Publicar e seus pavores

Luisa Geisler

Ilustração: Deco Farkas

 

Este mês sai ele, aquele, o famigerado, o esperado, aquele que me enche de medos, o Capilivro. O nome oficial é Enfim, capivaras e já fiz um post a respeito do livro antes dos estágios de publicação, logo que o terminei. Se você me segue em qualquer rede social, sabe que estou mais ansiosa que os leitores para o lançamento. Explico por quê. Antes de tudo, vou postar a sinopse oficial para que todo mundo esteja mais ou menos no mesmo pé. Ei-la:

“A cidade no interior de Minas Gerais para onde Vanessa se mudou é o tipo de lugar onde anunciam os horários do cinema e os obituários com o mesmo carro de som. Nada de muito interessante acontece por lá, a não ser para Binho, que, segundo ele mesmo, tem várias namoradas e conhece um monte de cantores sertanejos famosos.

A verdade é que Binho é um mentiroso contumaz e agora passou dos limites: inventou que tem uma capivara de estimação. Cansados das histórias cada vez mais mirabolantes do garoto, Vanessa se junta aos amigos — Léo, Nick e Zé Luís — para desmascará-lo. E eles estão decididos a ir até as últimas consequências.

Narrado durante as doze horas de uma noite regada a álcool, salgadinhos, segredos e romances mal resolvidos, Enfim, capivaras explora, através de diferentes pontos de vista, os relacionamentos entre um grupo de adolescentes em busca de uma capivara — ou muito mais do que isso.”

O ato de publicar, de tornar público, sempre foi a parte mais difícil da escrita para mim. Mas depois de um livro de contos e três romances, eu já tinha uma noção. Estou ansiosa porque é meu primeiro livro young adult, o que quer que o gênero/recorte comercial queira dizer. Como já comentei, não pensei o livro tipo: “hum, bom dia, sol, bom dia lua, vou escrever um young adult”. Eu pensei num livro e me dei conta de que ele tinha um público e recorte específicos. É assim que penso todos os meus livros e com esse, não seria diferente. Acontece que eu tenho uma sensação de que conheço quem me lê, quem gosta ou desgosta do que eu faço. Não é uma noção perfeita, e volta e meia erro um pouco, mas… é uma noção. Mas agora, quem vai ler o Enfim, capivaras? São jovens? São adultos? Quem é um young adult? De onde ele vem? Do que ele se alimenta? Do que ele gosta? Será que cidades no interior de Minas Gerais com carros de som que anunciam obituários e horário do cinema agradam este público?

Estou nervosa. Queria poder dizer que estou animada, que quero saber o que todo mundo acha. Mas esses dias uma amiga postou que tinha terminado o livro e tinha “muito sentimentos”, e eu quase morri. Ela precisou mandar um e-mail explicando que tinham sido sentimentos positivos.

É fácil para um escritor assumir a postura de “Esta é minha obra-prima. Ela é genial e se você não gostou, é porque não entendeu, portanto é burro. Logo, sua opinião não é válida.” Mas vou contar um segredinho: é melhor se as pessoas gostarem dos livros. Outro segredinho: ninguém é obrigado a ler o que você escreve. Com meus últimos livros — em especial com o De espaços abandonados —, eu precisei de uma dose dessa confiança, porque o livro tem traços de hermetismo. Eu precisei confiar que o leitor entenderia, confiar de que ele me encontraria no meio do caminha. É claro que, de novo, eu conhecia o leitor e público. Até o momento, vingou bem: o De espaços abandonados ganhou um Prêmio Açorianos de Narrativa Longa, que é um prêmio importante ao menos no Rio Grande do Sul, que é a capital do universo.

Por outro lado, do Luzes de emergência se acenderão automaticamente, meu segundo romance, as pessoas gostam. Por que elas gostam? Eu não sei. Elas gostam do livro. Quando alguém nunca leu nada meu, sempre recomendo começar pelo Luzes. As pessoas gostam, e eu não saberia repetir o fenômeno se precisasse. E quando você quer viver como “escritor” (muitas aspas), esse é um sentimento apavorante. Porque se você é um atleta e não sabe por que chegou a primeiro, segundo ou terceiro lugar, como você pode pensar no seu treino futuro? Pessoalmente, também tenho medo de nunca mais ter nenhuma ideia na vida. Cada vez que tenho uma, acendo velas em um altar imaginário a todos os deuses. Ao escritor, só lhe resta tentar o seu melhor, constantemente. E torcer. Torcer como o Maracanã inteiro numa final de campeonato que precisou ir para os pênaltis.

O Capilivro sai essa semana. Eu estou apavorada. O lançamento em Porto Alegre será dia 22. E eu estou apavorada. E se ninguém ler o livro? E se todo mundo ler, mas odiar? E se minha carreira acabar? Capivaras merecem bons livros. Positive representation matters. Mais do que nunca, pela maior vez da minha vida, eu espero que gostem.

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Bate-papo da autora com Samir Machado de Machado e mediação de Tobias Carvalho + sessão de autógrafos 

Sábado, 22 de junho, das 17h às 20h

Livraria Baleia (Rua Coronel Fernando Machado, 85 - Centro Histórico de Porto Alegre - Porto Alegre, RS)

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Luisa Geisler nasceu em 1991, em Canoas, Rio Grande do Sul. É escritora e tradutora. Autora de Luzes de emergência se acenderão automaticamente (Alfagura, 2014), De espaços abandonados (Alfagura, 2018) e Enfim, capivaras (Editora Seguinte, 2019), foi duas vezes vencedoras do Prêmio Sesc de Literatura, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti. É mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

 

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