Semana dos Tradutores: Caetano e Rogerio W. Galindo

No dia 30 de setembro, comemora-se o Dia Internacional da Tradução. A Companhia das Letras realiza este ano uma homenagem ao ofício: convidamos cinco tradutores de diferentes estilos literários para escrever depoimentos sobre suas trajetórias profissionais. Encerrando este especial, convidamos os irmãos Caetano e Rogerio W. Galindo. Os irmãos-tradutores escrevem não só sobre o ofício da tradução, mas também sobre a relação — com o texto, e entre si. 

Leia também os texto de Denise Bottmann, Regiane Winarski e Julia Sanches.

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Dois, por Caetano e Rogerio W. Galindo

 

Trevas.

Chove.

1’12”, bom dia!

 

O mais novo de nós acaba de abrir os olhos quando vê no WhatsApp as três mensagens acima, escritas horas antes. Pra quem não sabe o contexto, pode parecer que o remetente, o mais velho de nós, estivesse suicida às 6h07 da matina e saltitante às 6h09.

Mas na verdade as três mensagens falam de duas coisas diferentes. Ou não, porque tudo tem a ver com palavras.

As duas primeiras são a resposta a uma consulta. O mais novo estava revisando a tradução de uns contos e ficou em dúvida com duas frases.

O que fica melhor? “Um pedaço de treva” ou “um pedaço de trevas”?

Qual é o certo: “Chove peixes” ou “chovem peixes”?

As respostas do mais velho chegam cedinho porque ele tem filha criada (traduzindo já o quarto livro, aliás, aos vinte anos) e os hábitos de um velho ranzinza asilado numa casa de repouso. Janta às cinco, deita às dez e já está tomando café antes que o despertador do galo toque.

O mais novo foi ler horas depois porque a filharada está naquela fase da infância em que só dorme quando a última rebarba de açúcar se transformou na última pirueta seguida de um grito escandaloso e um tombo inesperado, depois da meia-noite.

Os horários são diferentes, mas a obsessão é a mesma. Lutar com palavras é a luta mais vã, entanto é o que faz este mísero clã. Na universidade pro mais velho, que é professor? No jornal pro repórter, mais novo? Na tradução pros dois?

Nada. Primeiro, no site de palavras cruzadas. Mal rompe a manhã.

O 1’12” da mensagem lá em cima é parte desse ritual. O mais novo decidiu que, já que ia traduzir livros, pra ser igual ao irmão mais velho, devia, quem sabe, aprender uma segunda língua. Podia ser útil. As minicruzadinhas no New York Times fazem parte do esforço (bobo?) dos dois, de aumentar vocabulário, rapidez e evitar o Alzheimer. Além de tudo, cronometradas, geram uma disputa semana a semana. Hominhos, né? Competitivos.

*

A tradução, no caso de nós dois, surgiu meio pelo gosto da palavra e dos livros. Ok, frase cafona. Melhor contar que a gente lia enciclopédia desde cedo? Beleza. Que o mais velho levou o nosso pai a correr como doido atrás de exemplares de Agatha Christie – pra ter outro em mãos no momento em que acabasse o atual? Que o mais novo virou fonte de recomendações e formação do mais velho ainda na adolescência?

O mais velho jura que a primeira tradução que fizemos juntos foi de Neil Simon, pra nossa mãe, doente, ler. Então deve ter sido em 95. O mais novo não se lembra disso. Mas confia no mais velho. Assim como deve ser “chove peixe”, os dois devem ter traduzido Neil Simon pra mãe ler. Mais de vinte anos atrás.

Depois a coisa foi ficando séria. 

Hoje, somados, já fizemos mais de 60 livros. Pelo menos dois juntos (um Beckett e um Bellow). Também temos dois outros autores em comum na lista de traduzidos. Por causa disso já nos chamaram de “Irmãos Dylan” num texto de jornal. (Não contem a ninguém, mas preferiríamos ser os irmãos Darwin.)

Durante o dia, mesmo quando estamos traduzindo coisas completamente diferentes, a conversa é pelo Whats. O dia todo. E quando não é sobre o medo do que o país está virando, ou sobre as fofuras de um dos bebês do mais novo, ou sobre música, normalmente é sobre tradução.

Consultas. Trocas de ideias. Ou simplesmente algum de nós se gabando de uma boa solução… (normalmente o mais velho, que é gabola mesmo).

Funciona. O mais velho de nós, que dá aula da coisa, diz que tradução devia ser sempre assim. Coletiva. O mais novo acha que se o mais velho fala, deve ser verdade. Mas, em vários sentidos, pra nós a tradução já é sempre assim. Afinal, irmãos servem pra isso. Não só pra traduzir livros juntos, mas pra traduzir a vida e o mundo um pro outro.

E, por que não, pros outros. 

Você nunca está sozinho quando traduz. Sombras autorais, ouvidos editoriais, pensamentos… “leitorais” te acompanham? Se ler literatura é um dos melhores jeitos de se sentir menos só, traduzir literatura é possibilitar essa experiência a mais gente. Possibilitar convívios, solidões solidárias. E, pra gente, isso já nasce do fato de poder contar um com o outro.

Irmãos.

Serve para isso.

 

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Caetano W. Galindo é professor de Linguística Histórica na Universidade Federal do Paraná e doutor em Linguística pela USP. Já traduziu livros de James Joyce, David Foster Wallace e Thomas Pynchon, entre outros. Colabora para o Blog da Companhia com uma coluna mensal sobre tradução.

Rogerio W. Galindo é repórter formado pela UFPR, especializado em cobertura política, ganhador de um Esso regional de jornalismo. Traduziu mais de 30 livros, incluindo autores como Saul Bellow, Paul Beatty e James Baldwin. Casado, tem três filhos e mora em Curitiba.

 

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