Sonho “coletiva”

Marília Garcia

 

A foto acima foi tirada no dia 1o de maio de 2009, mas parece ser do século passado. É que, em certa medida, ela traz o sabor de um slogan de outro maio, o de 68, “Sous le pavés, la plage”, “debaixo dos paralelepípedos, a praia”. Quando, em 68, os manifestantes começaram a fazer barricadas nas ruas e pegar os paralelepípedos do calçamento para usar no confronto com a polícia, viram que debaixo das pedras havia areia. No meio do coração de Paris, a muitos quilômetros do mar, sob os pés, a areia da praia.

Em maio de 2009, em meio à crise financeira mundial e às medidas austeras do governo, a França parou para uma greve geral que reuniu mais de um milhão manifestantes. E as palavras de ordem que se espalharam pelo país naquele maio não foi “grève générale” (greve geral), mas, sim, “rêve générale”: locução que traz um eco da “grève” não só em “rêve” (sonho) como também na concordância do adjetivo “générale”, que em francês deveria vir no masculino para concordar com “sonho” (“rêve general”). Como “geral” em português não produz o efeito do original (por ser adjetivo de dois gêneros), uma possível tradução seria o “sonho coletiva”.

Debaixo da greve, o sonho. Essa possibilidade de fazer coisas com a linguagem, de construir um sonho a partir das pedras, da greve, de um desvio na concordância do gênero.

Onde será que foram parar nossos sonhos coletivas neste improvável 21?

Estava pensando nisso ao ler um poema de Luiza Romão que também provoca um desencontro nos gêneros, e que também faz coisas com a linguagem por meio de um deslocamento (formal) destes gêneros. Luiza Romão está entre As 29 poetas hoje, antologia organizada por Heloisa Buarque de Hollanda.

 

Número de registro

 

a filho não ter o filiação da pai

no certidão de nascimento

é hábito antiga

agora o mãe exigir direito à aborto

é uma crime de vida

 

em alguns casos

não só a gramática

sofre concordância de gênero

 

(Veja aqui a leitura do poema feita pela autora.)

 

“Número de registro” faz parte de seu livro Sangria (Selo do burro, 2017) que busca revisitar a história do Brasil e pensar a identidade do país a partir de uma perspectiva do útero, usando como estrutura as fases do corpo feminino, como os 28 dias do ciclo menstrual (são 28 poemas). Luiza conta que, quando pesquisava para o livro, deparou com o número de pessoas no país que não têm em seu registro o nome do pai: 5,5 milhões, e foi a partir desse número que decidiu escrever o texto. Ao nomear, no poema, tal “hábito antiga” sem concordar o gênero, Luiza tira o hábito do campo das coisas habituais e automatizadas e nos leva a ver o hábito de outra forma. E ao nomear o “direito à aborto” como “uma crime de vida”, ela dá a ver “a crime” de gênero.

Enquanto na Argentina, o aborto acaba de ser legalizado, por aqui ainda estamos passando por transformações que são da ordem do discurso. No começo deste março de 2021, a justiça brasileira finalmente proibiu o uso retórico do argumento da “legítima defesa da honra”. Tal recurso (“hábito muito antiga”, diria o poema de Luiza Romão), usado pela defesa em casos de feminicídio, consistia na absolvição de réus com o argumento de “defesa da honra” (mesmo em casos em que há provas materiais do crime). Em outras palavras, um homem podia justificar o assassinato de uma mulher e ser absolvido se estivesse defendendo a honra. A partir de agora, com a proibição, nenhum advogado poderá mais usar tal argumento. Para haver mudanças reais, é preciso que elas sejam feitas na letra e nos discursos, quem sabe assim possamos voltar a sonhar em meio ao sombrio desses dias. E que os sonhos possam ser cada mais coletivas.

 

***

 

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

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