Scorsese, Gangues de Nova York e o espelho negro da arte

Ana Maria Bahiana

Daniel Day Lewis como Bill the Butcher em Gangues de Nova York. 

Toda verdadeira obra de arte tem um elemento-Rorschach: cada vez que você a contempla/lê ela oferece algo novo, algo diferente, algo que, à luz do momento em que se vive, assume contornos e profundidades insuspeitas. Tenho um livro de bolso de poemas selecionados de Emily Dickinson que é assim: há mais de vinte anos ele funciona como uma espécie de oráculo, a página aberta a esmo, o poema sempre apresentando um novo ângulo, uma nova possibilidade, uma nova conexão com aquele momento da minha vida.

E toda vez que vejo a "Noite Estrelada", de Van Gogh – possivelmente minha pintura favorita – algo mais me ocorre, uma nova sensação, uma nova emoção além daquela que despertou meu profundo amor, tantos e tantos anos atrás: Vincent, eu acho que sei exatamente o que você estava vendo.

É claro que isso é uma via de mão dupla. Uma parte é a capacidade do/da artista em criar algo ao mesmo tempo profundamente pessoal e transcendente, algo que, destilando a experiência particular, se torna imediatamente cósmico. A outra parte é a sobreposição do que estamos vivendo sobre o alto-relevo da obra de arte: um novo desenho se apresenta.

Com filmes isso pode ser particularmente poderoso. Muitos, mesmo os bons, se atrelam ao tempo em que foram criados, e ficam “datados” com grande facilidade. Mas outros… Recentemente tive a oportunidade de conversar com um compositor e tecladista que me confessou sua obsessão com 2001: Uma Odisseia no Espaço – cada vez que ele vê o épico científico-filosófico de Stanley Kubrick ele descobre algo inteiramente novo e importante para seu trabalho. “Da última vez que vi me apaixonei sobretudo pelos silêncios”, ele me disse. “Pela diversidade e intensidade dos silêncios.”

Isso acontece comigo frequentemente, em geral com meus filmes-de-cabeceira. Mas outro dia tive uma supresa fantástica: o quanto Gangues de Nova York, de Martin Scorsese, era uma obra perfeita para comentar a crise moral, social, política e existencial dos Estados Unidos sob Trump.

Como tudo na obra de Scorsese, Gangues nasceu de um impulso totalmente pessoal – ler, na década de 1970, o livro do mesmo nome do historiador Herbert Asbury, documentando as origens caóticas do bairro onde ele mesmo, Scorsese, nasceu e se criou – a ponta da ilha de Manhattan que se projeta para o mar entre a foz dos rios Hudson e East. Com sua natural obsessão, Scorsese comprou os direitos da obra em 1979 e passou duas décadas desenvolvendo o projeto e – os mais complicado – levantando fundos.

E aqui começam os paralelos entre dois momentos na linha do tempo que tornaram a experiência de ver Gangues de Nova York – de novo, 15 anos depois – tão atual para mim.

Scorsese desenvolveu seu projeto num momento em que, como agora, os Estados Unidos passava do centro-esquerda (Bill Clinton) para a direita (George W. Bush que, como Donald Trump, se elegeu pelo voto do colégio eleitoral mas não pela maioria popular). Gangues estava em filmagem quando o ataque às Torres Gêmeas mudou tudo criando, entre muitos outros monstros de todos os tamanhos, o ultra-nacionalismo, a paranóia, a vigilância do estado, a perda da privacidade e a legitimação da presidência Bush. E criando, no cinema, a safra de filmes militaristas e patrióticos que ainda não terminou.

É claro que, na época, vi/vimos Gangues como uma narrativa ultrapessoal de um momento brutal entre outros tantos momentos brutais da história estadunidense: a guerra entre as falanges criminosas de uma Manhattan miserável, corrupta, sem lei, pontuada de cortiços e favelas, administrada por bandidos. A possibilidade de que estivesse falando também da permanência desses traços na sociedade norte-americana nos escapava, porque estávamos ainda no meio dos acontecimentos que, sem que percebêssemos, ecoavam exatamente os pontos-chave do filme.

Revi Gangues de Nova York outro dia, por acaso. Fazia tempo que não revisitava o mundo de Bill the Butcher e Amsterdam Vallon – Daniel Day Lewis e Leonardo DiCaprio – e seu drama de vinganças nas ruas imundas dos Five Points. Lembrava de ter gostado do filme lá atrás. Mas agora, solto como uma granada na era do Trumpismo, Gangues ganhou, para mim, um novo vigor, uma nova luz. Como não ver Trump em Bill the Butcher, o guardião auto-ungido da pureza social norte-americana contra os “invasores” imigrantes? Como não ver em seus métodos brutais – alegre e entusiasticamente cooptados pelos politicos, corruptos até a raiz dos cabelos – as atrocidades pregadas pela turma de extrema direita que invadiu a Casa Branca, nas costas de corrupção, falsas promessas e ignorância? Como não achar, naqueles tableaux de miséria extrema, o que está acontecendo agora nas ruas das cidades norte-americanas, onde a pobreza e o desabrigo são realidades incontornáveis?

Esse é o poder da arte quando ela é vital e sincera. Ao saciar sua curiosidade sobre como um país – representado pelo microcosmo do baixo Manhattan – pariu seu destino na lama do século 19, Scorsese criou uma espécie de espelho permanente, um espelho negro em que se manifesta, claro, tudo aquilo que não quer ser visto.

O que me leva a pensar que em momentos de crise extrema precisamos, em primeiro lugar, de artistas.

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Ana Maria Bahiana nasceu no Rio de Janeiro e vive em Los Angeles. Jornalista cultural, escreveu sobre cinema e música em publicações como Rolling StoneBizzJornal do Brasil e Folha de S. Paulo, entre outras, e foi correspondente, na Califórnia, das redes Globo e Telecine. É autora de Como ver um filme (Nova Fronteira, 2012), Almanaque dos anos 70 (Ediouro, 2006) e Almanaque 1964 (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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