Quadrinhos demais, o sumiço da classe média e o monstro da arte

Érico Assis

 

Já falei várias vezes e sempre vou repetir que Scott McCloud mudou minha vida. Eu não estaria escrevendo sobre quadrinhos há vinte anos, fechando 175 colunas neste Blog, traduzindo gibi, quem sabe sequer lendo gibi se Desvendando os Quadrinhos não tivesse caído nas minhas mãos numa Feira do Livro de 1990 e bolinha. Quase toda a minha vida, sobretudo a profissional, veio de ler e reler aquele livro.

É por isso que eu fui uma das poucas pessoas que assistiu a esta conversa de quase três horas entre Tio McCloud e Brian Hibbs, dono da loja Comix Experience em San Francisco. Poucas mesmo: no momento, o vídeo tem menos de 250 views.

A conversa dá quase um livro novo do tio – que está com 60 anos e de cabelinhos totalmente brancos, uma evolução dos sideburns que ele se deu nas continuações de Desvendando. O Tio inclusive comenta que tem o livro novo, a elucubração sobre comunicação visual que ele começou há anos e não tem data pra acabar. Não vai ser só sobre quadrinhos. Mas o papo daria um livro novo só sobre quadrinhos (e um pouquinho de autobiografia, que eu não conhecia).

A mais de duas horas de entrevista, Tio e entrevistador engatam um papo sobre, digamos, a “cauda longa” dos quadrinhos. Sobre como a oferta de HQ está num nível tremendo, nunca antes visto. Considere você só o material de livraria, só o material de banca ou de comic shop, considere você só o que existe digital ou mesmo se você analisar cada mercado/país, está sobrando quadrinho. Há muita produção de gibi nos EUA, no Brasil, na França, na Coreia do Sul, no Japão, na Itália. Muita.

O que é bom, né?

Pois a discussão foi justamente sobre esta pergunta. Talvez não seja bom.

McCloud e Hibbs, na verdade, não falam em “cauda longa”. Falam em gráficos de “taco de hóquei”, que são quase a mesma coisa. Pense num taco deitado, como o do Snoopy ali em cima, com o pé para cima. Nos gráficos com vendas de títulos de quadrinhos, um número minúsculo de mega sucessos ocupa a parte alta e curta do pé; depois temos uma rampa, com uma queda violenta e brusca, e a perna comprida do taco que fica quase rente ao chão, perto do zero. A perna representa a infinidade de gibis cujas vendas se aproximam de zero.

Isso deve valer para qualquer mercado cultural de hoje: meia dúzia de hits, uma “classe média” encolhida e milhões de produtinhos que vendem quase nada. Ou não vendem nada.

“Temos mais diversidade de conteúdo e temos mais gente fazendo quadrinho”, diz McCloud, falando com toda clareza sobre o estágio atual. “Eu não sei dizer se tem menos gente vivendo, bem ou mal, de fazer quadrinho. Mas o certo é que tem muita gente que está fazendo e não está ganhando nada com quadrinho.”

Quem está no alto do taco de hóquei? Raina Telgemeier e Dav Pilkey, estrelas do mercado editorial americano não só pros quadrinhos. Telgemeier já vendeu mais de 20 milhões entre seus cinco livros (Sorria, Coragem, Irmãs, Drama, Ghosts), Pilkey vendeu mais de 30 milhões só de Homem-Cão. “O alto do taco anda bem alto”, diz McCloud.

Telgemeier vira até motivo de discussão no vídeo. Hibbs acha que ela cria expectativas falsas entre a multidão que se mete a ser quadrinista. Já McCloud acha que existem outras “Rainas” por aí: ele contrapõe que Allie Brosh, Marjane Satrapi e Alison Bechdel venderam muito por motivos totalmente diferentes, de modo que não há um modelo só a seguir.

O fato, contudo, é que tem pouca gente lá no alto. Tem muuuita gente perto do zero. E o espaço entre os poucos e os muitos é curtinho, como é curtinho o pé do taco de hóquei. A classe média dos quadrinhos, nem milionária nem zerada, dos que se sustentam bem de fazer HQ aos que quase não se sustentam, é curta.

É o que eu tenho ouvido há alguns anos nas reclamações dos quadrinistas franco-belgas. Na última década, uma das pautas entre os autores de lá é de que há quadrinho demais nas livrarias, as vendas se pulverizaram e você passa um ano produzindo um álbum que rende menos do que um ano trabalhando no McDonald’s. Pelas contas deles, a renda de grande parte dos quadrinistas de lá está abaixo da linha da pobreza.

Asterix vende milhões. Árabe do Futuro vende centenas de milhares. Mas os outros cinco mil quadrinhos que chegam na livraria franco-belga todo ano vendem seus dois, três, cinco mil. No reparte das vendas, o autor – ou autores – não superam seu adiantamento. Quando há adiantamento.

 

Scott McCloud no "December 2020 Masterpiece Selection - UNDERSTANDING COMICS by Scott McCloud!", do canal Comix Experience

 

Coincidiu que minha leitura desta virada de ano teve tudo a ver com isso, apesar de ser um livro que mal toca em quadrinhos. The Death of the Artist, de William Deresiewicz, não traz exatamente uma novidade, só documenta o que já está patente: é difícil, cada vez mais difícil, viver de arte.

Arte num sentido bem amplo, sobretudo a dita “arte comercial”. Mesmo num mercado grande como o dos EUA, com alta demanda por roteiristas de audiovisual, artistas visuais, escritores profissionais, atores, músicos etc., o dinheiro está em poucas mega produções ou pulverizado entre as pequenas. A distribuição via digital (Spotify, Netflix, YouTube etc.) concentra a renda em poucos canais/portais grandes e também cria tacos de hóquei.

O que os franceses e Deresiewicz propõe? Um reparte melhor entre editoras/canais de distribuição e artistas. Mais apoio estatal ao artista. Mecanismos para evitar concentração. Quem sabe público mais acostumado a pagar direto ao artista, em micromecenatos ou crowdfundings. Não para os artistas virarem milionários; para se ter artistas classe média, que se sustentem com o que fazem. É o que o modelo atual está estrangulando.

É muito bom que qualquer pessoa possa fazer e publicar quadrinho. Quanto mais gente produzindo, mais diversidade, mais temas, mais nichos de público que nunca se atingiu. O problema é que as contas não fecham. Existe um manancial limitado de leitores e, se cada leitor comprar só dentro do seu nicho, nenhum destes nichos vai chegar a patamar de vendas que sustente quem fez o quadrinho nichado. Este também é o motivo pelo qual o quadrinho impresso tem tiragens menores e preços de capa mais altos – e ainda assim a conta não fecha. Já no quadrinho digital, onde não há tiragem, a oferta é tão gigantesca que o investimento do público pagante se pulveriza demais. Isso, é claro, quando alguém paga por quadrinho digital.

Essa é a frente de ataque de Hibbs contra McCloud: não seria melhor se tivesse menos quadrinhos? Talvez com mais seleção da parte das editoras, linhas menores, mais gatekeepers? Menos oferta, no geral? E se esse contingente de leitores que nunca cresce tivesse menos opções para investir seu dinheirinho e desse mais grana para cada gibi?

Aí que Tio McCloud, contrariando o próprio sobrenome nublado, nos desanuvia.

“É a dúvida eterna”, diz o Tio. “A saída, pra mim, não é a da escassez artificial (porque é isso que seria, escassez artificial). Tem mais a ver com a experiência de leitura. Em outras palavras, se a experiência de leitura for melhor em todos os aspectos. Se o leitor curtisse mais cada quadro e pagasse menos por minuto (e isso é elementar, porque estamos nos comparando a videogames, a filmes, a maratonar o último seriado da Netflix), haveria um número de leitores suficiente para sustentar muitos desses artistas.”

Hibbs não se convenceu. Eu quero concordar com o Tio: que o problema é qualitativo e não quantitativo; que não há excesso de oferta, mas falta de empolgação com a maior parte do que a gente lê. Ao mesmo tempo, acho que a proporção de porcaria/qualidade é sempre a mesma, e que a maior produção de quadrinhos renderia mais quadrinhos bons. Nessa crença do tio McCloud, cresceria o número de leitores.

Mas é, como ele diz, “a dúvida eterna”.

Tem mais discussão sobre gatekeepers, sobre portais, sobre concentração, sobre como o Tio McCloud pensou que ia mudar a economia mundial apostando nos micropagamentos. São três horas de papo. Três horas ótimas.

A duas horas e quarenta e dois minutos e quarenta segundos, McCloud e Hibbs concordam num meio termo: “Agora, puxando o fantasma do Will Eisner: ‘sempre tem alguma coisa tentando acabar com a arte.’ Sempre. E eu acho que esse monstro não anda tão bom em acabar com a arte como já foi.”

 

 

***

Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o Blog com textos sobre histórias em quadrinhos. É autor de Balões de Pensamento (Balão Editorial), uma coletânea de textos lançados aqui no Blog. Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Minha coisa favorita é monstro e Sapienshttp://ericoassis.com.br/

 

Neste post
Acesse a Letrinhas nas redes sociais