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Reféns da terra

Por Camila Von Holdefer*

 

É Ursula K. Le Guin quem, num pequeno texto, lembra que pertencemos, nós humanos, a uma rede infinita de conexões — conexões que se estendem àqueles que geralmente classificamos como coisas, como objetos. Com a finalidade de tornar essas ligações visíveis, e de evitar a arrogância de nos supor agentes imbuídos de uma pretensa racionalidade num universo de resto mecânico, Le Guin reitera que devemos subjetificar o mundo. Fugir das óbvias limitações de uma visão objetiva passa, é claro, por um trabalho da imaginação.

Le Guin defende que é a poesia a linguagem humana que pode tentar dizer o que “uma árvore ou uma pedra ou um rio” são, e que pode, no fim das contas, falar por e para eles. A linguagem da poesia é, diz Le Guin no mesmo texto, bem diferente da linguagem da ciência. A ciência descreveria tudo a partir do exterior; a poesia, a partir do interior. “A ciência explica; a poesia implica”, diz Le Guin. A poesia nos garantiria o senso de companheirismo que permite evitar o uso displicente, a exploração, o desperdício e a crueldade.

O texto de Le Guin ajuda a explicar o que a poesia de Louise Glück muitas vezes faz, e que é o motivo pelo qual ela me atrai tanto. Poemas, o primeiro título de Glück publicado no Brasil, reúne seus três livros mais recentes: Averno (2006), que ganhou tradução de Heloisa JahnUma vida no interior (2009), com tradução de Bruna Beber; e Noite fiel e virtuosa (2014), com tradução de Marília Garcia.

Glück, uma nova-iorquina nascida em 1943, é reservada. Raramente concorda em dar entrevistas. Costuma ser avessa àquilo que se pode chamar (e não penso na palavra em seu sentido pejorativo) de autopromoção. Nem sempre autoriza textos de apoio nos livros que escreve; talvez, e isso não passa de especulação minha, não goste de encorajar determinadas interpretações em detrimento de outras. No Brasil, pouca gente tinha ouvido falar dela antes do anúncio do Nobel do ano passado.

Mas o Nobel não foi o primeiro reconhecimento de uma carreira iniciada em 1968 e que já soma uma dúzia de coletâneas de poemas. Glück já havia recebido, só para citar os mais conhecidos, o Pulitzer e o National Book Award. Além da poesia, ela também publicou dois volumes de ensaios que, bem, falam de poesia, um em 1976 e um em 2017. Hoje ela leciona em Yale. 

Penso que diferentes incursões na obra de Glück vão resultar em cartografias distintas, que, no entanto, não podem deixar de levar em conta a visão interna das coisas de que fala Le Guin. Há aí certa relação com o que a própria autora observou no discurso em que aceitou o Nobel: “Os poemas que mais ardentemente me atraíram ao longo de toda a minha vida são […] poemas de escolha íntima ou de convergência, poemas para os quais o ouvinte ou leitor faz uma contribuição essencial, como receptor de uma confidência ou de um protesto, às vezes como cúmplice em uma conspiração”. Podem parecer coisas distintas, mas não são: descrever algo pelo lado dentro, o que pressupõe um esforço de imaginação que resulta em uma espécie de identificação, é inútil sem um leitor alerta e disponível. Esse leitor é tanto um confidente e um cúmplice momentâneo quanto um elo a mais na cadeia de Le Guin. 

O poema de que mais gosto em Averno é o que lhe dá título. Averno, explica a autora, é um lago “considerado pelos antigos/ romanos a entrada para/ o outro mundo”. Não por acaso, “Averno” aponta, na superfície, para o fluxo irrefreável do tempo que nos arrasta, contra a vontade, para o envelhecimento e a morte.

Os filhos piscam um para o outro quando a mãe lhes dá conselhos, como quem diz “ouçam só essa velha, falando sobre o espírito/ porque não consegue se lembrar da palavra cadeira”. “Me lembro da palavra cadeira./ Quer dizer — simplesmente já não estou interessada”, diz a mãe. “Em breve o espírito vai ceder —/ nem todas as cadeiras do mundo terão como ajudar.” 

“Um dia desses eles deveriam vir comigo/ olhar para esse campo sob uma capa de neve./ A coisa toda está escrita aqui”, diz a mulher. “Eles” são seus filhos. Mas é claro que nada está escrito naquele solo coberto por uma camada de neve que logo vai derreter: está escrito na memória de uma mãe que logo vai partir, ou na relação intangível entre ela e aquele solo. 

É comum em Glück que um pressentimento ou uma percepção qualquer transforme o que se vê — o que não necessariamente resulta num solipsismo. “Em nosso silêncio, estávamos fazendo/ as perguntas que amigos que confiam um no outro/ fazem por estar muito cansados/ cada um na esperança de que o outro saiba mais// e quando isso não se verifica, na esperança/ de que as impressões partilhadas configurem clarividência”, lê-se em “Averno”.  

Há sempre uma confirmação ou um desafio no entorno. Em “Agouros”, quando a voz vai ao encontro de alguém, “a lua, à direita,/ me acompanhava, ardendo”. Na volta, mais triste, “a lua, à esquerda,/ vinha atrás sem esperança”. Ela vai “vendo, em silêncio, agouro em coisa boba,/ à espera de que o mundo reflita as necessidades mais fundas da alma”.

O segundo livro, Uma vida no interior, é paradoxalmente mais solitário e mais centrado em relacionamentos e na intimidade. A maturidade ainda é dominante, mas agora ela olha para trás e relembra. 

Continuamos — numa antecipação? — reféns da terra, como, aliás, em quase todos os poemas de Glück. É o caso de “Minhoca”: “Não é triste não ser humano,/ nem viver inteiramente debaixo da terra/ é humilhante ou vazio: é da natureza da mente/ defender sua eminência, como é da natureza desses/ que andam sobre a terra temer sua profundidade — a/ posição determina os sentimentos. Contudo,/ caminhar na superfície não lhe dá poder sobre ela —/ a situação é inversa, uma dependência disfarçada,/ na qual o escravizado endossa seu senhor”. 

Em “Março”, a terra mais uma vez comanda como um senhor: “Nada se obriga à vida./ A terra é como um alucinógeno, como uma voz longínqua,/ é amante ou mestre. No fim, você faz o que a voz comanda./ Ela diz esqueça, você esquece./ Ela diz recomece, você recomeça”.

Ser refém da terra pode significar ser refém da beleza. “Refém” é mesmo a palavra usada em “Oliveiras”, em que se lê: “Você cresce com vista para as colinas, para o sol que se põe logo atrás./ E lá estão as oliveiras, acenando, cintilantes. Então percebe que caso não saia dali o quanto antes,/ você morrerá, como se aquela beleza amordaçasse, a ponto de não conseguir respirar —”. 

Ser refém dessa beleza, no entanto, ter a terra como um senhor, não é o fardo que a carga negativa das palavras faz parecer. Pelo menos não é isso que se entende sob, hum, a superfície. Me lembra a maneira como a admiração é descrita em Le Guin: “Por admiração, entendo a reverência pela conectividade infinita, pela ordem naturalmente sagrada das coisas, e alegria nisso, prazer”. 

O terceiro livro, Noite fiel e virtuosa, me parece o mais desafiador. É como se houvesse nele um protagonista, um pintor criado por uma tia porque seus pais morreram. Em alguns poemas a voz dele é palpável e cristalina; em outros, não sabemos muito bem onde ela se localiza e o que quer diz. É um livro sufocante, obscuro e soturno com algumas passagens arejadas e luminosas. É um livro desafiador, quase uma presença irônica. Ele me faz lembrar de algumas músicas de Patti Smith, por qual razão não sei, e de Henry James. Sobre ele ainda quero pensar mais.

 

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Camila von Holdefer Kehl é bacharel e mestranda em filosofia. É crítica e tradutora de literatura, tendo colaborado com a Folha de S.Paulo e as revistas Quatro Cinco Um e Serrote.

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