Traduzindo Sapiens

Érico Assis

 

Tem uma página de Sapiens que é intraduzível. Sapiens versão HQ, no caso, a que eu traduzi. Embora não tenha traduzido esta página. Joguei a toalha.

É a página acima, a 170. Eu traduzi apenas os balões do Padre Klüg, que está explicando a Yuval Harari o que é animismo. “O animismo é a crença de que quase todo lugar, todo animal, toda planta… todo fenômeno natural, tem consciência e emoções, e que pode se comunicar diretamente com os humanos.”

Não sei se foi o desenhista Daniel Casanave, se foi o roteirista David Vandermeulen ou se foi o próprio Harari quem deu a ideia de encenar o diálogo num cenário em que a natureza começa a cantar e dançar. Provavelmente foram os três autores juntos.

A natureza canta e dança em inglês. Caso eu traduzisse as músicas, seria difícil você identificá-las. E, se você reconhecer as músicas, tenho confiança de que vai sacar os jogos de palavras e imagens na página, mesmo que precise de um pouquinho de conhecimento de inglês.

As águias do alto cantam “Hotel California”. Da banda Eagles (águias).

Pedras rolando cantam “Wild Horses”, dos Rolling Stones (pedras rolando).

Terra, vento e fogo cantam “Ba de ya, say do you remember", refrão de “September”. Da Earth, Wind & Fire, ou “terra, vento e fogo”.

Na metade direita da página, os trocadilhos são um pouco mais ousados. O arbusto (bush) que canta a música de Kate Bush, tudo bem. Mas e o quarteto de beetles (besouros) que canta “Lucy in the Sky with Diamonds”, dos Beatles?

E por que a árvore cantora canta Beach Boys? Porque é uma beech, ou faia.

Espertinhos os senhores Casanave, Vandermeulen e Harari, né? E com gosto musical de cinquentão, mas tudo bem. (Se você tiver menos de trinta, pergunte aos seus pais o que é Kate Bush.) O trio cinquentão, porém, não pensou nos pobres tradutores e na nossa sensação de derrota.

*

Perguntei a uma representante da Sapienship, a empresa que gerencia as publicações de Yuval Harari, como os outros tradutores tinham lidado com a página 170. Sapiens, a HQ, teve lançamento quase simultâneo em uns vinte idiomas no final do ano passado.

Ela me disse que os tradutores do búlgaro e do chinês simplificado traduziram as letras. Como não entendo nenhum dos idiomas, não pedi para ver. Mas ela também me garantiu que os tradutores de português europeu, turco, italiano, dinamarquês, holandês, norueguês, espanhol, catalão, hebraico e alemão não traduziram. Jogaram a toalha, como eu.

Bom, não sei se os outros tradutores se sentiram derrotados como eu me senti. Tem gente abençoada que encara uma coisa dessas, decreta que é “intraduzível” e passa à página 171, tranquilo com seus deuses (e seus editores).

Eu resolvi encarar. Pedi ajuda, como faço muito, aos colegas de podcast Mario Barroso e Carlos Rutz. Eles têm larga experiência com trocadilhos, tanto os trocadilhos entre palavras quanto os trocadilhos entre palavras e imagens. Faz parte da vida de tradutor de HQ.

“Troca por músicas brasileiras afins”, disse o Mario. “As águias cantam ‘Asa Branca’ etc.”

Eu ri do “etc.” E como que eu faço com as outras, Mario??

“Tem ‘a pulga e o percevejo’. Tem ‘aquela nuvem que passa…’. Você ressuscita a carreira do Gilliard”, disse o Mario.

Não quis dizer que não sei o que é Gilliard. O Mario também é cinquentão. Pode ficar ofendido.

O Carlos sugeriu legendas: “Rolling stones, Kate bush”.

Os dois falaram em notas de rodapé, ou no final do livro. Eu sempre fico meio assim-assim de explicar piada. Ou trocadilho.

O fato é que, em 99% das vezes que recorro ao Mario e ao Carlos, eles me dão soluções brilhantes, singelas, que eu nem imaginava possíveis. Se não me encantei com as que eles deram nesse caso, é que o troço não tem solução. Joguei a toalha.

*

Tem um complicador que eu ainda não mencionei. Sapiens, a HQ, não foi escrita em inglês. O original é francês e, nesta página, trazia as músicas em inglês.

Se o original francês usava trechos em inglês, eu devia ficar tranquilo quanto a não traduzir o que está em inglês, certo? Não necessariamente. O convívio que os franceses têm com a língua inglesa é maior do que a fluência que os brasileiros têm com o inglês. Por mais que os franceses tradicionais neguem, eles falam mais inglês que a gente. É tranquilo soltar músicas ou expressões anglófonas no meio de um gibi francês.

Por que eu não sugeri que a página fosse redesenhada? Por que, quem sabe, não trocar os elementos da natureza por coisas que remetam a bandas ou artistas brasileiras, cantando músicas brasileiras?

Porque, nos quadrinhos, isso não se faz. Quer dizer: até se faz, mas é um troço bem controverso. Entre conseguir autorização dos licenciantes, conseguir um desenhista ou pagar uma nova página ao sr. Daniel Casanave e leitores reclamando que a edição brasileira foi “deturpada”, melhor não incomodar ninguém.

*

Tem uma anedota interessante aí no meio. A contato da Sapienship me informou que Yuval Harari (israelense), Daniel Casanave (francês) e David Vandermeulen (belga) não têm um idioma em comum. Harari não fala nada de francês, enquanto os colegas europeus não falam nada de inglês.

“David escreve em francês, nós traduzimos para o inglês, Yuval comenta e edita, retraduzimos para o francês e assim por diante”, me disse a representante. “Quando temos uma reunião editorial (que no último ano só foram possíveis via Zoom), o editor francês faz a tradução nos dois sentidos.”

(Os tradutores da HQ Sapiens, como eu, têm acesso às versões em francês e em inglês. A versão em inglês – por Adriana Hunter – é tratada como a versão master.)

Os lapsos entre países e idiomas não foram empecilho algum. É o que se percebe no resultado. Sapiens, a HQ, é uma atualização, um esmiuçamento e um comentário gráfico criado a partir de Sapiens, o best-seller em prosa. Vandermeulen e Casanave vêm de uma carreira de grandes sacadas na divulgação científica em quadrinhos, e Harari ganhou a chance de ir mais longe em termos de exemplos – e de dados – em relação ao best-seller. É mais que uma adaptação.

Por falar em adaptação, fiquei em dúvida se deveria amansar o trecho com o personagem “Fulano da Silva” – “Senhor S.” no original francês, “João Doe” na versão em inglês – nas páginas 128 a 134.

Harari e colegas estão palestrando no Rio de Janeiro quando são interrompidos por um sujeito que contesta todos os dados que eles trazem sobre organização familiar, tanto entre os Sapiens quanto entre outros bichos.

É um representante da família tradicional brasileira, que não aceita que “no Brasil, apenas 50% dos lares são constituídos por casais heterossexuais com filhos biológicos” e que “o arranjo mais comum na idade da pedra era em grandes famílias comunitárias, como os chimpanzés”. Fulano da Silva diz que uma família só pode ser de mãe, pai e filhos biológicos, como a sua. Sai da palestra indignado.

Nunca sou de amansar texto dos outros, nem queria fazer isso com a caricatura que Harari, Vandermeulen e Casanave haviam imaginado para uma parte da população brasileira. Mas fiquei com medo das reações extremadas no nosso país extremado. Será que eu, tradutor, devia mexer…?

No fim, não mexi nem sugeri alterações. Nem preparador, nem revisores nem editor mexeram. Seria desrespeito com os autores, no mínimo.

Além disso, pelo que me conta o editor, até agora ele não recebeu reação alguma quanto à cena com Fulano da Silva. Quem leu Sapiens deve concordar que não é caricatura. É realidade.

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Érico Assis é tradutor e jornalista. Mora em Pelotas e contribui mensalmente com o Blog com textos sobre histórias em quadrinhos. É autor de Balões de Pensamento (Balão Editorial), uma coletânea de textos lançados aqui no Blog. Traduziu para a Quadrinhos na Cia., entre outros, Minha coisa favorita é monstro e Sapienshttp://ericoassis.com.br/

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