Saudades de quando o fim do mundo era só ficção científica, né, minha filha?

Jana Bianchi*

 

 

No finzinho de março saiu Corpos secos — um romance escrito em conjunto por Marcelo Ferroni, Luisa Geisler, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado, que eu estava enlouquecida para ler desde que ouvi pela primeira vez a notícia da publicação dele pela Alfaguara.

O finzinho de março também foi marcado pelo começo do auge da pandemia de COVID-19. Perambulando pelo Twitter, vi o Samir perguntando como se promovia um livro sobre uma pandemia em meio a uma pandemia real. Essa pergunta totalmente legítima ficou esporulada em mim (desculpa, em uma vida passada eu fui engenheira de alimentos — aliás, tem uma personagem engenheira de alimentos no livro), até que surgiu a oportunidade de escrever esse texto. E aí tive uma ideia genial: vou falar sobre a história cortando fora a parte da doença.

Fica mais ou menos assim: parte da população do Brasil foi reduzida, abre aspas sabe-se lá como fecha aspas, a turbas de seres desprovidos de consciência, inteligência e opinião própria, que perambulam pelas ruínas do país como se nada tivesse acontecido. À primeira vista, são inofensivos: letárgicos e indiferentes na maior parte do tempo, quando muito reproduzem mecanicamente os movimentos que faziam antes. Eles até saem do lugar, mas é só para seguir a inércia e acompanhar o resto da manada — que se agita sempre que há a manifestação ruidosa de alguém diferente deles. E é aí que você vê o perigo que essas pessoas esquisitas oferecem: elas não escutam, têm uma memória de peixe (aliás, também tem um personagem peixe no livro), não ponderam e não consideram nenhum argumento. Parece que quanto mais perto você tenta chegar delas, quanto mais se esforça para manter a calma, mais violentas elas ficam. Gritam, grunhem, cospem, mordem. Matam. E, no processo, vão criando outras dessas pessoas.

Esse povo aparentemente perdendo a cabeça já parece ruim o suficiente? Pois ainda não acabou! Tem coisa pior: aqueles com a cabeça perfeitamente no lugar (talvez até mais do que antes) que estão perdendo a mão. Esses se aproveitam do colapso da dita normalidade para fazer às claras aquilo que só faziam debaixo dos panos, e só porque ainda eram reprimidos pela pressão social — ou talvez pela frágil sensação de ordem inspirada pelas instituições funcionando normalmente, muito bem, obrigada (insira aqui o meme do cachorrinho tomando café no meio de um incêndio para ilustrar o funcionamento normal das instituições supracitado).

E aí tem o pessoal que tenta resistir. Uns planejam fugas para lugares mais seguros, formam grupos e debatem para chegar ao consenso do melhor caminho a seguir — mas é tudo muito difícil e lento porque eles mal têm líderes, e ainda por cima estão navegando em um mar de informações incertas. Em quem confiar? O que é verdade? O que é cilada? E o pior: o que é só cortina de fumaça? Em outra frente vêm as pessoas da ciência, usando da melhor maneira possível os recursos que ainda têm, lutando contra o tempo para encontrar uma cura — se eles só fumam maconha e fazem suruba, essa parte ficou de fora do livro. Há também aqueles que tentam fingir que nada está acontecendo, isolados e supostamente seguros em suas fazendas e SUVs — mas que, quando a coisa aperta, descobrem que estão sozinhos no meio do mato. Um mato sem cachorro, mas cheio de pessoas com as quais eles costumavam se identificar, mas que agora aparentemente já não os reconhecem mais como iguais. E enquanto isso, há quem tenha descoberto como manipular a multidão de descerebrados: botam para tocar os mesmos cânticos, repetidos à exaustão, ficam por aí gritando citações de um livro a plenos pulmões… qual é mesmo o nome daqueles que orientam os rebanhos por aí? Isso, um desses, mas do tipo que usa uma caixa de som em vez de um berrante.

E no meio do livro você se pega pensando: a culpa não é toda dos que sucumbiram, é? Parece que essa insanidade tem a ver com uma substância criada pelos donos da bola (ou da terra) para fazer as lavouras produzirem mais e, assim, renderem mais dinheiro. Na verdade, pensando por esse lado, será que dá para dizer que as pessoas têm alguma culpa? “Letárgicos na maior parte do tempo, quando muito reproduzem mecanicamente os movimentos que faziam antes” — quem nunca? Não dá para negar que parece ser muito mais fácil do que tentar sobreviver no meio do caos. E assim, se você olhar bem, as pessoas lelés ainda parecem quem costumavam ser. A avozinha carinhosa de avental. O tiozão boa praça que fazia piada de pavê no Natal. Pais, irmãos, melhores amigos, colegas da escola ou da academia. Eles não podem ser monstros só porque mudou alguma coisa na cabeça deles, podem? Se a gente falar com carinho, se a gente pegar pela mão e tentar entender o que se passa atrás dos olhos baços, será que não tem como salvar? Bem, não dá para saber, porque quem tentou algo parecido não voltou para contar.

Viu só? Esse é o resumo da história à moda do governo: fingindo que pandemia não existe. E eu até sei o que você está pensando: saudades de quando o fim do mundo era só ficção científica, né, minha filha?

Brincadeiras à parte, é por isso que Corpos secos é uma história apocalíptica da melhor qualidade, escrita a oito mãos absurdamente talentosas para mostrar vários pontos de vista, narrativas e personagens de um mesmo colapso. Eu costumava achar que a melhor ficção científica era aquela que me fazia pensar: o que eu faria se amanhã acordasse e me visse em uma história assim?

Mas aí veio Corpos secos e me fez pensar: que personagem eu sou nessa história que já começou?

 

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Jana Bianchi é escritora, tradutora de livros, quadrinhos e jogos de tabuleiro, editora da Revista Mafagafo, podcaster no Curta Ficção e passeadora de lobisomens. Publicou a novela Lobo de Rua (2016, Dame Blanche) e vários contos em antologias e revistas de fantasia e ficção científica como Trasgo, Somnium e Dragão Brasil. Pode ser encontrada no site janabianchi.com.br e no Twitter e no Instagram como @janapbianchi.

 

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