Tufão

Noemi Jaffe

Foto: Sung Yoon Jo/ Getty Images

 

Como todo escritor, queria que esse fosse um texto definitivo. Que dissesse coisas idênticas às sensações, aos sentimentos e às opiniões. Que as palavras se assemelhassem às coisas e as fizessem falar, no lugar de falar sobre elas. Que um leitor, lendo isso, se lembrasse outra vez do que é ouvir as coisas como se pela primeira vez e então se sentisse iluminado, esquecesse de quem foi o autor e se admirasse consigo mesmo, por estar vivo e poder ler. Que as palavras fossem iguais ao silêncio ou ao grito. O silêncio, um estado pré-verbal, que contêm todas as palavras ditas e não ditas em potência, antes que elas se transformem em ato e se percam na selva das coisas que querem dizer outras coisas e, por isso, não dizem nada. O grito, uma força que também conteria tudo o que pode e não pode ser dito, amalgamando guturalmente o terror de nada mais se poder dizer. Extirparia os sinais de pontuação, hierarcas de um poder já decadente, que impõem uma ordem forçada numa língua que já se perdeu, que erra solta em frases mascaradas, patriota, nacional, capital e deus. Deus, que escreveu certo por linhas tortas, onde estão essas linhas que agora só se escrevem certas, obedientes e quase mortas? Eu queria que esse texto fosse a própria palavra texto, que viesse sendo tecido a cada letra, agulha enfiada na linha, eu não sabendo o que será escrito na próxima palavra, vírgula encaminhando vazios, letras surgindo do desenho, palavras se esquecendo de mim. Queria desaparecer daqui, que só as palavras se dissessem outras, vazias de mim, suando e chorando, expelindo lava e muco. Que não houvesse mais metáforas, imagens bonitas, beleza nenhuma, só feiura e rejeição. Que nada representasse nada, que as palavras se enfiassem para dentro delas mesmas e, lá dentro, se rebelassem contra os homens que as dizem, recusando-se a falar, essa urgência burra dos humanos. Que, ao ser lido, esse texto gerasse ódio, pavor e recusa. Que, ao lê-lo, aquele ser iluminado do início entendesse a verdadeira intenção de tudo e partisse para outros mares, outras montanhas. Que nada mais fizesse sentido para ele, nem a história nem os fatos e ele resolvesse falar mentiras, contar histórias, inventar canções e gritos de luta. Que, aqui mesmo, agora, eu hesitasse brutalmente e não soubesse mais dizer o que digo, querer o que quero, saber o que sei. Que eu parasse de saber e escorregasse aqui mesmo, pelas palavras, que iriam, sozinhas, terminar esse texto mendigo, tomar o poder, saia, saia daqui, sua louca das palavras, a partir de agora esse espaço é nosso e vamos dizer o que você não sabe: risco, falência, desespero, sujeira, erro, cadafalso, tufão.

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Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu Não está mais aqui quem falouÍrisz: as orquídeas e O que os cegos estão sonhando?, entre outros. Dá aulas de escrita em seu espaço, a Escrevedeira.

 

 

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