Teoria do acaso para fumantes

Marcílio França Castro

Hendrick Goltzius, século 16. Museu Nacional da Eslovênia, Liubliana

 

Três, um, três. Sempre imagino os números. Da minha janela, dá para ver os jogadores em volta do tabuleiro, a mesa improvisada na esquina da rua. Se os dados caem e eles permanecem quietos, o lance é corriqueiro. Nenhuma expectativa foi desafiada, o acaso age conforme a lei – segue seu curso natural. Pode então ser chamado de sorte, boa ou má. Em sua forma mais discreta, o acaso funciona assim: está em cada acontecimento, no fluir da vida – é a seta do tempo puxando para o caos. Sempre que fumo um cigarro, sempre que vou à janela e acendo um cigarro, presto atenção nos jogadores. São três ou quatro, cada um em seu silêncio. Às vezes, um curioso espia por trás. Gastam horas ali, sacudindo os dados e as mãos. Um, cinco, um. Seis, seis, seis. Um deles pula do banquinho, grita, aponta para os dados. Pode ter sido uma combinação decisiva, que derrubou um jogador. Se os dados se repetem, e se repetem de novo, ou se respondem a um desejo escondido, houve uma coincidência.       

A coincidência é aquele ramo do acaso em que, sempre de forma inesperada, dois caminhos se cruzam – ou se espelham: um enlace, um retorno, uma repetição. Geralmente o evento é trivial; às vezes produz uma faísca, uma iluminação. Esbarrar em um estranho duas vezes no mesmo dia, em lugares improváveis e distantes. Abrir o livro exatamente na página que você procura. Sonhar com uma amiga do passado e ser procurado por ela no dia seguinte. As possibilidades são infinitas; cada um inventa os seus acasos. Uma história de Jung tornou-se conhecida. Em sessão com uma paciente, ele a ouve contar um sonho no qual recebia um escaravelho dourado de presente. No mesmo instante, um besouro se choca contra o vidro da janela. A esse tipo de coincidência, em que um pensamento ou um sonho coincidem com o acontecimento, Jung chamou de sincronicidade.

O acaso – ou a coincidência – ao extremo gera os ganhadores de loteria e os sorteados para a morte. O passageiro de um voo fica preso no engarrafamento, não chega a tempo de embarcar. O avião desaparece no oceano. Devido a um problema no prédio, uma mulher sai mais cedo do trabalho, decide ir ao cinema. Na fila para o ingresso, encontra aquela que será sua sócia, e a livrará do emprego. O acaso deixa de ser uma contingência para se tornar um nó, ou uma bifurcação. O destino é tragado pelo incidente; o futuro surpreende, ganha um rumo inusitado. A esse tipo de acaso, talvez se possa chamar de singularidade.

Balzac, no texto de apresentação à Comédia humana, escreve que “o acaso é o maior romancista do mundo” e que “para ser fecundo, basta estudá-lo”. Considero dois lados nessa observação. Do ponto de vista de quem escreve, o acaso serve à duração e às saídas, ao modo como se costura a história e se abrem suas janelas. Do ponto de vista do leitor, o acaso, ou o seu mapa, é uma pista para entender que tipo de realidade a narrativa supõe, ou que mitologia ela cria. Na Odisseia, o destino de Ulisses é traçado pelos deuses. Ulisses, porém, é astuto e curioso, desvia-se e cai em armadilhas. Dá trabalho a Atena, que precisa intervir para assegurar a vontade dos imortais. Ela aconselha, espalha o sono, planta ideias na cabeça do herói – e de Penélope. Para que uma nau se mova, um vento aleatório torna-se uma tempestade necessária. Eis o acaso divino. Já no caso de Édipo, personagem da tragédia de Sófocles, os deuses não intervêm, mas a predição está posta e é incontornável. O oráculo é onisciente; antecipa o que os homens, com sua visão limitada do tempo, não conseguem enxergar. Fugir da profecia apenas precipita o acaso. Em uma encruzilhada, Édipo cruza com um viajante desconhecido, os dois se desentendem, Édipo o mata. O viajante é seu pai. O acaso aí se apresenta como destino, como fatalidade. São as Moiras fazendo o seu trabalho.

Nos romances de cavalaria ou de aventura, o acaso parece ter sempre o efeito de uma varinha de condão, que, com seu toque, desembaraça a trama (Bakhtin é quem detalha o mecanismo). É o que acontece em Tristão e Isolda. De súbito, sopra um vento mágico, que salva o herói de uma queda. Também de súbito e na hora exata, todos os dez guardas do castelo estão dormindo, e a princesa escapa sem ser vista. Se há um dilema, logo surge uma luz, uma fera, um peregrino, e com eles vem a solução. Assim o acaso abre os seus atalhos, sem sutileza nenhuma, às vezes sem lógica. Assim os personagens saltam de uma aventura a outra. Como um rio que serpenteia e volta ao curso, a história flui para o desfecho inevitável, amoroso ou cruel.

Para o leitor moderno, acostumado aos efeitos de real, esse tipo de acaso – funcional, se posso dizer assim – tende a ser visto como frágil e pouco engenhoso, porque não soa espontâneo, porque se esconde mal na teia da narrativa. A ficção, ainda hoje, continua a usá-lo, mas ouvir atrás da porta ou tropeçar em um maço de cartas serão estratégias vulgares se servem apenas para desmontar um segredo ou criar reféns. Como artifício narrativo, melhor seria não limitar o acaso a nenhuma equação, deixá-lo vir pelas bordas, livre, e só então capturá-lo. Quanto mais discretamente, melhor. Borges fez isso ao interceptar a conjunção de um espelho com uma biblioteca — e descobrir Uqbar. Paul Auster construiu um roteiro abrangente dessas possibilidades, a partir de nomes falsos e duplicados – e telefonemas equivocados no meio da noite. Em Austerlitz, romance de W. G. Sebald, o protagonista, que empresta seu nome ao livro, e o narrador se conhecem casualmente na estação de Antuérpia, na Bélgica. É um encontro direto e leve, como são os bons acasos. A partir daí, travam outros encontros e conversas; toda a memória pessoal e crítica de Austerlitz é desnovelada, repartida com o narrador e com o leitor. Depois de trinta anos sem notícias um do outro, esbarram-se de novo, e outra vez por acaso, perto de uma estação londrina. Os fios dessas lembranças se embaralham tão delicadamente que ficamos com a ilusão de um entrelaçamento prévio; as coincidências evocam a biografia do próprio autor. Em Reparação, romance de Ian McEwan, a menina que fantasia tornar-se escritora flagra a irmã com um amigo da família entre as estantes da biblioteca. A passagem merece atenção. Em um vislumbre, um pequeno laboratório se apresenta para a futura romancista; vários temas se condensam em uma lição única de literatura e de vida: sexo, ciúme, traição, culpa, perversidade – e acaso. Não se trata mais de um atalho, de um mero instrumento, mas de uma fenda que se abre na história. Em maior ou menor grau, são esses os verdadeiros acontecimentos, pequenos cortes capazes de dobrar o tecido da narrativa e a trajetória dos personagens. Algumas vezes se confundem a epifania.

Enquanto dura o cigarro, enquanto dura esse calor, continuo na janela. Cada lance de dados é um teste para o acaso; o desejo de vencê-lo é que provoca o jogo. De vez em quando, algo parece escapar ao duelo, um lampejo e o tempo se dilata, os dedos do jogador se desarmam em câmera lenta, e é como se balançássemos todos, os jogadores da esquina e eu, no mesmo barco, em alto-mar — até que os dados mostram sua decisão. Cada lance ecoa, evidentemente, o poema de Mallarmé, que parece ter colocado a literatura nessa corda bamba. O acaso como método é algo a ser aprendido – nem que seja para fumar.

Se o acaso espreita, não se pode recebê-lo sem imaginação. Tal como os jogadores se arriscam, com dados ou cartas, e depois recolhem sobre a mesa seus pares e coringas, aquele que escreve (e o que lê) também precisa exercitar a distração, e a aposta. Ao mesmo tempo, é preciso atenção. Na literatura, o acaso nada mais é do que uma distração atenta. Flanar e vigiar, abrir a porta ao imprevisto como se hospeda um estrangeiro, alguém que pode lhe trazer um presente. Entretanto, tal como os oráculos, o acaso é dúbio. Por sempre enganar, exige tino e reconhecimento. Se você o decifra, não pode esquecer de perguntar: que papel tem o decifrador? Mal interpretado, o acaso resulta em cegueira.

Sopro a fumaça pela janela, espero para ver a direção do vento, os arcos e os anéis que vão se desenhar. Continuo vindo à janela, mas não vejo os jogadores. Há meses não os vejo. As lojas desceram as portas, os pedestres são raros, uma águia (não sei de que campina saiu) faz companhia aos pardais. A Peste tirou todos da rua, folhas secas cobrem a mesa do tabuleiro.  Todos temem perder. Se a deusa Fortuna tem um barco, ou se navega sobre uma concha e é o próprio barco, e o vento, soprado pelos anjos, infla as velas desse barco, a Peste paralisa o vento e o barco. A Peste, repentina, como um acaso vil. Quando todos se recolhem, quando o tempo não joga os seus dados, a roda está travada. Nada acontece. Tempo, vida e acaso são a engrenagem do jogo.

Enquanto dura esse cigarro, tento ver algo que se mova na rua, do lado de fora da minha janela. Se eu soubesse traduzir o pio dos pássaros, os seus augúrios e rotas de voo, prediria quando a desordem vai recomeçar. Há uma crença entre os jogadores, entre os que amarraram a vida ao jogo, de que, quando um certo grupo de números é sorteado várias vezes, os vermelhos, por exemplo, ou os ímpares, ou os altos, uma série contrária inundará em seguida a mesa para compensar: os pretos, os pares e os baixos. Os matemáticos afirmam que essa tese é uma falácia, que os cálculos a desmentem. De minha parte, temo o perigo. Olho a rua deserta, faz seis meses que não saio. Receio que, depois de tanto tempo obstruídos, os acasos, e todas as coincidências, irrompam de uma só vez, como as águas de uma represa. Os dados podem ficar fora de controle.

 

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Marcílio França Castro nasceu em Belo Horizonte, em 1967. Mestre em estudos literários pela UFMG, publicou, entre outros, Histórias naturais e Breve cartografia de lugares sem nenhum interesse, pelo qual recebeu o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional.

 

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