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Quem está falando? (1)

Marília Garcia

 

Desde que minha filha fez 3 anos, toda vez que começo a ler para ela, sou interrompida a cada frase com a pergunta: “quem está falando?” Já na primeira linha, a máquina desconcertante de curiosidade que vem embutida nas crianças transforma a cena de leitura. Por exemplo, quando leio Baleia na banheira, de Susanne Strasser, que começa com um simples “É hora do banho!”, minha filha pergunta: “Mamãe, quem está falando?”

Como explicar o narrador? Como explicar a elocução de um texto? Não é tão evidente pensar que existe outra voz falando no texto, voz que não é minha, nem exatamente de um personagem, mas projetada pelas palavras para um outro espaço-tempo, para uma existência que não preexiste às palavras e que a cada vez pode ser questionada: quem está aí?

Perdoe-me o leitor pela volta para chegar a uma questão demasiado simples: a voz do poema. T.S. Eliot disse que havia três vozes na poesia, a voz do poeta que fala consigo mesmo, a voz do poeta ao dirigir-se a uma plateia e a voz do poeta quando cria uma persona dramática. Poderíamos subdividir essas vozes e pensar, por exemplo, na voz do poeta que fala de si mesmo ou que fala não só com o outro, mas sobre um outro (ou que fala e escuta, com um diálogo que adentra o poema). Porém, não queria sair do campo da pergunta “quem está falando?”. Ela me fez pensar em uma série de autorretratos, ou autobiografias: poemas que encenam uma tentativa de nomear quem está falando, como neste soneto setecentista de Bocage, que faz um retrato da figura do poeta:

 

Como o poeta se retrata e julga sua obra


Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

(Melhores poemas. São Paulo: Global Editora, 2013.)

 

Poderia repetir a pergunta, “mas quem está falando aqui?”, pois parece que a voz do poema fala de fora, em terceira pessoa e com distanciamento; porém, ele acaba seu soneto dizendo que são verdades que “saíram” do próprio Bocage. Na mesma linha (da descrição do físico e do caráter), e em terceira pessoa também, há este interessantíssimo autorretrato gauche de Manuel Bandeira:

 

Autorretrato

Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

 

(Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.)

 

Impressiona-me a imagem do piano engolido deixando o teclado de fora para falar de uma característica física: os dentes proeminentes do poeta. É curioso pensar que temos uma linhagem de autorretratos gauches na poesia brasileira, como se para falar de si mesmo fosse preciso um tom autoderrisório (do “Sete faces”, de Drummond, até um poema como “Mal secreto”, de Waly Salomão).

Passo agora para a poeta portuguesa Adília Lopes e à sua divertida série de “autobiografias sumárias”, em que faz uso da primeira pessoa, mas encontra um jeito de falar de si projetando-se no “outro”, que neste caso são as baratas e os gatos domésticos:

 

Autobiografia sumária de Adília Lopes

Os meus gatos
gostam de brincar
com as minhas baratas.

 

Autobiografia sumária de Adília Lopes 2

Não deixo a gata do rés-do-chão brincar com as minhas baratas porque acho que as minhas baratas não gostam de brincar com ela.

 

Autobiografia sumária de Adília Lopes 3

Os meus gatos já deixaram há muito tempo de brincar com as minhas baratas. A Ofélia tem 12 anos, seis meses e sete dias. O Guizos, segundo o Dr. Moras, tem 9 anos. Entretanto, gatos morreram, gatos desapareceram. Estou a escrever isso no computador e não sei do Guizos há três dias.

(Obra. Lisboa: Mariposa Azual, 2001.)

 

No campo da projeção de si em um outro, penso em um poema de Miriam Alves que também define quem fala (e escreve) numa espécie de jogo de espelhamento geracional que incorpora o paratexto (dedicatória) para dentro do poema, transformando-o em sujeito também (com o uso dos pronomes, “nos”, “nossas”):

 

Tempo consciência

para Conceição Evaristo

O tempo nos colocara
frente a frente
e no verso
poemas
reflexo de nossas consciências irmãs

 

(Partículas poéticas. Rio de Janeiro. Poemas de ocasião, 2013)

 

O poema de Miriam Alves me leva, por sua vez, a outro autorretrato geracional, de Roberto Bolaño. Apesar da primeira pessoa do poema, o autorretrato de Bolaño parece um autorretrato coletivo, que abarca sus hermanos e todos os que precisam seguir em frente com a face colada à face da morte. Aproveitando que o livro está no prelo, segue aqui em tradução da Josely Vianna Baptista (do livro A universidade desconhecida):

 

Autorretrato aos vinte anos

Me deixei levar, saí andando e nunca soube
para onde poderia me levar. Estava cheio de medo,
o estômago doía, a cabeça zunia:
acho que era o ar frio dos mortos.
Não sei. Me deixei levar, pensei que era uma pena
acabar tão depressa, mas, por outro lado,
escutei aquele chamado misterioso e convincente.
Ou você o escuta ou não o escuta, e eu o escutei
e quase comecei a chorar: um som terrível,
nascido no ar e no mar.
Um escudo e uma espada. Então,
apesar do medo, me deixei levar, pus minha face
junto à face da morte.
E me foi impossível fechar os olhos e não ver
aquele espetáculo estranho, lento e estranho,
ainda que embutido numa realidade velocíssima:
milhares de rapazes como eu, imberbes
ou barbudos, mas todos latino-americanos,
juntando suas faces com a morte.

 

Aqui, uma pausa. No próximo mês, continuo este breve passeio por alguns autorretratos da poesia, tentando sempre repetir a pergunta, afinal, quem está falando?

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

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