Sobre aquele beijo

Érico Assis

Young Avengers, n. 13, p. 14. Imagem original

 

“Por que eles não se beijam?”, perguntavam os leitores de Jovens Vingadores lá pelos idos de 2011. Quem queria saber eram os fãs do casal adolescente Hulkling e Wiccano, namorados desde a estreia dos Jovens.

“Porque não houve momento na narrativa que pedisse um beijo entre os dois”, respondeu o roteirista do gibi, Allan Heinberg. Ele e o desenhista Jim Cheung tinham criado o casal, já como casal, em 2005. Eles apareciam juntos há seis anos e não havia um mísero quadro em que os dois tocassem mais que as mãos.

Heinberg não estava tirando o corpo fora. Era estratégico: ele não queria um beijo marqueteiro, alardeado, feito para virar notícia. Sendo ele mesmo homossexual e defensor de representatividade gay nos quadrinhos, na TV e no cinema – ele já tinha carreira na TV, como roteirista das séries Party of Five, Sex and the City, Grey’s Anatomy e outrasHeinberg queria que personagens gays fossem só um elemento banal, realista e contemporâneo numa série com heróis teen. Dois adolescentes namoram, os dois são homens e era isso.

O primeiro beijo apareceu no final de uma longa história chamada Vingadores: A Cruzada das Crianças. Foi o fim de uma trama particularmente desgastante para Wiccano: ele havia descoberto quem era sua verdadeira mãe, a mãe ia casar com um supervilão, seu avô também era um supervilão, teve viagem no tempo, troca de socos, vilão que vira gigante, caras brabas gritando “NÃÃÃOOO!” e os X-Men. Isso dá 200 e tantas páginas. Aventura encerrada, Hulkling vai conversar com o Wiccano cansado e amuado, diz para ele melhorar a cara, insinua uma proposta de casamento, abraço e aquele beijo.

(Tem outro beijo na mesma Cruzada das Crianças: nas primeiras páginas, um vilão chama Hulkling de “sodomita” e diz para ele ler a Bíblia. Hulkling responde com um versículo de cor e dá um bitoca na bochecha do sujeito.)

A página com o beijo, o esperado beijo, não tem só o beijo. Tecnicamente falando, não é uma splash page. Mas, vá lá, o beijo ganhou ¾ da página, que é quase uma splash. Talvez tenha sido um agrado para os fãs que vinham pedindo. Se fosse um filme, a câmera se deteria na cena pela eternidade de três segundos.

A Cruzada das Crianças, a saga de 264 páginas, sendo ¾ de uma delas dedicada a um beijo, termina duas páginas depois. Foi só um beijo, como Heinberg queria. Depois de universos explodindo, heróis se estapeando com vilões e entre si, mortes e reencontros, um beijo e um abraço para a narrativa respirar.

Não foi o primeiro beijo homossexual num gibi. Bem longe disso. Smack! O beijo nos quadrinhos, de Gonçalo Júnior, tem um capítulo inteiro dedicada aos beijos “proibidos”, como o de Tristã e Isolda em Camelot 3000, de 1985 (censurado na primeira edição brasileira, aliás). Tampouco foi o primeiro beijo homossexual na Marvel.

Aliás, faz 80 anos que a Marvel publica quadrinhos segundo códigos de conduta interno e externos que se opõem a retratar o ato sexual e genitálias, ou usar palavrões. Quando há exceção, a capa traz alertas tipo “recomendado para leitores adultos”. (A média de idade do leitor atual é 36 anos, mas mantém-se o código e os alertas para as três crianças que ainda leem gibi.) Em 2006, um porta-voz da editora fez questão de dizer que nunca houve nem nunca haveria um alerta na capa de gibi da Marvel pelo mero fato de a história trazer um personagem homossexual. No mesmo ano, a editora ganhou seu primeiro GLAAD Award – prêmio de uma ONG que destaca a representatividade gay – por Jovens Vingadores. Antes do beijo, quando Wiccano e Hulkling só se davam a mão.

Anos depois, em outra história, outro contexto, com outro roteirista e outro desenhista, quando os Jovens Vingadores já eram uma equipe com todo o arco-íris sexual de uma turma de humanas, Wiccano e Hulkling trocaram um beijo que é a redenção de uma saga de 13 edições. O beijo explode e ofusca a supervilã. Também faz um personagem reagir: “Eca. Sério que é o amor que vai salvar tudo?” Outra personagem responde: “Claro que vai. Se alguém achar que não, eu pisoteio até virar papinha.”

Hoje, fim de domingo, três dias depois de o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella declarar que queria recolher da Bienal do Livro livros com “conteúdo sexual para menores” – e exemplificar com Vingadores: a Cruzada das Crianças, que não tem nenhum conteúdo sexual – e realmente mandar fiscais conferirem livros na Bienal, circulam no Twitter montagens em que o beijo de Wiccano e Hulkling é inserido em fotos com buracos na rua, viaduto caído e outros descasos da administração do Rio. #CrivellaCorreAqui, elas pedem.

Isto depois de uma reação rápida e veemente do mercado editorial aos fiscais do Crivella, da distribuição gratuita de 14 mil livros com temática LGBTQI, do maior jornal do Brasil estampar o beijo na capa, de decisão do Supremo Tribunal Federal contra a tentativa de censura, de Crivella agarrando-se a uma interpretação patentemente errada do Estatuto da Criança e do Adolescente como arremedo de defesa, de um movimento que saiu da internet e chegou a corredores da Bienal, a tribunais e às mãos de leitores para defender um beijo e tudo que esse beijo representa.

Que venham mais beijos. E que se defenda mais beijos.

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o blog com textos sobre histórias em quadrinhos. Foi editor convidado de O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (editora Narval). Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Garota-Ranho Minha coisa favorita é monstrohttp://ericoassis.com.br/

 

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