Sarnas possíveis

Jarid Arraes

Três poemas inéditos de Jarid Arraes.

 

aos amigos

aos amigos
dei todos os fluidos
do corpo

leites
bactérias
fungos
lágrimas

dei
aos amigos
da carne
a cutícula

todos
os ossos
e todas
as massas

em taças
de martini
em shots
de cachaça

aos amigos
dei todos os goles
todos os dias
e madrugadas

mas amizade
é faca cega
que cerra a gordura

faz aquele barulho
incomodo
feito arrastar
de unhas

a amizade
rasga
e mói a carne
de qualquer
qualidade

deixa o balcão sujo
os restos
nos buracos
e cria
cáries

quando se dá
aos amigos
tudo de si
 
não sobra
resto
que baste

 

**

 

lonjura

tem algo que me impede de voltar
agora que sei de onde vim

perco os voos
as malas
sinto repulsa
pelos aromas
de casa

o colchão de solteiro
os móveis de madeira
sacra

tem algo que me segura aqui
agora que sei o que foi lá

tem algo que me impede de voltar

e agora que vejo onde estive
a distância se mostra
meu único lar

 

***

 

unha de fome

procurei sarnas possíveis
dentro do meu perfil
de mercado

sarnas  home-office
coceiras com tempo livre

para que arrancar
a pele

fosse leve

procurei sarnas
sensíveis

 

***

Jarid Arraes nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora dos livros Um buraco com meu nomeAs lendas de Dandara e Heroínas negras brasileiras. Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres. Tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel. Redemoinho em dia quente (Alfaguara) ganhou o prêmio APCA de Literatura na Categoria Contos/Crônicas.

 

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