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"Trabalhar para não fragmentar"

Marília Garcia

 

Há dois dias entrou pela janela um besouro. Eu estava sentada mastigando a ponta de um lápis e vi. Tinha acabado de ler uma frase num livro: “Trabalhar para não fragmentar”, de Louise Bourgeois. Pensei que essas duas coisas tinham uma relação. Com o lápis mastigado, anoto: um besouro voando pela sala e o trabalho. O besouro voa para não fragmentar. O besouro, um zumbido pela sala, indo de um lado para o outro.

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Leio outra frase no livro de Bourgeois:

“Meu trabalho inicial é o medo de cair. Depois se tornou a arte de cair. Como cair sem se machucar. Mais tarde é a arte de se manter no ar.”

Com o lápis mastigado, reescrevo a frase dela:

Meu trabalho começa com o medo de abrir os olhos. Depois é a arte de abrir os olhos. Como abrir os olhos no escuro. Mais tarde é a arte caminhar no escuro.

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Quando comecei a falar sobre os processos de escrita, percebi que, ao falar, me sentia fora do processo, afinal, não estava escrevendo no momento da fala. Se eu falo sobre um poema (em vez de falar o próprio poema), estou fazendo uma paráfrase dele. O mesmo acontecia com o processo de escrita: ao falar, não estava experimentando o processo, então ele me escapava. Seria preciso viver o processo para falar dele. Se estou escrevendo um poema agora, então agora, nesse momento, o poema me conduz, me diz coisas, cria conexões e sentidos e instaura uma espécie de temporalidade outra. Se estou escrevendo agora, posso mudar

de linha

 

posso mudar de assunto:

— Isso aqui é um grão de areia?

— Você viu, ontem,

durante o passeio,

um inseto voando ao nosso lado?

— Ouvi um zumbido constante

— Acho que um rádio ligado vai atravessando tudo

para dar aqui nesse ponto:

uma melodia, estou reconhecendo,

cortada pela estática.

 

Estou sentada em uma cadeira muito grande, o chá pelando na xícara.

De repente tudo pode vacilar ou sair do controle e é preciso se manter no ar, com as asas batendo. Trabalhar para não fragmentar.

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Não conseguia dar os depoimentos pois, estando fora do processo, ele me escapava. Um dia, tentei escrever um depoimento como se fosse um poema. O ponto de partida era o poema: vou ligar o botão da escrita de poesia e seguir em frente. Posso ser levada para outros lugares, posso até ficar de costas para o poema, mas não me afasto muito: ele está sempre comigo, não desgrudo dele, pode ser que esteja escuro, não dá para ver com nitidez o caminho, mas vamos lado a lado, e se me distancio muito, preciso da pausa, da quebra, preciso dar um salto para fora.

da linha.

do tempo.

Para cair. Para me manter no ar. E voltar.

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Um dia um amigo me disse que ler meus textos era como escalar um poço pelo lado de fora; mas, ao fim, no alto da escalada, dava para ver de cima o poço lá embaixo. Esqueci de perguntar a ele se o lado de dentro do poço seria “a poesia”. Mas guardei a pergunta, prefiro mantê-la como pergunta. Guardei também a sugestão de um certo jogo de escala, o poema só é visto de longe.

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O poeta chileno Enrique Lihn termina o poema “Limitações da linguagem”, de seu livro Diario de muerte, assim:

 

Temos aqui um homem apertando o gatilho contra a própria têmpora
Ele vê algo entre este gesto e sua morte
Ele vê algo durante uma partícula elementar do tempo
tão curta que não fará parte dele
Se alguma coisa pudesse alargá-la sem temporalizá-la
uma droga (descubram-na!)
seria possível escutar os primeiros pálidos ecos
de uma inédita descrição daquilo que não é

 

Talvez o poema nos faça vislumbrar esse momento entre, essa partícula elementar do tempo que mostraria alguma coisa fora da existência das coisas e que serviria para descrever aquilo que não é.

Marília Garcia nasceu em 1979, no Rio de Janeiro. Publicou, entre outros, Um teste de resistores (7letras, 2014) e Câmera lenta (Companhia das Letras, 2017; vencedor do Prêmio Oceanos de Literatura 2018).

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