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Quadrinhos, aquele bico da literatura

Érico Assis

 

Literatura, aquela senhorita de tailleur e xale, chega em casa depois de um dia no batente. Ela contou um épico de família que atravessa a história do México do século 19 até hoje, ela investigou o sinistro assassinato de um sonoplasta sem usar o fonema [s], ela fez Lia conhecer Naciele que conheceu Luca que conheceu Yuri que conheceu Alê (antes Alessandro) e ela acompanhou um jovem de 37 anos questionando as obrigações da maturidade enquanto aguarda a herança. É por isso que Literatura ganha seus mil e quinhentos mais vale-refeição.

Literatura está cansada, mas o dia não acabou. Os mil e quinhentos só fecham o aluguel. Ela dispensa o tailleur, veste um moletom do namorado, serve a Coca Zero mais uma cumbuca de Doritos e engata o terceiro turno. Literatura vai desenhar quadrinhos.

* * *

Essa é a imagem troncha que eu tirei de “Comics are literature’s fun side-hustle”, chamada em um anúncio da WebToon que circulou na internet na terceira semana de junho. “Quadrinhos são o bico que a literatura pega pra se divertir” ou “Quadrinhos são aquele serviço por fora que a literatura faz por curtição”. Eles não estão falando de autores, mas da Literatura, aquela moça trabalhadora.

O anúncio é ilustrado com imagens de Lore Olympus, de Rachel Smythe, a webtoon de maior acesso da WebToon. A WebToon é uma plataforma de histórias em quadrinhos para ler na web. A empresa coreana começou a chamar seus quadrinhos de… webtoons e o nome pegou. Eles são feitos para o scroll vertical, às vezes com um toque de animação.

No momento, são os quadrinhos mais lidos no mundo.

Lore Olympus, por exemplo, tem 5,8 milhões de assinantes que recebem um aviso de novo episódio por semana; deve virar anime. True Beauty, de Yaongyi – que virou dorama – tem mais de 7 milhões de seguidoras. As duas webtoons estão perto do bilhão de views e não são as únicas com estes números na plataforma. Há muitas séries com sete dígitos de assinantes e nove dígitos de acessos.

A campanha publicitária da WebToon apareceu no metrô de Nova York no início de junho, tomando conta de uma estação em Williamsburg, na linha L – “conhecida como parada mais hipster de Nova York”, segundo o site The Beate rendeu fotos nas redes. (Também há imagens em um trem de Chicago.)

Quem acompanha um pouco de quadrinho sabe: ninguém investe em campanha publicitária dessas proporções para divulgar HQ. Não nos Estados Unidos, onde só o aluguel de espaço publicitário como este passa facilmente dos US$ 100 mil (o Beat aposta em 500 mil).

Os anúncios têm outras chamadas, que destacam como as webtoons viciam – “A gente praticamente inventou o doomscrolling e “Opa, nove da noite virou três da manhã! De novo!” – e que muitas estão a caminho de virar audiovisual – “Sua plataforma de streaming nos ama” ou o slogan “Webtoon: somos a história antes do streaming”.

Embora todas sejam discutíveis, a chamada que virou mais que uma discussão, mas legítima polêmica-de-internet foi “Comics are literature’s fun side-hustle”, o dos quadrinhos como “biscate legal” da literatura. Que era para ser um jeito hipster de dizer ao público-alvo “imagine você lendo (eca), mas lendo e curtindo”.

Vamos ignorar, só até o fim deste texto, que literatura é o bico da maioria dos escritores do planeta. Ok? Ok. Deixando isso de lado, a agência de publicidade e a WebToon esqueceram que quadrinho também é trabalho. E que quadrinho trabalho.

“‘Bico’ o meu CU”, sintetizou Kennedy Homan, autora de Andy Bass (172 mil assinantes, 10 milhões de views), em um tuíte. Ela explicou em seguida: “Eu trabalho BEM mais do que dá pra considerar turno integral, todas as semanas, assim como 99,9% dos autores [de WebToons]. Ontem eu trabalhei mais de 12 horas só no traço de meio capítulo. Não entendo esse posicionamento.”

“Eu não trabalho 60+ horas por semana num quadrinho onde boto toda minha alma pra chamar de ‘bico’”, disse 66, outro autor de webtoon: City of Blank (600 mil assinantes, 30 milhões de views). “Quem sabe vocês respeitam quem cumpre a JORNADA EXAUSTIVA e OS PRAZOS HORRÍVEIS que vocês cobram, hein?”, perguntou Dianarina, que se identifica como assistente e co-autora de webtoons. Tem mais centenas de reações em #notasidehustle (ou #nãoébico).

A WebToon pediu desculpas. “Queremos que o mundo saiba que quadrinhos são para todo mundo. Que quem ama grandes histórias, no formato que for, também vai amar nossos quadrinhos. Nossa publicidade errou o alvo. Vivemos e respiramos quadrinhos todo dia. Eles não são um bico, nem segunda opção, nem ficam em segundo plano. Vivemos por eles.”

Mais de um post da revolta tentou “consertar” o anúncio, interrompendo a chamada em “Comics are literature’s fun side-hustle.” O que já rendeu outra discussão: quadrinhos são literatura?

Sou da opinião que quadrinho é quadrinho, literatura é literatura, cinema é cinema, teatro é teatro e que, apesar de nada ser estanque e de uma coisa ter enorme influência sobre a outra e uma interpenetrar a outra, há jeitos diferentes de contar histórias em cada formato, há histórico e cultura em torno de cada mídia e…

E essa é uma discussão teórica, longa e para outro momento. O que a chamada cagada da WebToon faz, além de rebaixar trabalho duro, é reforçar estereótipos de que existe só determinados tipos de quadrinhos, os “divertidos”, que a literatura nunca é divertida e, como apontou minha antiga editora neste Blog, Diana Passy, “que narrativas de entretenimento são mais fáceis de criar do que narrativas ‘sérias’”. A analogia troncha também reforça a ideia de que existem “níveis” entre os formatos, e que a literatura seria mais (séria?) ou menos (divertida?) que os quadrinhos.

É uma chamada publicitária. Que, tal como a foto de hambúrguer do McDonald’s, você não pode tratar como fato. Está ali para seduzir, maquia a realidade para você comprar um sonho. A gente já sabe ou devia saber disso quando lida com publicidade. O problema surge quando você chama os sonhos dos outros de “bico”.

* * *

Literatura, vestindo o moletom, abastecida de Coca Zero e Doritos, conta épicos de família, investiga homicídio em narrativa experimental, faz menines conhecerem menines e acompanha drama existencial de branco rico. Faz tudo isso desenhando, pintando e usando as mesmas palavrinhas do emprego diurno. Literatura, vestida de Quadrinho, só está contando histórias de outro jeito.

E esse “bico”… era para ser divertido?

Literatura, vestida de Quadrinho, também se questiona quando é que a realidade ficou tão horrível que até a publicidade diz que ter um bico pra dar conta dos boletos é “fun”.

Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o Blog com textos sobre histórias em quadrinhos. É autor de Balões de Pensamento (Balão Editorial), uma coletânea de textos lançados aqui no Blog. Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Minha coisa favorita é monstro e Sapienshttp://ericoassis.com.br/

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