Que parte de “f*deu, galera!” vocês ainda não entenderam?

Claudio Angelo

 

Em 2004, fui admoestado pelo ombudsman do jornal em que trabalhava por conta de uma reportagem que editei sobre ondas de calor na Europa. O texto falava de um estudo segundo o qual ondas de calor como a que matara mais de 30 mil pessoas no continente em 2003 ficariam mais longas e mais frequentes em 2080. O Ombudsman, um jornalista admirável, mas sem nenhum conhecimento de ciência, dizia ser irresponsável publicar um vaticínio daqueles: “Quem vai dar a errata daqui a 80 anos?”

Nem precisou esperar tanto tempo. Na segunda quinzena de junho de 2019, o Velho Continente foi apanhado por uma onda de calor recorde pelo terceiro ano consecutivo. Cientistas do Instituto de Pesquisa de Impactos Climáticos de Potsdam, na Alemanha (país no qual este junho foi o mais quente em 70 anos), publicaram uma avaliação segundo a qual esses eventos climáticos extremos estão hoje cinco vezes mais frequentes do que estariam na ausência de aquecimento global. Todos os cinco verões europeus mais quentes desde o ano em que Cabral aportou em Porto Seguro ocorreram neste século. Meu ex-colega de redação estava certo, mas pelo motivo errado: a previsão não se concretizou em 80 anos, mas em menos de 15.

Em 2017, um jovem jornalista nova-iorquino chamado David Wallace-Wells também levou pancada por uma reportagem que escreveu sobre mudança climática. Publicada sob o título nada sutil de "The Uninhabitable Earth" (“A terra inabitável”) na capa da New York Magazine, a matéria dizia que o aquecimento global era muito mais sério do que o debate público sobre o tema fazia supor. Na real, devido a efeitos de retroalimentação climática que apenas começavam a ser entendidos pela ciência, o esquentamento da Terra causaria nada menos do que a extinção dos seres humanos nas próximas décadas.

A reportagem foi amplamente vilipendiada – não pelo lobby da indústria fóssil ou pela Casa Branca de Donald Trump, mas, incrivelmente, por cientistas do clima. O climatólogo Michael Mann, da Universidade da Pensilvânia, disse que a abordagem “alarmista” de Wallace-Wells não ajudava a engajar o público e que as alegações extraordinárias apresentadas pelo repórter careciam de suporte por evidências igualmente extraordinárias. Mann, ironicamente, já havia sido ele próprio acusado de alarmismo no começo dos anos 2000, quando publicou um gráfico hoje clássico conhecido como “taco de hóquei”, segundo o qual o aquecimento atual não tem precedentes em mais de mil anos. O cientista chegou a sofrer ameaça de morte.

Wallace-Wells não apenas não recuou diante das críticas como ampliou sua reportagem. A terra inabitável virou livro – 376 páginas do puro creme do alarmismo climático. É um grito sem meias-palavras sobre o tamanho da crise, que agarra o leitor pelo colarinho e o esbofeteia na cara. Um libelo cujo tom orgulhosamente apocalíptico talvez seja a única maneira de as pessoas entenderem o recado dado logo na primeira linha: “É pior, muito pior do que você imagina”.

O autor esclarece de saída que é pouco provável que o planeta inteiro se torne proibitivo à vida humana. Para isso acontecer, seria necessário um aquecimento global de 8oC, algo que, embora não possa ser descartado pela ciência, tampouco assoma na lista das possibilidades reais, já que as transformações que o planeta sofreria antes de chegar lá seriam tão radicais que a humanidade não teria como não reagir a elas.

O problema, diz Wallace-Wells, é justamente o amplo leque de pesadelos que começa a se abrir para o Homo sapiens entre o 1oC de aquecimento que já causamos e os 4oC ou 5oC que nos aguardam nas próximas décadas caso não haja uma transformação igualmente radical das políticas de combate às emissões  de carbono e de adaptação aos impactos que já são inevitáveis. Com 4oC, vastas porções do globo, em especial nos países pobres, já se tornariam inabitáveis em alguns períodos do ano. Como as metas atuais dos países no acordo do clima de Paris nos levariam a um aquecimento de 3,2oC neste século – e nem essas metas estão garantidas, como nos mostraram as eleições de Donald Trump e Jair Bolsonaro – o título do livro se justifica plenamente.

Entre o artigo original, publicado em julho de 2017, e o livro, uma sequência alucinante de tragédias climáticas reforçou o argumento do autor: apenas dois meses depois da capa controversa, em setembro de 2017, tivemos a pior temporada de furacões já registrada no Atlântico Norte. No mesmo ano, incêndios florestais varreram Portugal e riscaram do mapa uma cidade inteira do Canadá, antes de devastarem parte da Califórnia, enquanto enchentes atingiram 45 milhões de pessoas na Ásia. No ano seguinte, o hemisfério Norte bateu vários recordes de calor – inclusive a temperatura mínima mais alta já verificada, 42oC à noite em Omã –, o Círculo Ártico queimou e novamente a Califórnia, no incêndio florestal mais devastador de sua história. Cientistas do clima têm se referido a esses extremos mais frequentes como o “novo normal”. Wallace-Wells chama de outra coisa: “Isto é o fim do normal; nunca mais o normal. [...] O sistema climático sob o qual fomos criados, assim como foi criado tudo que entendemos hoje por cultura humana e civilização, agora está, como o pai ou a mãe de alguém, morto”.

A primeira e mais deprimente parte do livro é dedicada ao que o jornalista chama de “os doze elementos do caos”, ou os efeitos do clima alterado que já estão entre nós e que tendem a se intensificar nas próximas décadas. Eles vão desde a explosão de doenças transmitidas por insetos até as projeções assustadoras da ONU de 200 milhões de refugiados climáticos no mundo em 2050 – o autor lembra que a crise migratória atual, que levou ao ressurgimento do fascismo na Europa, resultou de “apenas” 1 milhão de refugiados sírios, despejados de seu país pela guerra civil cujo fermento foi uma seca recorde.

Mas há problemas menos conhecidos e altamente desesperadores, como o efeito do calor em reduzir o teor nutricional dos vegetais. O CO2 em excesso, apontam alguns estudos, tem o efeito de fazer as plantas crescerem mais e mais depressa, mas elas apenas aumentam sua biomassa – fixam carboidratos, enquanto proteínas, vitaminas e minerais são diluídos. Desde 1950, conta Wallace-Wells, o teor de nutrientes das plantas que comemos já declinou em um terço. Somado a perdas agrícolas induzidas por mudanças de clima nas grandes regiões produtoras, esse fator tende a ampliar a “insegurança alimentar”, um eufemismo bonitinho para dizer que milhões de pobres morrerão de fome.

Um mérito de A terra inabitável, e uma vantagem em seu autor ser jornalista e não climatólogo, é escapar da falaciosa armadilha da atribuição. Trata-se de um loop cognitivo no qual a comunidade científica se encontra aprisionada desde 1995, quando o IPCC (o painel do clima da ONU) detectou uma “influência discernível” dos humanos no clima e abriu uma crise com os lobbies fósseis que quase levou à sua desarticulação. Os cientistas do clima vêm desde então demonstrando um verdadeiro fetiche com saber se um dado evento extremo é consequência do aquecimento induzido por humanos ou se faz parte da proverbial “variabilidade natural do sistema climático”. Tiveram boas razões para isso: não faz bem para as credenciais acadêmicas de ninguém ganhar a pecha de “militante” ou “doomsday scientist” (“cientista do fim do mundo”), ainda mais num contexto altamente policiado e polarizado como foi e ainda é o da academia nos países anglo-saxões, onde a maior parte da ciência do clima é feita.

Do ponto de vista da comunicação com a sociedade, porém a armadilha da atribuição foi a ruína da comunidade científica – e, por extensão, da raça humana, já que os cientistas eram as sentinelas da Muralha de Gelo e só eles estavam em posição de ver os Caminhantes Brancos a tempo. Como estabelecer, por exemplo, se uma seca de seis anos no Nordeste do Brasil é “natural”? Como detectar, atribuir e comunicar prolongamentos de fenômenos cíclicos? Afinal, como os próprios cientistas já sabiam, quando o sinal da mudança climática fosse detectável em meio ao ruído do clima naturalmente variável com a confiança estatística capaz de satisfazer 196 governos, tarefa inglória do IPCC, seria provavelmente tarde demais para reverter seus efeitos. E foi.

Citando James Hansen, o pioneiro climatólogo americano, Wallace-Wells se refere ao excesso de cautela dos acadêmicos como “reticência científica”, e dá o troco em seus críticos da academia: “normalmente não escutamos especialistas em saúde pública comentando sobre a necessidade de circunspecção ao descrever os riscos dos carcinogênicos”.

Ele contorna a armadilha da atribuição com um raciocínio simples que um cientista dificilmente se permitiria: para qualquer propósito prático, o debate sobre causas é inútil. “Vivemos todos sob o clima e sob todas as mudanças que produzimos nele e que englobam a nós todos e a tudo que fazemos. Se a probabilidade de furacões com certa força hoje é cinco vezes maior do que no Caribe pré-colombiano, é simplório, quase trivial, discutir se esse ou aquele foi ‘causado pelo clima’. Todos os furacões hoje são desencadeados nos sistemas climáticos que arruinamos a seu favor”, escreve. Talvez um jeito de pensar sobre a “culpa” seja criar outra categoria, a variabilidade climática não-natural. Com 1oC de aquecimento, tudo tem influência do carbono.

Longe de ser um inventário de desgraças, o livro também busca fazer uma reflexão sobre o que significa para a psique humana e para a ética na sociedade o fato de contemplarmos nossa extinção e de, até agora, estarmos escolhendo ir ao encontro dela. No capítulo dedicado à “ética no fim do mundo”, talvez o mais esquecível do livro, Wallace-Wells mergulha no mundo bizarro do milenarismo climático, dos super-ricos que tentam se proteger do apocalipse em bunkers na Nova Zelândia e das seitas ecologistas que pregam a renúncia total ao mundo – ou uma revolução sangrenta descarbonizante. Para o leitor brasileiro, poderá soar um pouco como “problemas de gente rica”.

A possibilidade de aniquilação total da humanidade já foi levantada antes, claro, com as armas atômicas. A diferença no caso da mudança climática é que ninguém tem uma bomba H em casa, mas cada ser humano tem uma relação íntima com a arma de destruição em massa carbônica: ninguém deseja a crise do clima, mas tampouco deseja abrir mão do estilo de vida que a provoca. É frequente na narrativa de Wallace-Wells uma crítica ao otimismo tecnológico, a reação dos propagandistas do capitalismo de dizer que a tecnologia nos salvará sem que precisemos fazer nenhum sacrifício – como se a solução para o que talvez seja a mais grave crise colateral do capitalismo fosse mais capitalismo, sem nenhuma mudança associada.

A crise do clima, aponta o autor, também mexe com as próprias narrativas da humanidade. Ela bagunça o mundo da ficção, já que quebra a lógica dos romances de heróis e vilões ou da “vingança da natureza”; a responsabilidade moral por ela é “obscura”, afirma, o que dilui o drama e, de certa forma, retira o caráter heroico da busca por soluções. Por fim, ameaça até mesmo as formas populares de escapismo, como a obsessão por filmes de apocalipse zumbi (já que o apocalipse estará acontecendo em tempo real) e a ferramenta por excelência da cultura ocidental para prever o futuro, a ficção científica. “Por que ler sobre um mundo que você pode ver perfeitamente na janela?”, questiona.

Ao derrubar nossas narrativas, o caos climático acaba, ele mesmo, se constituindo em uma: afinal, se o problema está literalmente no ar que respiramos, tudo na Terra será tocado e moldado por ele de um jeito ou de outro: da agricultura aos transportes, as migrações, os negócios e a saúde mental. São reais os casos de depressão entre cientistas e de apreensão entre pais que não sabem como abordar com os filhos o fato de que eles podem não ter um futuro – esta, aliás, foi a conclusão à qual chegou uma menina sueca de 15 anos chamada Greta Thunberg: ela concluiu que era inútil ir à escola se não teria um futuro e passou a fazer greves solitárias pelo clima, que viraram um movimento global . A mudança do clima, pondera Wallace-Wells, acabará se revelando “um sistema de conhecimento tão total quanto a ‘modernidade’”. O que não chega a ser uma honraria para seus mais de 7 bilhões de perpetradores e vítimas.

A quem o chama de alarmista, o americano aquiesce: é exatamente isso. Mas lembra também que “alarme não é o mesmo que fatalismo, que esperança não demanda silêncio em relação a desafios mais assustadores e que o medo também pode motivar”. É o que nos resta.

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Best-seller do New York Times, A terra inabitável é uma reportagem corajosa e desafiadora sobre os problemas que o século XXI enfrentará por conta do aquecimento global. Saiba mais.

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Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

 

 

Claudio Angelo nasceu em Salvador, em 1975. Foi editor de ciência do jornal Folha de S.Paulo de 2004 a 2010 e colaborou em publicações como NatureScientific American e Época. Foi bolsista Knight de jornalismo científico no MIT, nos Estados Unidos. Lançou, em 2016, pela Companhia das Letras o livro A espiral da morte, sobre os efeitos do aquecimento global, ganhador do Prêmio Jabuti na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.

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