Saga das oito mãos, parte I: por trás de "Corpos secos" e the dream team

Luisa Geisler

 

Mês passado, lancei Corpos secos, um romance escrito a oito mãos — com Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso, Samir Machado de Machado — sobre um apocalipse de mortos-vivos no Brasil e uma tentativa de achar esperança onde ela não há. Quase como chafurdando lama à procura de qualquer coisa de valor, os protagonistas Constância, Mateus, Murilo e Regina rumam a destinos, se cruzam e descruzam, onde acreditam que encontrarão segurança maior. Jarid Arraes e Jana Bianchi fizeram belos textos para o blog da Companhia com uma visão crítica destes livros. Foram leituras generosas, que viram no nosso livro temas que nem pretendíamos tratar quando começamos esta história lá em junho de 2018. Por outro lado, quero trazer a perspectiva que só eu posso trazer, a resposta para a pergunta que ouvimos mil vezes: como é escrever um livro a oito mãos?

Eu e os autores do Corpos secos lançamos o livro com uma live no Instagram e faremos uma live no YouTube agora todos juntos dia 11, às 18 horas, no YouTube da Companhia. Quero aproveitar o espaço no blog para contar um pouco melhor essa história.

Vou fazer três posts. Um sobre como esse time de autores (e editora) se formou; o segundo sobre como surgiu a ideia de corpos secos, como montamos a história em si, como organizamos quem faria o quê, como nos revisamos e lemos; um terceiro sobre como um livro que vínhamos falando que seria publicado “em abril de 2020” chegou nascendo no meio do caos, além das perguntas que surgirem no caminho. E espero que isso responda “como é escrever um livro a oito mãos?”. Porque não é uma pergunta simples. E sempre lembrando: falo por mim e do meu ponto de vista. Ao contrário deste livro, o post foi escrito por minhas duas mãos com minha perspectiva. Podem mandar perguntas aqui nos comentários aqui também.

Acho inviável comentar o processo de criação sem introduzir o grupo de criadores. Vamos ao início.

A primeira vez que falei com Marcelo Ferroni foi em 2012. Eu estava num ônibus lotado às seis da tarde, voltando do Campus do Vale de uma aula de Ciências Políticas I, prestes a enfrentar a jornada de duas horas  para casa. Atendi e Marcelo pediu por Luisa Geisler e, antes de dizer a que veio, perguntou se por acaso tinha jornalistas por perto. Marcelo conheceu meu trabalho durante o processo seletivo da edição da Granta: melhores jovens autores brasileiros, em 2012. É também autor, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura com seu livro de estreia. Hoje, Marcelo Ferroni é meu editor na Alfaguara e foi uma pessoa que me ajudou a me entender como autora quando publicamos o Luzes de emergência se acenderão automaticamente em 2014. Tenho respeito pela visão crítica dele como leitor e pela participação dele na minha formação como autora. Marcelo nunca publicou algo meu porque eu sou muito querida e posto gatos nas redes sociais. Guardem esta informação por enquanto.

A primeira vez que falei com Luara França foi sobre Luara França. Ela era assistente editorial de Marcelo Ferroni na época do lançamento do Luzes de emergência se acenderão automaticamente. Minha agente achava hilário que Marcelo, um homem sério e de óculos, tivesse uma assistente editorial chamada Luara, por ser um nome riponga (?), e porque Luara era tão calorosa e querida em e-mails. Parecia algo estranho para ela. Em 2018, Luara não era mais assistente e trabalhava na Companhia das Letras em inúmeros selos. Apesar de nos conhecermos menos, ela trabalhou no De espaços abandonados comigo e também é minha editora (na minha cabeça). Guardem esta informação por enquanto.

Não me lembro da primeira vez que falei com Samir Machado de Machado. Talvez tenha sido um diálogo de autógrafo, tipo “nome?” e “Luisa com S e sem acento”. Tenho a sensação de que ouvi falar de Samir Machado de Machado desde que quis começar a escrever num cenário contemporâneo gaúcho. Samir foi um dos fundadores da Não-Editora, uma independente que começou publicando autores gaúchos e hoje dá a volta pelo Brasil (pelo mundo) com selos como a Dublinense. Samir ia aos meus lançamentos e eu ia aos dele. Eu já era muito fã de seu trabalho e falávamos nas redes sociais. Quando me mudei para Porto Alegre, calhou que comecei a morar perto do quartel-general de Samir: o bairro Bom Fim. Comecei a me juntar para tomar café com ele e algumas pessoas legais das “coisas livro”, gente que estuda, que escreve, que quer escrever, que quer falar de livro, chamando quem pode, quem está na cidade. A gente precisa ter com quem fofocar. A gente precisa ter com quem comer bolo. Samir se revelou um amigo e pessoa com quem tenho afinidade, e isso começou ao redor de 2018. Guardem esta informação por enquanto.

Ouvi falar de Natalia Borges Polesso quando ela ganhou o Jabuti duas vezes no mesmo ano com um livro de contos. Contos lésbicos, ainda por cima. Adorava o seu Amora e nós nos falávamos muito por cima nas redes sociais. Em 2018, tínhamos trocado no máximo uma curtida no Instagram, um comentário sobre gatos. Ela era o que eu chamo de crush de amizade, trabalhávamos com a mesma agente, mas a nossa agente tem uns cinco bilhões de autores. Guardem esta informação por enquanto.

Foi neste contexto que fui ao Rio de Janeiro em junho de 2018. Ia lançar o De espaços abandonados lá, ver minha agente, participar de eventos, essas coisas que a gente nunca acha que precisa fazer quando se quer ser escritor. Encontro Marcelo Ferroni (o editor) para almoçar.

Marcelo conhecia Luara e me conhecia. Luara me conhecia e era editora de Natalia do Controle que seria publicado em breve. Samir talvez conhecesse Natalia?, e me conhecia. Eu conhecia todas essas pessoas. E fui almoçar com Marcelo Ferroni, meu editor, para falar do livro recém-lançado, das eleições, crise na Venezuela, a FLIP (e Hilda Hilst), a greve dos caminhoneiros, lançamentos legais ou algum jornalista que tivesse falado alguma bobagem.

Sim. Por mais que a frase usada na divulgação de Corpos secos seja “Uma doença fatal assola o Brasil e o transforma em uma terra pós-apocalíptica: sem governo, sem leis e sem esperanças,” o projeto é de junho de 2018. E é deste ponto que seguimos no post que vem.

 

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Luisa Geisler nasceu em 1991 em Canoas, RS. Escritora e tradutora, é também mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Pela Alfaguara, publicou Luzes de emergência se acenderão automaticamente (2014), De espaços abandonados (2018) e Enfim, capivaras (2019), além de Corpos secos, romance distópico de terror escrito a oito mãos com Natalia Borges PolessoMarcelo Ferroni e Samir Machado de Machado a ser lançado em breve. Foi vencedora do Prêmio Sesc de Literatura por duas vezes, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti.

 

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