Sobre Controle (o imperativo)

Luisa Geisler

Foto: sbelov / Getty Images

 

Existe uma autora que conheci quando começaram a falar de “uma desconhecida indicada ao Jabuti.” Isso em 2016. Depois, ela virou “uma desconhecida que ganhou o Jabuti contra o Luis Fernando Verissimo e o Rubem Fonseca”. Depois, ela ainda ganhou outro Jabuti por Escolha do Leitor. Se você não sabe quem é Natalia Borges Polesso, ela é considerada uma das melhores autoras da literatura brasileira contemporânea.

Mas, de fato, só conheci essa autora quando pude começar a chamá-la de “miga”. Conheci Natalia porque somos de um meio literário minúsculo (o Rio Grande do Sul). Fizemos uma mesa juntas em algum momento e tomamos uma cerveja depois. Além de temas literários em comum, temos até mesmo mozys que são de Minas Gerais. Miga. Não amiga. Miga. Além de todos esses rótulos.

Digo “rótulos” porque Natalia alcançou um certo status (“hype”) por ser uma “autora lésbica” que escreve sobre “temas lésbicos”. Muitas aspas. Nada disso existe. Não existe “uma autoria feminina”. Isso além de ser autora revelação, promessa, essa coisa toda. Se pensarmos em um escritor branco heterossexual, esses rótulos não se repetem. Não existe um “universo heterossexual”, ou “temáticas heterossexuais”.

Existe um ditado que diz que quando um escritor homem branco se olha no espelho, ele vê um escritor. Mas quando uma mulher escritora negra se vê no espelho, ela vê um escritor, uma mulher e uma pessoa negra. Como se cada unidade dessas fosse uma camada a mais a se lidar antes de poder “ser escritor”.

Natalia Borges Polesso lançou seu primeiro romance, Controle, esta semana. A sinopse oficial é de que “Conhecida por sua escrita ritmada, informal e envolvente, Natalia Borges Polesso apresenta, em Controle, uma narrativa impactante sobre relações homoafetivas entre mulheres, o poder do desafio e, acima de tudo, as escolhas que precisam ser feitas para que as pessoas se tornem quem elas querem ser. Mesclando citações de letras da banda New Order em seu texto, a autora escreve um romance geracional que permanecerá na mente do leitor. A protagonista, Nanda, é epilética. Descobriu o transtorno ainda na infância, depois de uma queda de bicicleta, e sua vida nunca mais foi a mesma. Cercada de cuidado pelos pais, com medo de crescer e sair da casca protetora fornecida por sua condição, ela evita ao máximo o contato humano — exceto pela amiga, Joana. Mas compartilhar o que acontece na vida de outra pessoa não é como viver junto dela. Nanda se pergunta até quando conseguirá manter a rotina morna que leva. Porém, seu dia a dia será posto em xeque quando ela finalmente se der conta de que não viveu.”

Tive a alegria de poder ler esse romance ainda antes de ser lançado para fazer o bate-papo de lançamento do livro nesta semana. Para mim, esse romance fala das amarras, tanto as reais quanto as que a gente acha que existem. Porque existem amarras reais, em especial ao falar da epilepsia. Existem, de fato, mas existem amarras que a personagem, Nanda, coloca por cima dessas amarras reais. Como finas linhas de costura que vão se sobrepondo uma por cima da outra, até se tornarem uma corda, até se tornarem uma série de cordas. Sei que a imagem de um feixe ser difícil de quebrar, da união daquilo que se consideraria frágil, já foi usada em outros contextos. Mas talvez no caso de Nanda, suas próprias amarras sejam meio fascistas. Talvez só eu tenha feito essa associação porque tenho pensado demais em fascismo ultimamente.

Algo que me encanta nessa sinopse é que nem menciona o fato de que Nanda também tem dificuldade com a própria autodescoberta como um todo, em especial a sexual. Porque não é um romance sobre homossexualidade. É um romance com homossexualidade. É esse o grande acerto da Natalia em suas histórias, em seus contos, em sua poesia. Ela não é “uma escritora lésbica”.  Ela é uma escritora que também é lésbica. Sempre foi o acerto.

Claro que essas narrativas, essas representações, precisam existir. Narrativas lésbicas, negras, de pessoas com deficiência, precisam existir. Mas precisam existir não no contexto de “esta é a história da mulher lésbica que apenas lida com suas questões lésbicas, presentes em seu universo lésbico.” Precisam existir no contexto de esta é uma história de uma pessoa. Um ser humano. Que lida com suas questões. Presentes em seu universo. Não é um universo separado. É o universo humano. E é isso que a literatura faz. Obrigada por esse livro, miga.

Até porque, se houvesse um “universo homossexual”, eu aceitaria uma passagem só de ida para lá. Acho que deixam bissexuais ficar 50% dentro.

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Luisa Geisler nasceu em 1991, em Canoas, Rio Grande do Sul. É escritora e tradutora. Autora de Luzes de emergência se acenderão automaticamente (Alfagura, 2014), De espaços abandonados (Alfagura, 2018) e Enfim, capivaras (Editora Seguinte, 2019), foi duas vezes vencedoras do Prêmio Sesc de Literatura, além de finalista do Prêmio Machado de Assis, semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti. É mestre em processo criativo pela National University of Ireland. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

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