Trecho exclusivo de "Devassos no paraíso", de João Silvério Trevisan

Confira o trecho exclusivo de Devassos no paraíso, considerado o livro mais completo sobre a história da homossexualidade brasileira, escrito por João Silvério Trevisan:

Com todos os percalços em décadas de existência do ativismo pró direitos LGBT, foi possível aprender a regra da solidariedade entre oprimidos e a força da autonomia de sua voz. No campo onde está em jogo a sobrevivência do desejo e do afeto, o pontapé inicial já foi dado e a bola continuará rolando. Socialmente, os espíritos e as consciências interagem numa vasta rede de vasos comunicantes. Assim como cada sermão religioso homofóbico vai alimentar a violência na outra ponta da intolerância, assim também toda consciência que se movimenta em busca da sua emancipação alimenta outras consciências, como nos movimentos circulares que recebem impulso a partir da pedra jogada num lago. Se as experiências individuais fecharam a porta da frente do Paraíso, foi possível descobrirmos a porta de trás, como forma de resgatar a inocência do desejo. Pois bem, se até essa entrada traseira do Paraíso for fechada por aqueles que nos condenam, será reaberta tantas vezes quantas necessário. Nem que seja no porrete, como diria o personagem Augusto Matraga, no famoso conto de João Guimarães Rosa. Entenda-se o porrete, aqui, como metáfora para a insistência, integridade e força do desejo.

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Vencidos o medo de ser e a resignação de antigamente, oprimidos em estado de purpurinização não precisam pedir licença aos guardiões do poder heteronormativo, nem bajular aqueles supostos parceiros, como se a sobrevivência dos nossos desejos, afetos e amores dependesse deles. Quanto maior for a compreensão de que no território do desejo não existem mestres nem patrões, tanto maior será a eficácia dos sujeitos em estado de construção de suas singularidades.

Se existe a escuridão opressiva ao nosso redor, nossa função é brilhar. Exatamente como os vaga-lumes, que só brilham se houver escuridão e são tanto mais vaga-lumes quanto mais escuro estiver o entorno. Talvez pareça estranho que sua luz precise das trevas para ser luz, como se “feita da matéria sobrevivente […] dos fantasmas”, no dizer do filósofo francês Georges Didi-Huberman. Mas aí exatamente se encontra aquela capacidade de renascer das cinzas, como fantasmas iluminados, que emitem sinais de liberdade na noite. “O infinito recurso dos vaga-lumes é sua essencial liberdade de movimento, sua faculdade de fazer aparecer o desejo como indestrutível por excelência”, lembra Didi-Huberman. Não por acaso, é justamente no meio das trevas que se efetua a dança viva dos vaga-lumes, “esse momento de graça que resiste ao mundo do terror”, apesar de fugaz e frágil. E que dança é essa? Não é “nada mais […] do que a dança do desejo formando comunidade”. Em resumo, enquanto vaga-lumes, os dissidentes da heteronormatividade irão “formar novamente uma comunidade do desejo, uma comunidade de lampejos emitidos, de danças apesar de tudo”. Através da dança renitente de vaga-lumes purpurinados, diremos sim no meio da noite atravessada pela execração que os senhores do poder emitem para nos ofuscar. Assim, a opressão que tenta sufocar nosso desejo, ela mesma será o motor da nossa luz e da nossa dança de vaga-lumes na noite. Quanto mais escuridão dos opressores, maior será a luz emitida pela purpurina dos oprimidos.

O lançamento está previsto para 20 de agosto.

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