Sica, Scott, Marta e o Mundo

Érico Assis

 

Rafael Sica e Paulo Scott conheceram-se em 2012, num evento literário em Porto Alegre. Sica havia acabado de publicar Ordinário, sua coleção de tiras. Scott havia acabado de publicar Habitante irreal, a história da adolescente indígena Maína. Alguns dias depois do primeiro contato, Sica recebeu um e-mail de Scott: um texto de sete páginas, que o escritor escreveu pensando no desenho do desenhista. O texto era Meu Mundo Versus Marta, a colaboração dos dois que está saindo pela Quadrinhos na Cia.

Entre aquele e-mail e a publicação, foram nove anos. Para quem não conhece o ritmo de produção nos quadrinhos, e talvez se assuste, é bom dizer que nove anos é um tempo nada incomum para produzir uma graphic novel. O quadrinista decupa o projeto, faz pesquisa, elabora os personagens e senta a bunda para desenhar. Aí chegam os boletos, os projetos mais rápidos que pagam os boletos, a vida, os filhos, as pandemias, as trocas com o escritor sobre o avanço das páginas, o outro livro que no momento parece mais interessante que esse e que vai dar uma arejada nas ideias para esse, aquela página que tem que redesenhar porque ele desenhou em 2012 e que não parece desenhada pela mesma pessoa de 2020, as mudanças de rumo, até chegar o dia de voltar pra prancheta e dizer “agora vai”. E aí vão mais uns meses. Nove anos passa rápido.

Paulo Scott escreveu o argumento de Meu Mundo Versus Marta em um dia. “Uma semana, se contar o tempo das revisões”, ele me contou por e-mail.

Sica começou a desenhar assim que recebeu. Fez dois capítulos e venderam o projeto. “Depois a história passou alguns anos parada”, ele me contou, também por e-mail, “o que serviu para eu ir entendendo um pouco mais daquele universo.”

Sica continua: “Deu tempo de ler quase todos os livros do Scott e deu tempo de refazer aqueles dois primeiros capítulos e então, em 2018, pegar de vez a história e terminar.” A partir daí, foram duas páginas por dia. Um ano e meio de desenho.

Um dia de argumento (ou uma semana, com revisões) virou um ano e meio de desenho (ou nove anos). Sete páginas de texto viram 160 páginas desenhadas, cada uma com vários quadros e com vários detalhes. Não se assuste: isso também é típico de fazer quadrinhos.

“Pra escrever rápido e com essa precisão, o Paulo provavelmente levou uma vida”, diz Sica. “Então, o tempo aí atua na sua relatividade.”

 

 

Qual é o argumento de Meu Mundo Versus Marta? Aquelas sete páginas ficam só entre Scott e Sica. O quadrinho é mudo: não há balões nem recordatórios – como é bem comum nos trabalhos de Sica. Eles querem que a interpretação fique por conta dos leitores. Mas Scott dá algumas dicas:

“A história se passa em um dia, 24 horas, mostra um ciclo entre um ser não determinado (um corpo estranho), o Marte, o Marta, e uma bio-robô, ou um robô com aspecto feminino, que se refaz todos os dias reiniciando o ciclo no qual os dois estão presos. Um ciclo que nunca é igual. Mando aqui para você o primeiro esboço que o Sica fez do Marta [acima]. Marta é Arma, pode ser Morte também - na verdade são as leitoras e leitores que decidirão.”

Scott chegou a escrever dois outros quadrinhos com roteiros tradicionais, com descrição de cenas, divisão de quadros e viradas de página. (Os dois projetos, com outros autores, ainda não saíram.) No caso de Marta, era um argumento aberto para Sica criar, “mas que tinha um fio narrativo muito definido e sólido”, diz o desenhista.

“No argumento está a minha história com todas as chaves possíveis, e, a partir delas, Rafael monta a história dele”, explica Scott.

“Fui fiel ao roteiro na maior parte do processo, mas tive muita liberdade pra criar em cima e alterar algumas coisas que considerava mais adaptáveis à linguagem dos quadrinhos”, diz Sica.

Scott diz que recebia esboços das páginas durante a produção e que sempre teve oportunidade de opinar. “Nunca opinei, apenas aplaudi”, ele diz.

“Outro aspecto que não pode ser desconsiderado é o fato de a história não ter diálogo”, Scott complementa. “Tem escritos, símbolos, referências, mas não tem falas –, o que proporciona uma condução oblíqua que se resolve muito no desenho, nos detalhes do desenho. O Rafael jogou uma super lente sobre o itinerário das personagens que movimentam a história. Nesse sentido, é uma história menos sufocante do que a minha original; é mais alegre e mais violenta também.”

E mais: “Não consigo olhar para a graphic novel e ver outra coisa que não seja um trabalho cem por cento do Rafael – o produto final é do desenhista.”

Foi a primeira experiência de Sica trabalhando com argumento de outra pessoa. Mas ele tornou o processo seu: “Em alguns momentos, eu esquecia que aquele argumento era do Paulo, de tanto que trabalhei nele. E acho que é assim que funciona: depois que eu li já não é mais do Paulo. A história é minha. Assim como cada leitor vai construir a sua história partindo dos meus desenhos e do argumento dele.”

 

Do caderno de rascunhos de Rafael Sica para Meu mundo versus Marta.

 

Paulo Scott segundo Rafael Sica:

O Paulo tem uma escrita cheia de imagens e com um ritmo intenso, rápido. Os personagens são cheios de contradição, principalmente em relação a seguir ou não seguir as regras. Ou os que mandam no jogo e os que estão de fora. É uma leitura política, mas em nenhum momento isso é direto ou panfletário.

Gosto muito de Habitante irreal. Tudo o que você precisa saber sobre o Brasil tá ali na história da Maína.

Rafael Sica segundo Paulo Scott:

Para descrever o trabalho do Rafael, sério, acho que teria de elaborar um ensaio – aprendi muito sobre ele nesses dez anos.

Se você ler o texto, você perceberá que muita coisa a respeito da trama não é entregue. Há um hermetismo na condução das ações das personagens protagonistas e das secundárias que as cercam – uma dinâmica narrativa que pede, exige, o engajamento criativo de quem queira com ela interagir.

As narrativas do Rafael têm essa peculiaridade: apostam na inteligência, na imaginação, na criatividade próprias da leitura. Estabelecem perspectivas variadas. Isso é fantástico.

Como poeta, aposto na interação criativa, na inteligência e na sensibilidade das leitoras e leitores. Rafael faz poesia de alta qualidade com seus desenhos sem diálogos. Poucos desenhistas no mundo têm esse dom.

 

Do caderno de rascunhos de Rafael Sica para Meu mundo versus Marta.

 

Levei algumas páginas para desconfiar que Meu Mundo Versus Marta se passa em Pelotas, a cidade onde eu e Sica moramos, e que Scott – de Porto Alegre, hoje morando em São Paulo – conhece. Muitas páginas lembram um game sidescroll pelas ruazinhas sujas, os portões carcomidos e as casas velhas da pequena grande cidade de interior. Sica já fez um livro inteiro sobre essa paisagem: Fachadas (ed. Lote 42).

Até que eu chego no capítulo seis, que é uma longa cena de Marta e sua garota-biônica almoçando no “Café Restaurante” – cujo logotipo com um peixe vestido de garçom é identificado na hora por qualquer pelotense.

O “Café Restaurante” tem outro nome no mundo real, mas vou chamá-lo de Café ___________. No centro do centro da cidade, é o ponto nevrálgico de conversas entre os figurões e as figurinhas de Pelotas, com movimento intenso tanto dentro quanto do lado de fora dos janelões. Durante os períodos recentes de lockdown, a polícia teve que dispersar velhinhos que não deixaram de comparecer ao ponto nos horários tradicionais, como se atraídos por um ímã. Toda cidade deve ter seu Café __________.

“O _______ é o lugar da cidade onde você sempre vai encontrar algum conhecido”, me escreve Sica. “E isso pode ser bom, mas pode também ser algo bem desagradável se você quer ficar sozinho tomando o seu café no balcão. Coloquei na história por conta da exposição que esse tipo de lugar causa, onde você é visto mesmo sem querer ser, onde você pode ouvir coisas que você não gostaria. Cabia ali no desenho, pois era um momento de ‘tribunal popular’ dos personagens.”

Mas ele me adverte: “Não é exatamente o Café _________. É o Café Restaurante.”

 

Do caderno de rascunhos de Rafael Sica para Meu mundo versus Marta.

 

Scott diz que não pensou em Pelotas enquanto escrevia, “mas achei fantástica a solução. Adoro Pelotas. Durante seis anos fui muitas vezes até aí. Não é de graça que Habitante irreal começa em Pelotas. Sem dúvida, o cenário da cidade torna a história ainda mais singular, única.”

Mesmo que Scott não tenha vislumbrado, Sica vislumbrou. “O texto do Paulo tinha algumas sugestões de que a cidade era algo parecido com Pelotas”, diz o pelotense. “Tomei a liberdade de adotar essa sugestão. Achei que caberia situar essa distopia no interior. É Pelotas, mas não é exatamente referencial.”

Sem dar muito spoiler, adianto que Marta tem cenas de briga nas ruas, de conflito com tropa de choque da polícia e explosões que devem alguma coisa a Akira. Perguntei ao Sica se ele escolheu Pelotas por ela ter algo de pós-apocalíptico.

“Com certeza. Todas as cidades são apocalípticas, então todas serão pós-apocalípticas.”

 

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o Blog com textos sobre histórias em quadrinhos. É autor de Balões de Pensamento (Balão Editorial), uma coletânea de textos lançados aqui no Blog. Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Minha coisa favorita é monstro Sapienshttp://ericoassis.com.br/

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