempre tivera desprezo dos pares e que só apoiou Bolsonaro porque ninguém que não fosse um sociopata toparia implementar suas ideias, o tal Chicago Boy havia feito um ótimo trabalho. Um dia, num acesso de fúria após uma tentativa frustrada de privatizar a praia de Ipanema, Fome quebrou o busto de Mises que adornava o gabinete e só não pediu demissão no ato porque um assessor, no desespero, lhe sugeriu baixar um congelamento de preços e ir à televisão prometer uma retomada em V. “Com o Guedes sempre funcionava.”

Com um mês e meio de governo, a Morte pediu demissão da Casa Civil e causou uma crise no Palácio.

Derrotado nas áreas duras do governo, o Cramulhão tentou dedicar seus esforços à área ambiental. Afinal, todos esses milênios gerindo o inferno lhe ensinaram que ambiente era tudo, e ninguém melhor para replicar a atmosfera das profundezas do que ele próprio. Com essa expertise, nem ousou nomear um novo ministro: manteve Ricardo Salles no cargo. “Quero fogo! Muito fogo!”, ordenou o Coisa-Ruim. “Trinta por cento do Pantanal queimado em 2020, 50% em 2021 e 70% em 2022, senhor. Amazônia 25% desmatada e agora fonte líquida de carbono para a atmosfera. Toda a porção leste em savanização acelerada, de Imperatriz a Santarém. Tudo em chamas de maio a novembro, todo ano”, recitou orgulhoso o ministro. O Coxo não acreditou no que ouvia. “E as terras indígenas?” – quis saber. “Odeio o termo ‘povos indígenas’!” “Resolvidas, chefe. E no seu melhor estilo: em 2021 aprovamos uma lei liberando a mineração em todas as terras indígenas e despejando dinheiro em associações de índios que nós mesmos criamos. Os bugres passaram a se matar entre eles e podemos dizer hoje que esses territórios estão livres para o desenvolvimento!” (Salles pensou em dizer “nem o senhor faria melhor”, mas não quis parecer arrogante.) O Tristonho parecia transtornado. Fez uma última tentativa: “Tá, Ricardo, mas e no Congresso? Não venha me dizer que a Carla Zambelli...” “...reeleita para o terceiro mandato na Comissão de Meio Ambiente, senhor! E o líder dos grileiros de Rondônia na vice.”

“Com mil eus!”, exclamou Satã. “Não sobrou nada pra mim! Nada! Olhe pra mim: eu tentei Eva! Eu presidi a danação eterna! Eu inventei a escravidão! Eu treinei Hitler, Stálin, Pol Pot! Eu criei o sertanejo universitário! Me elegi presidente para fazer deste país o inferno na Terra. E vocês, um bando de vermes desastrados eleitos num partideco de merda numa campanha de zap paga por um palhaço careca, fizeram em quatro anos coisas que eu e minha legião de demônios não fizemos em dois milênios. Como? Como? Que Deus carregue vocês todos!”, exclamou, literalmente cuspindo labaredas.

Com um estalar de dedos, o Mafarro desintegrou o ministro. Respirou fundo e sentou-se na cadeira, desolado, cofiando os chifres. E então teve uma ideia. Um brilho maligno iluminou seus olhos e um sorriso horripilante tomou conta de sua cara. Já sabia o que fazer. Ligou para seu chefe de gabinete.

“Belzebu!”

“Sim, meu senhor!”

“Liga pro CEO da Janssen. Bora comprar todo o estoque e vacinar geral.”

 

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Foto da coluna: Antonio Scorza / Shutterstock.com

 

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

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