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Semana 2: "26 poetas hoje" por Flávio Aguiar, Luis Olavo Fontes e Chacal

 

“Isso foi em 1976. Há 45 anos. Mas não parece”, escreve Heloisa Buarque de Hollanda na apresentação da nova edição de 26 poetas hoje, antologia que marcou os anos 1970. Afinal, o que mudou quarenta e cinco anos depois? E quais poemas seguem atuais em 2021?

Em homenagem à obra, seminal para o o reconhecimento da geração mimeógrafo ou geração marginal, convidamos alguns dos 26 poetas a compartilhar relatos sobre a época em que o livro foi publicado: a noite do lançamento, o contexto da ditadura militar e a importância da reedição — especialmente na conjuntura política e social em que nos encontramos.
 

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Semana 2: Flávio Aguiar, Luis Olavo Fontes e Chacal

 

26 poetas daqui e dali

Quem me convidou para participar da antologia 26 poetas hoje foi o Cacaso. A Heloisa Buarque de Hollanda foi a mentora conceitual e crítica da antologia. Já o Cacaso, além de participante, foi uma espécie de “operador executivo” dela, pelo menos em relação aos poetas que moravam em São Paulo. Cacaso tinha uma ligação muito intensa com jovens poetas, críticos, estudantes de Letras que, em geral sediados em torno ou dentro da USP, como eu, gravitavam em torno de um dos intelectuais mais brilhantes, e dos mais menos conhecidos desta geração, Haquira Osakabe, que tornou-se professor da Unicamp. Além da paixão pela literatura, tínhamos muita outra coisa em comum: de diferentes maneiras, nos opúnhamos à ditadura de então; curtíamos demais a Tropicália; éramos todos de alguma forma migrantes: este (eu) viera do extremo sul para São Paulo; aquele ou aquela viera do interior ou do litoral para lá; aqueloutro (a) viera de Minas ou de mais ao norte, e assim por diante; e não tínhamos o reconhecimento, sequer o interesse, por parte do establishment do mercado editorial. Alguns tiveram a ousadia de editar algumas plaquetas, como se dizia então, por conta própria. Eu editara a minha – Sol – em 1972. Umas 30 ou 40 páginas, ilustrações (lindas) do artista plástico e amigo Edgar de Souza, 500 exemplares. Com outros e outras migrantes ou não de vários pontos do país, ficamos conhecidos como “a geração do mimeógrafo”. Na verdade, deveríamos ser conhecidos como “a geração do xerox e do off-set”, então grandes novidades, que propiciavam reproduções de muito melhor qualidade do que os mimeógrafos a álcool ou tinta, e baratas. Entrei na antologia como alguém “de dentro” (da mesma geração e prática), mas ao mesmo tempo “de fora”: era gaúcho, numa época, diga-se de passagem, em que contavam-se nos dedos as churrascarias existentes em São Paulo, talvez ainda um resquício das desavenças de 1930 e 1932. Esta condição certamente influenciou a escolha dos meus poemas para a antologia, feita pelo Cacaso, emprestando a mim, nascido e urbanamente crescido em Porto Alegre, um ar fronteiriço, bravio, pampeano, cercado por geadas e minuanos. E foi assim que entrei para um nicho do cânone da literatura nacional.

Flávio Aguiar

 

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O grande lançamento literário de 1976 foi sem sombra de dúvida a antologia 26 poetas hoje, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, que lançou todos nós, jovens poetas marginais, no mercado editorial oficial. O lançamento não foi no Parque Lage, e sim no Clube Caiçaras, um clube chique na Lagoa Rodrigo de Freitas. Ana Cristina Cesar em carta à nossa amiga e professora na PUC Cecília Londres quase se desespera ao escrever: “Antologia foi lançada no dia 15 de maio de 1976 no pior lugar, no lugar mais careta do mundo: [Clube] Caiçaras! O [editor espanhol] Juan é um chato, consulta todo mundo e depois faz o que bem entende. [Lançamento] com discurso de Antônio Houaiss, imagine!" Entretanto, apesar dos percalços, o livro se tornou uma referência sobre a poesia dos anos 1970. As reações foram controversas: alguns aplaudiram o esplêndido trabalho da Heloisa, outros como Affonso Romano de Sant'Anna odiaram a ideia, apesar de conter tantos alunos dele – eu, Ana Cristina Cesar, Geraldinho Carneiro, João Carlos Pádua – e até professores, caso do Cacaso, já que ele era o Diretor do Departamento de Letras da PUC onde estudávamos. Affonso chegou a publicar um artigo na prestigiada revista Veja com o título de “Os Sórdidos”, em que nos definia sem maiores pruridos como “lixeratura”. Rimos muito e adoramos a precisão do neologismo. O relançamento hoje da antologia 26 poetas pela Cia das Letras só demonstra que ela ainda permanece atual, o que muito nos honra, passados 45 anos do seu aparecimento no Rio de Janeiro.

Luis Olavo Fontes

 

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poesia marginal 50 primaveras

poesia marginal aquele mar de vozes

sob os olhos azuis e livres da onívora heloísa

cabiam meninos do subúrbio (elas só agora)

viciados da zona boêmia (elas eis!)

diplomatas insubmissxs

professorxs renegadxs

poesia marginal ah

nossos negros verdes anos

o tesão da palavra  x  a estupidez militar

o cockney das quebradas  x  o polido cânone

bora dar um dois e entrar numas

caia na estrada e perigas ver

quem eram aqueles poetas danados

que mijavam no palco de tábuas da lei

do municipal de são paulo em 77

que terminada uma artimanha

seguiam na contramão pelas ruas

de ipanema ao leblon

ou seguiam nus em procissão

sob o olhar atônito dos cães policiais

e a poesia estava nisso tudo

palavra-potência-corpo

desvirtuando o discurso

poema percurso

paratodes paratodas paratodos

e tanto fez tanto pão amassou

que a avis rara do poema

virou bicho e se horizontalizou

palavras para quem quiser rimar e remar

a poesia marginal faz meio século

sereias e piratas tocam o barco

a poesia não para mais em pé

se esgueira serpentina

mergulha e brota

do caos ao cosmos ....

 

firme no leme que a reta é torta

 

chacal

 

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Leia também os relatos de Afonso Henriques Neto, Secchin, Zuca SardanCharles, Bernardo Vilhena e Leila Míccolis.

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